Portugal excluído do corredor aéreo do Reino Unido. Turismo aponta falhas na diplomacia e fala em consequências graves

Por a 4 de Julho de 2020 as 12:54
férias dos portugueses

Assim que se soube esta sexta-feira, dia 3 de julho, que Portugal foi excluído da lista de destinos turísticos com os quais o Reino Unido vai abrir “corredores de viagem internacionais”, começaram a surgir as reações do setor do turismo. Incompreensão e até um sentimento de injustiça e revolta é a leitura que se pode fazer das várias reações dos players do turismo, que só pensam agora em reverter a situação.

No início desta semana, em entrevista ao Publituris, o presidente da Confederação do Turismo de Portugal, Francisco Calheiros, considerava “impensável” a proibição ou a exigência de quarentenas à vinda dos britânicos para Portugal”. Este era um cenário que o responsável “nem queria abordar”. Caso viesse a acontecer, Francisco Calheiros não tinha dúvidas que se tratava de questões políticas. “Se os turistas britânicos não forem para o Algarve vão para outro destino de férias concorrente. Portanto, é evidente que há questões políticas em cima da mesa. Se Portugal perder turistas britânicos outros vão ganhar”, afirmou ao Publituris.

Nas últimas semanas, o presidente da CTP, a Secretária de Estado do Turismo e o Turismo de Portugal desdobraram-se em entrevistas aos meios de comunicação britânicos, para explicar a situação em Portugal. A CTP chegou mesmo a reunir com o embaixador britânico em Portugal. Mas de nada valeu o esforço.

Na mesma entrevista dada ao Publituris, Francisco Calheiros afirmou que o Governo fez tudo para incluir Portugal na lista do corredor aéreo do Reino Unido, mas reconheceu que o país não é eficiente em diplomacia económica. “Penso que não é um dos nossos pontos fortes. Nunca fomos. Não este governo especificamente. Historicamente, não somos fortes na diplomacia económica”.

Em declarações à agência Lusa, já depois de saber a decisão do Reino Unido, o presidente da Confederação do Turismo de Portugal lamentou a decisão, defendendo que é necessário reverter esta situação para minimizar os impactos no setor.

“Se as coisas não forem revertidas, o cenário vai ficar pior. Não vale a pena pintar de rosa o que é negro”, vincou.

“Hoje foi um dia difícil”. Foi desta forma que a secretária de Estado do Turismo, Rita Marques reagiu imediatamente à decisão do Reino Unido na sua página de Facebook.

Rita Marques lembrou que, em maio, o Reino Unido considerava “Portugal um milagre na luta contra a Covid-19. E desde maio a situação em Portugal melhorou em várias frentes. Algumas regiões têm mesmo registos de controlo da pandemia verdadeiramente extraordinários”.

A SET escreveu ainda que “podíamos ter estado parados durante o confinamento mas não… Lançamos o selo #cleanandsafe, iniciativa pioneira na Europa e que visa garantir a confiança de todos os visitantes. (…) Fomos o primeiro país na Europa a ser distinguido com o selo de #Travelsafe por parte do #WTTC. Tanto assim é que Portugal está a ganhar a confiança dos turistas. #LISBOA foi a cidade europeia com mais reservas de voos durante a primeira metade de junho, revela a #WTTC. Mas de nada adianta indicar que estamos a fazer o melhor que podemos. Temos mas é que conseguir o que quer que seja necessário.”

Consequências para o turismo

O Reino Unido é o principal mercado emissor de turistas para Portugal, tendo representado 19,2% das dormidas de estrangeiros em 2019, segundo os dados do INE. O mercado britânico foi responsável por 63,4% das dormidas no Algarve, 18,5% na Madeira e 10,8% na Área Metropolitana de Lisboa.

A notícia caiu como uma bomba na região do Algarve. Para o presidente do Turismo do Algarve, Portugal foi “penalizado por falar a verdade” relativamente aos novos casos de covid-19, um dos critérios que levou à exclusão do país de um corredor aéreo com o Reino Unido.

“Fomos penalizados, claramente, por falarmos verdade. Quando comparamos o número de testes por 100 mil habitantes dos diferentes países percebemos que há países que foram privilegiados nesta nova condição que testam três, quatro vezes menos do que Portugal”, afirmou João Fernandes à agência Lusa.

O presidente do Turismo do Algarve acredita, no entanto, que os britânicos vão continuar a viajar para o Algarve, ainda que provavelmente em menor número, pois já o estavam a fazer mesmo tendo de cumprir quarentena.

Para João Fernandes “[a decisão] contraria a própria vontade dos turistas britânicos, porque nós retomámos as ligações em meados de junho com o Reino Unido, mas hoje estamos ligados a 20 aeroportos diferentes, de todas as regiões do Reino Unido, com cinco companhias aéreas distintas”, concluiu.

O presidente da Associação de Hotéis e Empreendimentos Turísticos do Algarve (AHETA), Elidérico Viegas, fala em “graves prejuízos” para o turismo do Algarve, decorrentes  desta decisão do Reino Unido.

Elidérico Viegas disse à Lusa que o Reino Unido tomou uma decisão “assente em critérios pouco objetivos” ao incluir Portugal na lista e deixar de fora outros países onde a situação epidemiológica devido à pandemia da covid-19 é mais intensa do que no Algarve ou em Portugal.

“O impacto é enorme não só para o turismo, como para a riqueza da região e do próprio país”, estimou o presidente da associação hoteleira do Algarve, lembrando que o Reino Unido representa para a região “6.400.000 dormidas por ano, um terço dos turistas e das dormidas” e “quase 50% dos passageiros que desembarcam no aeroporto” de Faro.

Elidérico Viegas apontou ainda os “2,2 milhões de turistas britânicos que vêm para o Algarve todos os anos” e considerou que “não vai ser a mesma coisa” com estas restrições, mesmo que haja britânicos que possam “eventualmente vir para o Algarve, quer diretamente ou através de outros países”.

Vítor Costa, presidente da Entidade Regional da Região de Lisboa e diretor geral da Associação Turismo de Lisboa, escreveu na sua página de facebook que a inclusão de Portugal na lista negra do governo do Reino Unido “é uma profunda derrota dos nossos responsáveis pela diplomacia e pelo turismo nacional”. A opinião é partilhada por muitos empresários e profissionais do setor que usaram esta sexta-feira, a mesma rede social para reagir à decisão do Reino Unido. Falam em prejuízos incalculáveis, excesso de confiança, má gestão e em derrota diplomática para o governo português.

O corredor aéreo do Reino Unido inicia-se na próxima sexta-feira, 10 de julho, e permite evitar que quem chegue de uma lista de 59 países tenha de ficar 14 dias em isolamento, como acontece atualmente com todas as pessoas que chegam a Inglaterra do estrangeiro, ou arriscam uma multa de mil libras (1.100 euros).

 

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