Futuro do turismo está no espaço e no fundo do mar

Por a 23 de Outubro de 2019 as 17:56

Quando, em 2004, o fundador da Virgin, Richard Branson, lançou a Virgin Galactic e se propôs levar os primeiros turistas ao espaço, muitos pensaram que se tratava de uma ideia mirabolante do excêntrico empresário britânico. Mas, com o passar dos anos, a ideia ganhou forma e, hoje, há já várias empresas que trabalham para este objetivo, que é visto como uma oportunidade para o setor turístico, tendo em conta o seu imenso potencial.
E foi justamente para falar sobre turismo espacial, fazendo o ponto de situação e demonstrando o seu potencial, que a escola internacional de hotelaria Les Roches Marbella promoveu, a 23 e 24 de setembro, a primeira edição da SUTUS – Space & Underwater Tourism Universal Summit. A iniciativa, que reuniu nas instalações da escola em Marbella, Espanha, 15 oradores provenientes dos cinco continentes, abordou também o turismo subaquático, pois, tal como o espaço, também o fundo do mar continua a ser um mistério para o Homem.
Como referiu Carlos Diez de La Lastra, diretor geral da Les Roches Marbella, logo no início da SUTUS, o turismo tem, hoje, novas fronteiras, mas “o espaço e o mundo subaquático ainda estão por descobrir”, o que representa uma oportunidade para o setor, especialmente para o segmento de luxo que, referiu mais tarde, cresce 7% a 8% ao ano e no qual “86% dos clientes aceitaria pagar mais por uma melhor experiência”. “Queremos liderar esta nova área do turismo e que este evento se torne numa referência mundial”, acrescentou.
Ao longo de dois dias, falou-se de foguetões e robots espaciais, de planos para abrir hotéis na Lua, astronautas e até de viagens ao espaço sem bilhete de volta, mas também do mar e das relíquias que o fundo dos oceanos guarda, dos novos submarinos e, acima de tudo, do potencial que tanto o turismo espacial como o subaquático têm, já que, a exemplo da aviação, que começou como um produto de luxo, também estes dois segmentos se deverão democratizar, à medida que a oferta aumentar.

Avanços e desafios
Grande parte da SUTUS foi dedicada ao espaço e às inovações que permitem sonhar com o dia em que será possível levar turistas além da Terra. E, apesar desse dia parecer estar cada vez mais perto, ainda há desafios a ultrapassar. Tony Gannon, vice-presidente de investigação e inovação da Space Florida, agência norte-americana de desenvolvimento aeroespacial, de onde têm saído algumas das principais inovações que estão a animar a corrida espacial, como os foguetões de nova geração, começou por alertar a assistência para algumas das desvantagens das viagens espaciais. “Estão dispostos a ir à lua e passar uma semana sem tomar banho?”, questionou, lembrando que os foguetões não têm duche, nem outras comodidades a que estamos habituados enquanto turistas e defendendo, por isso, que a grande vantagem destes veículos não se destina ao espaço, mas sim à Terra. “Uma das maiores inovações vai ser o transporte ultra-rápido entre continentes”, considerou.
Mas os avanços tecnológicos não estão apenas a ser usados no transporte, como explicou Arthur Paolella, cientista sénior da Harris, empresa que está, desde sempre, ligada à exploração espacial, que deu o exemplo da impressão 3D. “Esta tecnologia é usada para vários fins, incluindo produtos aeroespaciais, como os travões dos Rovers [veículos de exploração espacial, usados para percorrer a superfície de um planeta]”, explicou. Além destes veículos, a impressão 3D poderá ser ainda usada para construir habitats na Lua e a partir de material extraído da superfície lunar, uma vez que permite “imprimir tijolos e, com isso, construir casas”. Mas, tal como os foguetões, também a impressão 3D está ainda em testes, para se conhecer a resistência dos materiais no espaço. “Têm de sobreviver ao lançamento, à viagem e também à exploração. Há ainda uma série de coisas a fazer para que esta tecnologia possa ser usada no espaço”, acrescentou.

Alojamento
A Harris está a testar os materiais para a construção de alojamento no espaço, mas já existem opções disponíveis, a exemplo da Estação Especial Internacional, que já “está aberta para o turismo”, como referiu Sam Scimemi, diretor da Estação Espacial Internacional na sede da NASA, que começou a sua intervenção a listar as vantagens e desvantagens do espaço. “Não há mosquitos, nem moscas e a temperatura não muda, mas não há praia, céu, nem room service. São coisas importantes para muitas pessoas em férias”, brincou, alertando que não estava ali para vender nada a ninguém, pois “o espaço vende-se sozinho, mas é muito caro”.
Além da Estação Espacial Internacional, os turistas espaciais vão também poder contar com alojamento na Lua em breve, como revelou Bernard Foing, da Agência Espacial Europeia (ESA) e responsável do International Lunar Exploration Group, que começou a sua intervenção a dizer que a ESA quer “levar toda a gente à Lua”, estando, para isso, a realizar várias pesquisas. “Há uma frota em volta da Lua para estudar tudo sobre a Lua e que junta várias nacionalidades”, explicou, revelando que, nas primeiras missões realizadas foi encontrado gelo na Lua, o que permitiria até “construir um oásis”, ainda que o primeiro passo deva passar pela construção da Moon Village, uma estação permanente na Lua, que poderá estar operacional em 10 anos e que deverá contar com Smart-habitats com recurso à tecnologia. Neste momento, os equipamentos, nomeadamente robóticos, estão a ser testados junto ao vulcão Vesúvio e, se tudo correr como esperado, é possível que os bilhetes para viagens à Lua, e mais tarde a Marte, possam começar a ser vendidos em 2025. Para mais tarde ficará outra das ideias defendidas por Bernard Foing e que passa por adaptar os túneis de lava que existem na Lua, e que são “10 ou 15 vezes maiores que os da Terra”, ao turismo. “Estes túneis podem ser aproveitados para o turismo, seja para hotéis, shoppings ou outras infraestruturas”, defendeu.

Viagens
Mas, para ir ao espaço é necessário treino, os astronautas têm de resistir a forças G e estar conscientes dos desafios que vão encontrar. E não existem assim tantos locais para treinar, motivo pelo qual Nancy Vermeulen, fundadora da Space Training Academy, aceitou o desafio de Richard Branson para criar um programa de treino para astronautas privados, que tem vindo também a preparar candidatos a turistas espaciais. “Como no passado, depois da II Guerra Mundial, quando só os países mais ricos iam ao espaço, também o turismo espacial é para as pessoas muito ricas”, afirmou Nancy Vermeulen, explicando que o seu programa completo tem um custo de 15 mil euros, ainda que seja possível ter uma experiência por três ou quatro mil euros, realizando um voo espacial sem gravidade. “Há todo o tipo de interesse e de pessoas com diferentes backgrounds”, acrescentou, explicando que a procura por estes voos vai desde CEO’s de empresas que vão fazer sessões de team-building, a pessoas mais velhas que gostariam de ser turistas espaciais mas sabem que não vão viver para assistir à democratização das viagens, mas também estudantes que querem saber mais sobre o espaço e pessoas muito ricas, que já têm “bilhete para o espaço, mas querem treinar mais para estar preparadas”. E, segundo a responsável, “o treino é necessário porque estas pessoas pagam muito dinheiro para não aproveitarem a experiência por estarem nervosas ou com medo”.
Por enquanto, estas são experiências acessíveis só a turistas muitos ricos, já que as viagens da Virgin Galactic, por exemplo, rondam os 180 mil euros, mas Nancy Vermeulen acredita que a sua democratização é uma questão de tempo. “É normal que seja caro no início, tudo o que é novo é caro, depois torna-se mais acessível”, à medida que a oferta aumenta. “A Virgin Galactic apostou em pequenas naves e chegou aos primeiros viajantes. Depois, também o Elon Musk começou a construir foguetões que podem transportar até 100 passageiros”, lembrou.
E também Ana Bru, CEO da Bru&Bru Exclusive Travel Design, agência oficial da Virgin Galactic em Espanha, acredita que as viagens estão para breve, apesar de estar, desde 2007, em treino. “Passaram 11 anos, mas espero, em algum momento, ir ao espaço”, revelou, explicando que estas viagens não são para ir à Lua, apenas ao espaço e que ela própria se inscreveu para saber o que estava a vender. “Só vendo aquilo que experimento”, garantiu.
Houve ainda tempo para ouvir Angel Jané, único espanhol selecionado para ir a Marte sem bilhete de volta, no Mars One Projet, que espera viajar em 2031 e que se mostra entusiasmado com a ideia, até porque, afirmou, os “descobridores também não sabiam o que os esperava, mas foram valentes. Agora, acontece a mesma coisa”.

Turismo subaquático
A parte final da SUTUS foi dedicada ao turismo subaquático, que não é tão sonante quanto o espacial, mas que está também a conhecer avanços de relevo. E foi por esta comparação com o espaço que começou Javier Noriega, presidente do Cluster Marítimo Marino da Andaluzia, que junta 72 empresas de turismo náutico, ao sublinhar que o mar “é mais desconhecido que o universo”. “Tal como no espaço, também no mar apenas os primeiros 200 metros são visíveis, é um mundo desconhecido mas fascinante”, afirmou, defendendo que o turismo subaquático tem grande potencial na Andaluzia, opinião partilhada por José António Moya, jornalista e professor da Universidade de Alicante, que deu a conhecer os planos para criar um museu subaquático e colocar ao serviço do turismo os achados existentes, como o navio romano naufragado perto de Benidorme, que é monumento nacional desde 2014. “É uma oportunidade única de visita porque está a apenas 25 metros de profundidade”, considerou.
Tal como a Andaluzia, também Nápoles, em Itália, tem um rico património submerso, como a cidade romana de Baia, afundada pelo vulcão Vesúvio, sobre a qual falou Michele Stefanile, arqueólogo subaquático da Università Degli Studi di Napoli L’Orientale, que explicou que, em 2002, foi criado um parque para investigar e proteger esses achados, estando agora a ser criado um museu subaquático, o MUSAS, para permitir visitas turísticas.
Nos EUA, as visitas turísticas subaquáticas estão perto de ser uma realidade, segundo Scott Waters, project manager da Pisces VI Submarine, que constrói submergíveis e realiza visitas turísticas para financiar expedições científicas. “O turismo é a principal fonte de receita e é uma forma de tornar as profundezas dos oceanos acessíveis a pessoas comuns”, afirmou.
A experiência da Pisces VI Submarine no turismo é ainda curta, as visitas só estão disponíveis desde o início do ano e o submarino da empresa, o Pisces VI, está ainda em testes no Canadá, o que acontece até final do ano, seguindo-se a primeira visita, que tem a Antártica como destino e conta com cinco turistas. Os preços é que não são para todos: a viagem de 25 dias custa 50 mil euros, mas é possível fazer um mergulho de um dia por 12 mil euros.
Scott Waters foi o ultimo orador da SUTUS 2019, evento que tem continuidade assegurada, com Carlos Diez de La Lastra a afirmar, no encerramento, que a cimeira foi “um primeiro passo para uma bonita viagem de exploração” e revelando que escola está “já a trabalhar no segundo passo”, devendo a SUTUS voltar a decorrer em 2020, por ocasião do Equinócio de outono, cujos efeitos se sentem tanto na água como no espaço.

Artigo publicado na edição 1403 de 11 de oububro de 2019

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