Opinião |A importância do controlo de riscos na recuperação do sector turístico

Por a 30 de Julho de 2020 as 10:14

Por Nuno Arruda, Head of Sales and Client Management da consultora Willis Towers Watson Portugal

O sector turístico começa a ver alguma luz, ainda que muito ténue, ao fundo do túnel depois de uma total paralisação da sua atividade como consequência da crise provocada pela COVID-19. Ainda recentemente um estudo divulgado pela Agência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) referia que o turismo em Portugal pode perder quase 12,4 mil milhões de euros, devido ao impacto causado pela pandemia.

Mas o progressivo desconfinamento, o convite do governo português e da presidência da república para que os portugueses não deixem de fazer férias, preferencialmente “cá dentro”, a abertura das fronteiras com Espanha e o bom tempo têm feito com que um dos sectores mais importantes para a economia do nosso país mostre tímidos sinais de recuperação.

Neste momento, o setor do turismo parece ter ouvido o tiro de partida e ajustou os motores, aplicando os regulamentos e as medidas de segurança e adaptando a sua oferta tanto à realidade de cada fase do desconfinamento como às possibilidades que se abrem a partir deste mês de julho, mas não devemos esquecer que o medo do contágio ainda existe. Por mais que os cidadãos queiram deixar o confinamento para trás, os futuros turistas desejarão fazê-lo com todas as garantias e da forma mais segura possível.

A chave do sucesso será reativar a procura e transmitir confiança ao longo dos próximos meses. Para isso, é essencial encontrar o equilíbrio entre permitir às pessoas desfrutar das férias e estar, ao mesmo tempo, em conformidade com protocolos e medidas de segurança que, mal geridas, podem manchar a perceção de um consumidor que procura não apenas sentir-se seguro, mas, obviamente, viver uma boa experiência de férias a todos os níveis.

Saber identificar e antecipar os riscos
O caminho para a recuperação é um desafio e as empresas de turismo devem ser prudentes, eficazes na implementação das medidas de segurança e higiene recomendadas pelas autoridades de saúde e ter em consideração os novos riscos inerentes à pandemia. Entre estes, destaque para as possíveis denúncias e participações de contágio como resultado da não aplicação correta dos protocolos de segurança e higiene estabelecidos e que podem levar ao pagamento de largos montantes a título de compensação, embora obrigue o requerente a provar que foi infetado por esse motivo, o que nem sempre será fácil.

Outro risco que preocupa o setor é o cibercrime, com o aumento da sua exposição ao risco decorrente da realidade de teletrabalho durante o estado de emergência. Por fim, e com os hóspedes em mente, os riscos de cancelamento e assistência médica no destino, incluindo a assistência por telefone, podem ser superados com a implementação de soluções integradas que proporcionem segurança, confiança e flexibilidade aos mercados emissores e ao cliente final.
Esta crise – como outras anteriores – mais uma vez demonstrou que a chave para sair dela com o menor dano possível é a capacidade de previsão. E, para tal, é essencial ser capaz de antecipar situações, por mais distópicas que estas possam parecer. É imperativo estar preparado para todos os tipos de cenários, conhecer os nossos pontos fortes e, acima de tudo, as nossas vulnerabilidades.

Com a COVID-19, a natureza e a globalização enviaram-nos uma mensagem muito clara. E se a tivermos percebido bem, seremos capazes de agir de forma a não cair nos mesmos erros no futuro. Neste contexto, as soluções relacionadas com o meio ambiente e a responsabilidade social corporativa serão determinantes porque, agora mais do que nunca, teremos que combinar segurança com sustentabilidade. Por outro lado, o enorme impulso que esta crise está a dar à digitalização também implica uma sobre-exposição cujos riscos deverão ser quantificados, mitigados e transferidos.

Analisar o que aconteceu até agora dá-nos a oportunidade de aprender e continuar a transformar-nos para conseguirmos fazer melhor. O mapeamento dos riscos e a definição estratégica de planos de continuidade do negócio apropriados são imperativos para uma boa gestão dos riscos das empresas, independentemente do seu setor de atividade.

Para caminhar no sentido da recuperação, é importante destacar que o setor do turismo exige, acima de tudo, estabilidade política e social. E isto deveria ser conseguido com a colaboração público-privada, evitando mensagens contraditórias e estabelecendo um plano de comunicação eficaz que valorize os nossos pontos fortes: infraestrutura, saúde e segurança como fatores-chave de confiança.

Também é necessária uma abertura coordenada dos corredores aéreos com a União Europeia, especialmente com mercados estratégicos como a Alemanha e o Reino Unido assegurando nesse sentido novas medidas de controlo sanitário nos aeroportos, tanto na origem como no destino, à semelhança do que é feito já hoje nos aeroportos das regiões autónomas da Madeira e dos Açores.

Reativar, renovar e reinventar o turismo após o coronavírus não será uma tarefa fácil, mas se tivermos as ferramentas necessárias e aplicarmos mecanismos de segurança e de continuidade do negócio, podemos consegui-lo.

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