Reportagem | Lisboa dos escravos

Por a 4 de Outubro de 2019 as 17:36

Naky Gaglo é natural do Togo e vive em Lisboa há cinco anos. Há quatro, começou a mostrar uma outra Lisboa aos turistas que visitam a capital portuguesa, a Lisboa dos escravos, num passeio que nos faz recuar ao século XV e à Lisboa dos Descobrimentos, o African Lisbon Tour. “Comecei a fazer este tour porque percebi, quando vim pela primeira vez a Portugal, que havia muitos negros. Fiquei muito contente, mas também percebi que a história não estava a ser contada”, começou por explicar Naky Gaglo ao Publituris, no dia em que nos juntámos a um grupo de 14 turistas dos EUA, Canadá, França e Portugal para realizar a visita, que começa na Praça do Comércio e só termina no Jardim da Praça Dom Luís, quatro horas depois.

Depois de chegar a Lisboa, Naky Gaglo interessou-se pela história da cidade e do país, particularmente pela história africana de Lisboa. “É um tema que me apaixona e criei este tour tentando fazer um mix entre a história, mas também a realidade de hoje, abordando a dança africana, que está muito presente em Lisboa, e a gastronomia”, explicou, revelando que, para isso, fez uma intensa “investigação sobre a história de Portugal e sobre a história africana de Portugal, especialmente sobre a história da escravatura”. Nascia assim o African Lisbon Tour.

O ponto de encontro era a estátua de D. José I, na Praça do Comércio, local por onde, no século XV, passavam todos os escravos que chegavam ao reino. “Os portugueses não inventaram a escravatura, mas foi Portugal que começou a troca comercial de escravos, no século XV”, começou por explicar Naky Gaglo, revelando que apenas em 1562 os britânicos entraram no comércio de escravos, seguindo-se outros povos europeus.

Durante os minutos iniciais, Naky Gaglo foi relatando a história, explicando que os portugueses começaram por raptar negros na África Ocidental e Central, mas rapidamente optaram pela troca de escravos por outros bens, negociando com os líderes africanos. O rum era, à época, um dos bens mais trocados por escravos. “Os portugueses precisavam de mão-de-obra para os destinos descobertos, como a Madeira, os Açores ou Cabo Verde”, referiu Naky Gaglo, explicando que os primeiros 235 escravos que chegaram a Portugal tiveram Lagos como destino, em 1444. Desde então, o comércio não mais parou e intensificou-se com a descoberta do Brasil, em 1500, e foi uma realidade até ao século XIX, quando foi definitivamente abolida.

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Religião
Depois da Praça do Comércio, seguimos pela Rua Augusta em direção à Igreja de São Domingos, que era, à época, a igreja mais frequentada pela comunidade africana de Lisboa. Ninguém sabe ao certo quantos escravos foram traficados, mas os historiadores estimam que, em Portugal, esse número ronde os 5,8 milhões, ainda que seja impossível ter a certeza, pois muitos escravos morriam na viagem, devido às terríveis condições do transporte, e os seus corpos eram atirados ao mar, não entrando nas contas oficiais.

Assim que chegavam a Portugal, os escravos negros eram obrigados a seguir a religião católica e era-lhes atribuído um nome cristão, além de terem de aprender a falar português, o que facilitava a relação com os ‘senhores’. Como explicou Naky Gaglo, em 1550, “10% da população de Lisboa era negra”, chegando aos 20% poucos anos depois, isto apesar de grande parte dos escravos seguir para as zonas rurais do país, onde existiam as grandes plantações agrícolas. Mesmo assim, a população negra de Lisboa aumentou, o que trouxe alguns benefícios aos escravos. Em 1515, começaram a poder vender nas ruas da cidade e, a partir de 1528, passou a ser possível comprar a própria liberdade, ainda que apenas através das fraternidades religiosas, que começaram, por essa altura, a multiplicar-se como forma de integrar os escravos negros na sociedade da época.

A visita à Igreja de São Domingos serviu para falar da parte da história em que a religião se cruza com a escravatura e também com os dias de hoje, já que, atualmente, a Praça de São Domingos continua a ser muito frequentada pela comunidade negra, que se estabeleceu no centro da cidade. Prova disso é a mercearia senegalesa que visitámos de seguida e que se localiza ao início do labirinto de ruas que nos levam ao Hospital de São José. Nesta mercearia, tudo cheira a África, talvez porque a grande maioria dos produtos vem diretamente do continente africano, como o tamarindo, a banana-da-terra ou as várias espécies de pimentos e malaguetas que ali se podem encontrar, e que provam que a cultura africana chegou a Lisboa com os escravos, mas continua bem viva nos dias de hoje.

Marquês de Pombal
Depois da religião, o grupo seguiu para a estação do Rossio, onde a atenção se centrou em Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, que ganhou protagonismo após o terramoto de 1755, ao reconstruir Lisboa das cinzas.
Por essa altura, o abolicionismo era já uma tendência, incluindo em Portugal, o que terá incentivado a primeira lei portuguesa contra o tráfico de escravos, aprovada pelo Marquês de Pombal, em 1761. Apesar da consciência abolicionista que já existia, a lei foi aprovada debaixo de um coro de críticas, de quem tinha medo do impacto da medida na economia, mas não parou o comércio de escravos, até porque, por essa altura, já tinham sido criadas “as companhias que, no Brasil, faziam o tráfico de escravos”, recordou Naky Gaglo, explicando que estas ‘companhias’ continuaram a traficar milhões de africanos ao longo de vários anos. Mas o mundo estava mesmo a mudar e, por isso, em 1773, surgiu uma nova lei, desta vez para dar liberdade aos filhos dos escravos.
Após uma breve referência às datas e momentos que marcaram esta fase da história da escravatura, Naky Gaglo voltou a guiar o grupo até à próxima paragem, o Bairro Alto, para falar sobre os diferentes estatutos sociais da época, partindo do exemplo de Bárbara Fernandes, uma negra com posses que vivia na zona do Bairro Alto e que, segundo relatos históricos, arrendava quartos e casas a quem estava de passagem pela capital.
Nesta altura, o grupo quis saber quem era Barbara Fernandes e foi assim que Naky Gaglo explicou que, apesar da maioria dos negros serem escravos, também havia africanos com posses em Lisboa, fossem negros libertados, líderes africanos ou escravos com um estatuto mais elevado. Um desses casos seria o de Bárbara Fernandes, não sendo também de excluir que tivesse alguma ligação à prostituição, já que, à época, essa era uma atividade associada ao Bairro Alto, local que é, hoje, conhecido pela animação noturna. Mas é impossível saber, pois a história apenas diz que “tinha posses, sem se saber exatamente porquê”, acrescentou o criador da African Lisbon Tour.

Abolição
Do Bairro Alto, demos um saltinho ao Miradouro de Santa Catarina, zona de Lisboa que, no século XVI chegou a ser uma espécie de cemitério a céu aberto de escravos, já que os corpos de quem não resistia à viagem eram ali largados, o que motivou mesmo uma ordem régia, do Rei D. Manuel I, que veio estabelecer a obrigatoriedade de se enterrarem os escravos mortos num poço, o que terá dado origem à Rua do Poço dos Negros, que liga o bairro de Santos à Baixa Pombalina e que, ainda hoje, apresenta o mesmo nome.

Percorremos parte da Rua do Poço dos Negros até ao Jardim da Praça Dom Luís, junto ao Mercado da Ribeira, onde se encontra a estátua do Marquês de Sá da Bandeira, que seria o responsável pela abolição da escravatura em Portugal e nas colónias. Em 1836, o Marquês de Sá da Bandeira aprovou uma lei para abolir o comércio de escravos em todo o império português, naquele que seria o primeiro grande passo para a proibição total, que chegou a Portugal em 1870 e, 10 anos depois, ao Brasil.

Antes do final da visita, Naky Gaglo falou ainda, de forma resumida, sobre a estátua evocativa da abolição da escravatura, que é composta pela representação do Marquês de Sá da Bandeira, que se encontra em lugar de destaque, e, na parte inferior, pela estátua de uma mulher, que representa África e que aponta para o estadista que trouxe a liberdade aos escravos. É um monumento carregado de simbolismo e nem sempre lhe damos o devido valor, pelas tantas e tantas vezes que ali passamos sem lhe prestar atenção. Não fosse o Naky Gaglo e a sua African Lisbon Tour e provavelmente nem saberíamos que foi inspirada numa mulher real, Fernanda de seu nome, uma negra que vivia em Lisboa e que foi convidada a pousar como modelo para a estátua.

Com o fim da escravatura, muitos africanos voltaram para os seus países, é por isso que, ainda hoje, existem tantos nomes portugueses em África, mesmo em países que não foram colonizados por Portugal, como é o caso do Gana. Mas Fernanda ficou para a posteridade, como símbolo de um dos períodos mais terríveis da história da humanidade e em homenagem aos milhões de africanos que foram escravizados.

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