Conversas à Mesa | Vítor Silva

Por a 4 de Abril de 2019 as 17:35

Vítor Silva nasceu em Beja, mas as suas origens estão divididas entre o Alentejo e Espanha, de onde era originária a família materna. Os pais moravam na mesma rua em Beja e foi a assim que se conheceram, casaram e tiveram dois filhos. Era o melhor aluno da turma. Tal como hoje, o que mais gostava era de história e geografia. Aos doze anos, a família mudou-se para Lisboa e Vítor Silva foi estudar para ao liceu D. João de Castro e ainda hoje é conhecido pelos colegas do colégio como o “bejano”.

Queria ser engenheiro naval. Gostava de barcos, um gosto que ganhou nas férias passadas em Lagos, quando ele e o irmão costumavam ir à pesca com os marinheiros e passavam a noite nas traineiras. “Enjoava-se um pedacinho”, recorda.

Mas ir para escola naval significava ir para a guerra colonial. “Começou-se a criar um sentimento misto entre não ir para a guerra, não conseguimos ganhar aquilo e se calhar devíamos dar independência às colónias”, conta.
Decidiu não ir para a escola naval, mas como continuava a querer ser engenheiro, entrou no Instituto Superior Técnico, em Lisboa, em 1966, para estudar Engenharia Química.

A universidade mudou-o completamente, a ele e à geração daquela altura, sobretudo os que se envolveram no movimento estudantil. Fez parte da Comissão Democrática Eleitoral (CDE), que se opôs ao Estado Novo, em 1969, e conheceu pessoas como Jorge Sampaio, João Cravinho, Nuno Teotónio Pereira ou Nicolau Breyner. “A CDE era dominada ideologicamente pelo Partido Comunista e depois haviam os companheiros de jornada como eu. Até que, a certa altura, conheci um grupo, onde estavam pessoas como o Ferro Rodrigues e o José António Vieira da Silva, que tinham um discurso com o qual me identificava, era na sua essência um discurso libertário, quando os conheci, identifiquei-me. Também teve a ver com o facto de ter conhecido em França, anos antes, os tipos do Charlie Hebdo”, conta.

Estava em França antes do 25 de Abril. No dia 24 entrou num comboio de manhã cedo em Paris e chegou a Lisboa no dia 25. “Caí no meio de revolução com uma máquina fotográfica e um rolo virgem, fiz as fotografias da revolução. Essas fotos já estiveram expostas, mas confesso que já as perdi. Mas isso não me preocupa muito, porque as minhas memórias é que interessam”.

Foi fundador do Movimento de Esquerda Socialista (MES) com Jorge Sampaio, João Cravinho, Ferro Rodrigues, Eduardo Graça, Vieira da Silva. Em 1974, foi para o Alentejo fazer a revolução. Na altura, tornou-se num político profissional. Falava de liberdade. “Quando chegámos à conclusão que já não valia a pena, extinguimos o partido”.

O Alentejo
Depois da política, Vítor Silva deu aulas de Física, Química e Matemática no liceu onde tinha estudado, em Beja. Apesar de ter alguns projetos de vida, alguns até fora fora do país, “estava muito apaixonado e entre o amor e os negócios, escolheu o amor”. Foi para Beja fazer a revolução e por lá ficou para “fazer o que era possível”. Ajudou a transformar a casa que tinha sido sede do MES em Beja num local com uma vertente cultural, para acolher espetáculos, exposições, debates, etc.

“Os Infantes”, como ainda hoje se chama o espaço, ganhou fama, e ao bar e sala de espetáculos, que recebeu os principais nomes da música portuguesa como os Xutos&Pontapés, GNR, Rádio Macau e António Variações, acrescentou-se uma discoteca e, mais tarde, um restaurante. Entre 2000 e 2003, Vítor Silva foi delegado do INATEL para o distrito de Beja. O INATEL era responsável por dinamizar o programa “Animar a Costa”, com várias atividades nas praias da região. “Isso deu-me projeção, afirma. Em 2003, foi candidato às eleições para a Região de Turismo Planície Dourada convidado pelo PS. “A minha estratégia era trazer os empresários para a direção”, conta. Ganhou essas eleições e, na segunda eleição, em 2007, voltou a ganhar. No ano seguinte, o mapa turístico português passou apenas a ter cinco regiões. No entanto, ficou ligado ao Turismo, através da Agência Regional, do qual tinha sido membro fundador em 2004, até que em 2010 chegou à presidência da agência.

Vítor Silva está atualmente a desempenhar o terceiro mandato e já anunciou à direção que vai recandidatar-se às eleições deste ano. “Pela primeira vez tinha equacionado a hipótese de não me recandidatar. Fiz 70 anos, embora tenha sempre o Marcelo Rebelo de Sousa que me inspira. Os empresários que mais me conhecem disseram que queriam que continuasse, na BTL do ano passado”, revela.

Vítor Silva casou duas vezes com a mulher Maria Ana, com quem tem um filho, Pedro, com 30 anos. Durante muitos anos viveu em Beja, mas desde há dois vive em Lisboa, onde a mulher trabalha. “Já não sou capaz de cuidar de mim sozinho. Não sou machista, fui daqueles que na juventude lutou para que as mulheres tivessem os mesmos direitos dos homens e ainda não têm”. Sempre teve uma personalidade “incontrolável, desalinhada, provocatória”, “mas no bom sentido”. “Hoje sou uma pessoa mais ponderada, que sabe o que deve dizer, nos sítios onde deve dizer. Embora só seja capaz de trabalhar no risco. Nas minhas relações pessoais e profissionais trabalho no risco, sou um provocador. ‘Je provoque à l’amour et à la révolution’, como dizia Léo Ferré. Não provoco gratuitamente, a provocação é uma maneira das pessoas reagirem aquilo que posso dizer”. É feliz? “A felicidade não é um estado eterno mas os meus momentos são de felicidade e o meu trabalho é uma imensa felicidade. A maneira que me define melhor não é uma arrogância, mas não me realizo senão com os outros. A minha felicidade está ligada à felicidade que possa repartir com os outros, não sou capaz de ser feliz sozinho. Se passar por um sem abrigo, ou alguém que perdeu um ente querido, nesse dia sou profundamente infeliz”.

Quem é
Vítor Augusto Fernandez da Silva nasceu em Janeiro de 1949. Formou-se em Engenharia Química, no Instituto Superior Técnico, mas nunca exerceu. Teve uma vida política ativa durante e após a Revolução de Abril, tendo sido um dos fundadores do Movimento de Esquerda Socialista. Foi professor e delegado do INATEL para o distrito de Beja. Ganhou as eleições para a presidência da região de Turismo Planície Dourada em 2003, cargo que exerceu até à extinção da entidade. Foi membro fundador da Agência Regional de Promoção Turística do Alentejo em 2004, sendo o presidente da agência desde 2010.

Curiosidades
Ler e viajar são duas grandes paixões de Vítor Silva. Aos seis anos, leu o primeiro livro e logo um clássico: Dom Quixote de la Mancha. Era o maior leitor da biblioteca de Beja. Adora comprar livros, mas só lê um em cada cinco dos livros que compra. Neste momento, está a ler “Erebus: A história de um navio”, cujo autor Michael Palin fez parte dos Monty Python. Tem também uma coleção de banda desenhada que ultrapassa os 1000 livros. A sua personagem de banda desenhada preferida é Corto Maltese. Colecionava também a revista francesa Charlie Mensuel e muitas outras das quais era assinante. Quanto às viagens, a última em lazer foi no ano passado. Visitou Helsínquia, Riga e Tallin. Prefere destinos com pouco turismo. Vai muitas vezes a Moçambique, onde tem muitos amigos. Por altura da Páscoa, ganhou o hábito de fazer uma viagem todo o terreno pelo deserto marroquino. “Comecei a ir com o Hélder Martins, antigo presidente da Turismo do Algarve”.

Restaurante Páteo Velho Ordem dos Médicos
Gerido pela empresa Páteo velho, o restaurante Páteo Velho Ordem dos Médicos, em Lisboa, funciona de segunda-feira a sábado das 12h às 23h. Apesar de estar instalado na sede da Ordem dos Médicos, está aberto ao público em geral. Os preços médios são de 20€ ao almoço e 30€ ao jantar. É aconselhável reservar antecipadamente. A cozinha do Páteo Velho Ordem dos Médicos está entregue ao Chef Beja (já com experiência em restaurantes como a Bica do Sapato e o Hotel Real Villa Itália), sob a orientação do Chef José Mártires, do restaurante Páteo Velho, em Alenquer. Privilegia a gastronomia regional portuguesa com um toque de originalidade, criatividade e inovação, bem como uma especial atenção à pesquisa e aos pormenores.

Ementa
Polvo à lagareiro com batatas a murro e grelos; barriga de porco com estufado de favas e texturas de enchido; bochechas de vitela estufada em vinho tinto sobre risotto de cogumelos; ou, se preferirem, filetes de linguado frito com açorda de alho e coentros e lascas de bacalhau da Islândia com broa e crocante de presunto em cama de esmagada de brócolos e batata a murro.

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