Governo deve ponderar recuperação do IVA nos eventos e congressos para retoma da atividade

Por a 30 de Abril de 2020 as 21:28

O segmento do MICE é um dos mais sensíveis às situações de crise que um destino possa estar a viver. Quando deixa de ser apenas um destino ou país para ser uma crise a nível mundial e sobretudo sanitária, as perspetivas pioram ainda mais. Também a atividade MICE em Portugal não foi alheia a esta sensibilidade e as perspetivas de retoma da atividade não são animadoras.
Eduarda Neves, vice-presidente da APAVT – Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo e coordenadora do Capítulo de DMC’s, na Web Conferência Publituris sobre “Lisboa: Preparar o Futuro”, apresentou perspetivas realistas quanto à retoma das atividades MICE em Portugal: “Será possível no segmento MICE uma retoma lenta a partir do segundo semestre de 2021 e mais para conferências e reuniões com menos participantes”. No que refere aos incentivos, a responsável não prevê que os mesmos venham a realizar-se antes de 2022 e alerta que estes não vão ser com as dimensões que eram até então, “vão ser grupos muito mais pequenos”.

A vice-presidente da APAVT acredita que o segmento de lazer e, concretamente, o turismo individual vai recuperar primeiro do que o de MICE. E ainda no lazer, considera que o visitante de Lisboa não será o mesmo. “Vamos ter um visitante que vai ter mais capacidade financeira, vai pagar mais para vir até cá, vai ser mais exigente, vai exigir mais qualidade, vai querer saber exatamente o que o espera, mas é o segmento que achamos que vai recuperar mais rapidamente, porque é aquele para quem é mais fácil recuperar”, realça, destacando que com as regras de distanciamento social os preços na aviação e na hotelaria devem aumentar, sobretudo nos bilhetes de avião.

Já os grupos de MICE vão demorar a retomar as suas atividades, pois, como explica Eduarda Neves, “existe uma enorme responsabilidade da parte das empresas que organizam esses eventos para os seus clientes ou colaboradores, como tal, não se atrevem a marcar o que quer que seja em qualquer destino onde haja algum risco. E o risco nesta altura é em todo o lado, não é só aqui”. A responsável do capítulo de DMC’s na APAVT acredita que as empresas vão apostar em fazer reuniões via ferramentas online e, posteriormente, “vão começar a fazer a pouco e pouco reuniões dentro do seu próprio país”.

Eterna reivindicação

Portugal vai ter, no entanto, uma dificuldade acrescida na retoma deste segmento de mercado comparativamente com outros destinos europeus, aquela que é já uma reivindicação antiga dos ‘players’ deste setor: o IVA aplicado aos eventos, congressos e incentivos. “A concorrência que existia entre destinos se já era grande, agora vai ser brutal. Todos vão tentar, por todos os meios, ir buscar o pouco que vai haver. E no segmento MICE estamos com uma desvantagem em relação ao resto da Europa, nós somos, à priori, 23% mais caros do que qualquer outro destino na Europa e temos todos os nossos concorrentes, que são Espanha, Itália, Malta, Croácia, Hungria, Áustria, Inglaterra, Escandinávia, a baixar um bocado os preços, excepto a aviação, e a dar aos grupos, sejam conferências ou congressos, a possibilidade de recuperar o IVA”, adverte. Eduarda Neves explica que “todos os dias Portugal perde grupos para esses destinos que são muito mais favoráveis em termos fiscais. Nós temos uma deficiência em termos de competitividade fiscal”. “Isto era antes da crise, depois da crise vai ser muito pior”, alerta.

Também Vitor Costa, presidente da Região de Turismo de Lisboa, é defensor da importância do segmento MICE para a região de Lisboa, realçando que “continua a ser o nosso produto premium e vai ser aquele que vai ter mais dificuldades”. Para o responsável da entidade turística também é essencial a recuperação do IVA aplicado a estes eventos. “IVA é uma reivindicação fundamental que o Estado agora deve atender nesta fase de retoma, primeiro não só para estimular essa retoma mas para nos tornarmos competitivos com outros destinos nomeadamente com Espanha”.

Eduarda Neves recorda a importância e o que contribui este segmento para a rentabilidade de um destino, explicando que o MICE é “aquele que tem uma rentabilidade mais elevada e que, apesar do que estarmos a prever uma redução dos gastos por participante e do número de pessoas em cada grupo, é um segmento que tem uma rentabilidade muito superior aos ‘city breaks’ ou mesmo aos grupos de lazer. Aquilo que traz para o país em termos de faturação, de rentabilidade, é brutal”. “Vai ser difícil de recuperar, é um segmento que traz muitas vantagens”, afirma, concluindo que não acredita que iniciativas como os programas de apoios à captação de congressos resolvam alguma coisa nesta fase, mas sim “o que iria resolver muita coisa seria a recuperação do IVA”.

 

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