Opinião | Lisboa duas faces, duas moedas culturais

Por a 11 de Novembro de 2019 as 14:19

Lisboa foi considerada o melhor city break destino em 2019. Na base deste galardão está a forte aposta em turismo de eventos, negócios e incentivos. A imagem dum destino é a “Moeda das Culturas”, reflexo dos significados e crenças do lugar e, grandes eventos são uma valiosa forma de moeda cultural na difusão da imagem do destino.

Um evento com a dimensão do WEB Summit tem como principal efeito moldar e estereotipar a imagem de Lisboa como uma cidade cosmopolita com um dinamismo económico extraordinário. Por revelar fica, no entanto, a autenticidade e genuinidade dos bairros típicos de Lisboa que sugerem uma outra imagem da cidade. Nesta dicotomia entre imagem corporativa e afetiva perdem-se laços culturais que as sete colinas escondem.

Este grande evento foi capaz de atrair à cidade 70469 participantes que inevitavelmente vão falar sobre Lisboa. Se admitirmos uma taxa de satisfação de 80%, pelo menos 300 000 pessoas vão ouvir falar bem da cidade nos países de origem dos participantes. A este número acrescem partilhas nas redes sociais que realizadas nos quatro dias de eventos podem alcançar mais de 160 milhões de visualizações, isto se não considerarmos as divulgações nos media tradicionais.

Este fenómeno de indiscutível relevância para a consolidação da imagem de Lisboa associa o destino inevitavelmente e de forma irreversível ao cosmopolitismo que os grandes centros de negócios comportam. Esquecida fica a autenticidade e vidas singulares que atrás das sete colinas carregam heranças culturais que ainda servem de mote à visita. Recordo-me que há menos de dois anos, um estudo revelava que a magia de Lisboa, leia-se imagem, era o fado, a calçada portuguesa e as suas gentes. Gentes e culturas que nestes grandes eventos submergem nas colinas para fazer emergir um World Trade Center.

A atração de grandes eventos, como o Web Summit, é uma estratégia com relevante impacto económico no destino e na imagem do mesmo, é um caminho que escolhemos percorrer. Não há estratégias certas ou erradas, existem estratégias no entanto mais imediatas e outras mais de longo prazo. Associar Lisboa a um legado cultural é valorizar a cidade e o património português, é desenvolver uma imagem afetiva com excelentes repercussões de longo prazo. É, pois, sem surpresas que podemos antecipar a perpetuação do título de city break, mas será o nosso objetivo alavancar um turismo de quatro dias de estada?

A literatura mostra-nos que a imagem afetiva atrai, retém e fideliza turistas por décadas. Enquanto que a imagem cognitiva se repercute apenas no efeito de recomendação. Com este grande evento conseguimos embaixadores de Lisboa, mas teremos conseguido Turistas? Turistas que enamorados de Lisboa voltam anualmente e mais tarde se estabelecem entre as sete colinas à procura da simplicidade das nossas gentes.

Em conclusão, apesar da relevância do evento, da projeção internacional e do impacto económico tenho dúvidas que esta seja a Moeda Cultural de Lisboa.

* Por Antónia Correia, diretora da Faculdade de Turismo e Hospitalidade da Universidade Europeia.

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