Opinião | O cocktail Michelin na Gastronomia portuguesa

Por a 18 de Janeiro de 2019 as 11:00

A gastronomia é um dos elementos essenciais na experiência do turista, constitui-se como a identidade cultural dum país e, por isso, é determinante para a diferenciação e afirmação do destino turístico. Apesar do esforço de afirmação da gastronomia portuguesa como parte integrante da experiência turística, subsiste ainda alguma falta de notoriedade e de reconhecimento da identidade gastronómica do país. Efetivamente e, apesar da notoriedade que as Estrelas Michelin imprimem à gastronomia, entre os turistas estrangeiros esta notoriedade continua a não ser evidente. O turista estrangeiro tende a reconhecer ingredientes (de onde se destacam o bacalhau, a sardinha, o peixe fresco e os mariscos) ou recipientes (como a cataplana) em vez de distinguirem iguarias. Ainda que satisfeitos com as experiências gastronómicas estes turistas valorizam muito o ambiente, o serviço de mesa, a apresentação e a inovação dos pratos e naturalmente a relação qualidade preço.

As estrelas Michelin colocam os chefs em lugar de destaque, o que veio de alguma forma contribuir para uma cada vez maior procura e dignificação da profissão de Chef em Portugal. No entanto, o serviço também é bastante valorizado, pelo que dignificar a profissão dos chefes de mesa é fundamental. Não menos essencial é transformar os ingredientes nos reais protagonistas gastronómicos associando a história dos mesmos à identidade cultural. É consensual que os turistas apreciam o storytelling e muitas das nossas iguarias estão impregnadas de histórias e surgem associadas a pessoas ilustres ou a cidades. Recorde-se que o famoso Bacalhau à Brás, ou as Ameijoas à Bulhão Pato ou até os Pasteis de Belém, são muito mais do que iguarias tradicionais, mas escondem na sua confeção histórias que retratam o imaginário dos portugueses. Enfatizar a história destes lugares ou pessoas é a forma de atribuir identidade a uma gastronomia que ainda que sendo bastante apreciada e galardoada peca pela relativa notoriedade que consegue alcançar.

A literatura sugere que um destino gastronómico se posiciona pela existência de ingredientes únicos, identidade cultural e chefes criativos, bem como pelo serviço prestado. Em Portugal reunimos tudo, inclusive as distinções. Falta-nos, no entanto, um cocktail entre cultura, identidade, storytelling e serviço com a criatividade que as estrelas Michelin identificam nos nossos chefs para que a gastronomia portuguesa ganhe o protagonismo que merece.

Opinião de Antónia Correia, directora da Faculdade de Turismo e Hospitalidade da Universidade Europeia

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