Opinião| Viva o turismo! Abaixo a descaracterização dos bairros históricos!

Por a 10 de Agosto de 2018 as 10:04

Portugal tem sido um destino turístico apetecível nos últimos anos, tendo batido sucessivos recordes o que dinamizou uma economia debilitada, ajudou na luta contra o desemprego, fomentou a criação de novos investimentos e potenciou novas oportunidades de negócios, entre outros fatores.
Assistiu-se a um caudal inusitado e impetuoso de turistas sedentos de vivenciarem os bairros típicos fruto das roupas estendidas nas janelas esguias, das flores penduradas em vasos nas janelas coloridas, das ruas escorreitas, das cores típicas, das casas imemoriais, dos tradicionais azulejos, dos cheiros, dos gatos preguiçosos ao sol e da luminosidade própria destes bairros.
De um modo geral Lisboa, devido à sua identidade, autenticidade, cultura, história e não só, teve o mérito de consolidar e reter esses fluxos de procura. Como dizia Saramago na sua obra “Viagem a Portugal” (1981), “viajar é descobrir, o resto é encontrar”. Ora esta descoberta corre o risco de ser desvirtuada pela corrida desenfreada ao imobiliário, sabendo-se que Lisboa é a cidade europeia onde o Airbnb mais tem crescido desde 2016. Não é, pois, estranho que os jovens não encontrem casas para alugar e a população mais envelhecida tenha vindo a ser cada vez mais pressionada para deixar as casas e os bairros onde estiveram toda a vida para irem “viver” para a periferia. Hoje em dia um dos negócios que dá mais lucro é o do alojamento local. Fruto desta situação, tem-se assistido à perda de identidade de vários bairros históricos como corolário da pressão sobre a população que impotente, pouco ou nada tem conseguido fazer.
Sendo um facto inegável que o turismo é uma atividade importantíssima para o País, urge questionarmo-nos sobre aquilo que verdadeiramente queremos: mais turistas no centro de Lisboa em sintonia com o bem-estar da população ou mais turistas no centro de Lisboa e uma população em risco iminente de ser “corrida” para a periferia da cidade como tem acontecido? Tratando-se esta de uma questão fundamental para o sucesso do turismo, infelizmente tem sido subalternizada aos interesses de alguns proprietários que, em alguns casos sem qualquer escrúpulo, denunciam contratos de longa duração para poderem receber esta apetecível renda adicional. Apesar do turismo contribuir de forma relevante para o crescimento de Portugal, não nos podemos esquecer das tradições e das populações. Esta é uma situação insustentável que, em última instância, poderá afetar negativamente o turismo, pois como disse uma moradora da Mouraria: “corre-se o sério risco de em breve os turistas virem cá olhar uns para os outros”. Por outras palavras, corre-se o sério risco de descaracterizar permanentemente os bairros históricos. Queremos mais e melhor turismo, que recupere o património, fixe populações, recupere urbanisticamente os bairros e, em última instância, que tenha efeitos positivos no bem-estar da população. Desculpem, mas não queremos periferias cheias de portugueses e os bairros históricos cheios de turistas. Custe o que custar, não é esta a ordem natural das coisas.
Acabo esperando que este artigo possa de alguma forma alertar os responsáveis para tomarem medidas rápidas e eficazes no sentido de minimizar este desiderato. Queremos mais e melhor turismo, queremos manter as populações felizes, preservar a cultura local, conciliar a vida dos residentes com os turistas, manter o equilíbrio entre o alojamento local e a habitação e, desta forma, beneficiar todos os que estão envolvidos nesta magnífica e tão importante atividade.

*Por Eduardo Moraes Sarmento, Professor Associado da Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias
Artigo publicado na edição de 20 de Julho do Publituris.

Um comentário

  1. João Martins Vieira

    12 de Agosto de 2018 at 8:30

    Parabéns Eduardo. É altura de pensarmos nas diferenças entre habitar, alojar, viver em, alojamento, hotelaria, visitante, turista, habitante. Pensar e decidir – sempre por esta ordem.
    Um abraço

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