Opinião | Mónica Morais de Brito “Não há fome que não traga fartura”… no Turismo também!

Por a 13 de Dezembro de 2017 as 10:09

É o que diz o ditado popular feito pela sabedoria do povo. Ao que parece, esta máxima também se aplica ao Turismo, em que alguns destinos, alvo de muita procura, já clamam de indigestão! As manifestações públicas de residentes e algumas medidas tomadas pelos seus governantes são sintomas de uma maleita que tudo leva a crer que seja provocada pelo retorno do seu próprio desempenho. Veneza, Barcelona, Atenas estão na lista das cidades que, ao que parece, fechariam as portas aos milhões de turistas que anualmente as procuram, atraídos por uma oferta resultante do investimento e da promoção de públicos e privados, feita nas últimas décadas com o objetivo de atrair quem agora se repele. Também em algumas cidades portuguesas, como Lisboa e Porto, já se levantam vozes contra os milhares de visitantes que chegam diariamente por terra, mar e ar, numa amnésia coletiva sobre o que muito se tem investido para tornar Portugal um destino turístico competitivo à escala global. Os resultados estão aí: prémios que alimentam o ego nacional, referências internacionais que nos enchem de orgulho, celebridades que colocam o nosso país na rota da sua vida e, claro, turistas motivados pelo que veem e ouvem e que querem desfrutar do que tão bem sabemos fazer, receber!
Centrar o debate nos números é redutor. A sua aparente objetividade fica comprometida quando decorre apenas da análise dos indicadores que corroboram as conclusões facciosas de quem ignora a complexidade do Sistema Turístico. Na realidade, ainda que possamos falar da capacidade de carga dos destinos, inúmeros são os fatores subjetivos que a condicionam sendo que, na maioria dos casos, quando se questiona se os turistas são poucos ou muitos, desconhece-se quantos devem ser, face ao perfil dos territórios e das suas populações. A atenção deve focar-se no paradigma que norteia o desenvolvimento turístico, no seu planeamento e na sua contínua monitorização e avaliação. O Turismo Sustentável deve ser a meta suprema e a sua materialização assenta, também, numa relação harmoniosa entre quem recebe e quem visita, que é determinante para a qualidade da experiência turística e para a competitividade dos territórios, no pressuposto de que as comunidades anfitriãs são, elas próprias, um recurso turístico. Segundo informação veiculada recentemente pela secretária de Estado do Turismo, Portugal dispõe de 10 milhões de euros para promover a sustentabilidade no, e do, Turismo. Muito haverá a fazer neste processo, mas investir em projetos que, em última instância, contribuam para que o Turismo seja um veículo para a promoção da qualidade de vida das populações dos territórios com vocação turística deverá ser uma prioridade. Para isso há que capacitar, há que formar os residentes, há que ajudá-los a gerir os impactos negativos do Turismo e a potenciar as oportunidades que lhe estão associadas, há que mostrar-lhes que o Turismo não é só a arte de vender felicidade mas que pode contribuir significativamente para a felicidade de quem o vende! É que, como diz outro ditado também aplicável ao Turismo: “Visitantes dão sempre prazer, senão quando chegam pelo menos quando partem”!

*Por Mónica Morais de Brito, professora na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias
*Artigo de opinião publicado na edição 1353 de 13 de Outubro

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