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O Turismo que anda na estrada

Por a 21 de Fevereiro de 2017


Rent-a-car e Autocarristas. Dois segmentos do Turismo nacional que, pelas suas características, percorrem o País de Norte a Sul, passando ainda pelas ilhas. Quisemos perceber se “O Melhor Ano de Sempre no Turismo Português” acompanhou estes dois negócios, bem como identificar os principais desafios e oportunidades que se adivinham. Há optimistas, menos optimistas, críticos e os benevolentes com as regras do mercado. Há, no entanto, um lugar-comum: o serviço prestado deve ser nivelado por cima. Sempre.

A importância da indústria do rent-a-car no Turismo de um país é visível na seguinte frase proferida por Joaquim Robalo de Almeida, secretário-geral da ARAC – cujo texto poderão ler na íntegra na página 32. “(…) Pois não podemos esquecer que é o primeiro e o último produto turístico utilizado por quem nos visita”. Poucas palavras, muito conteúdo e uma conclusão óbvia: o rent-a-car é, claramente, um dos pilares para que os caminhos e estradas percorridos pelo nosso Turismo cheguem em segurança e com o sucesso pretendido. Mais que um desembrulhar de números e percentagens, esta reportagem quis sentir o pulso das empresas que operam neste sector.

Os desafios, as oportunidades, o digital, entre outros assuntos que apenas quem gere uma frota e convive com o cliente no dia-a-dia pode reportar. Comecemos, então, a viagem: apertem os cintos! O que dizem do sector Abílio Lobato dos Santos, director-geral e administrador da TurisPrime é o primeiro a ligar os motores. “Trata-se de um produto turístico que tem sido alvo de profundas mudanças nos últimos anos fruto da entrada de novos players internacionais no mercado nacional e do aumento da força do negócio digital. Por outro lado, após alguns anos de retracção por dificuldade na obtenção de financiamento por parte da Banca e consequentemente na aquisição de frota, verifica-se agora um aumento exagerado no mercado, contribuindo para a consequente degradação dos preços e para a fraca rentabilidade do negócio”.

Após a identificação daquelas que diz serem as principais mudanças no sector, Lobato dos Santos aponta alguns caminhos seguros. “Deveremos, rapidamente, caminhar para uma maior transparência do negócio, sobretudo em prol da qualidade do serviço prestado ao cliente final, sob pena de sermos ultrapassados por outros negócios similares e directamente relacionados com a mobilidade”.

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O director de Vendas e Marketing da Europcar em Portugal, Fernando Fagulha, centra o seu discurso para uma outra direcção. “O sector do rent-a-car, em Portugal, está bem! É responsável por mais de 20% das vendas dos automóveis ligeiros e tem vindo a actualizar frequentemente a sua frota. A nossa filosofia de mercado é seguir o mote Mobilidade 360º e, tanto a nível nacional como internacional, queremos acelerar e tornar mais sólida esta nossa aposta enquanto empresa junto dos clientes”. Confrontado com o futuro do sector e, da sua empresa em particular, Fernando Fagulha aponta a sustentabilidade ambiental como uma das principais preocupações. “É um elemento obrigatório para uma organização que pretende crescer com responsabilidade. Esta forma de estar fez com que incluíssemos na nossa frota os automóveis híbridos, scooters e bicicletas: meios alternativos e mais amigos do ambiente”, enumera, acrescentando que “esta será uma tendência na procura por parte dos clientes de futuro”.

Na Avis Budget, o foco está no digital e mobile. Disso mesmo dá conta Valérie Chenevisse, directora-geral Ibérica do Grupo Avis Budget. “Cada vez mais, os consumidores procuram alugar carros de uma forma mais conveniente, sendo uma tendência crescente que este processo seja feito através de uma plataforma digital, algo que, acreditamos, continuará a sentir-se em 2017”. Segundo a responsável, “os clientes esperam não só poder escolher e reservar o seu carro num smartphone ou tablet, mas também verificar as diferentes opções de produtos e serviços, como o GPS ou assentos para crianças, gerir facturas, entre outras funcionalidades”. Na Avis Budget, o futuro está, porém, identificado: tornar mais fácil a experiência de alugar um carro. Para isso, diz a directora-geral Ibérica, “o principal foco são as novas tecnologias e o Turismo, lançando projectos como a Avis Untrending, ferramenta interactiva que permite aos utilizadores descobrir locais escondidos a poucos quilómetros do destino de férias preferido”.

Ainda no mesmo discurso, acrescenta: “Este passo foi concebido para inspirar os turistas a afastarem-se das multidões e a explorarem novos lugares”. António Carvalho, sócio-gerente da Orbita, começa com um balanço do ano que agora findou. “Crescemos 8% no aluguer de automóveis em 2016. Para este ano, vamos continuar a insistir na transparência, qualidade e rigor, sinónimo também da marca com que trabalhamos: Mercedes/Smart”, explica. “Será, portanto, um crescimento muito similar ao do ano passado”.

Turismo a crescer. E agora?

O ano de 2016 trouxe um recorde no número de dormidas e turistas em Portugal. De acordo com as previsões, acredita-se que os valores não abrandem e mantenham a tendência de crescimento. Desafiada a explicar de que forma é a que a Avis Budget irá fazer face a esta contínua evolução do sector, Valérie Chenevisse recorda a ampla gama de serviços existente nas estações da empresa. “Temos uma ferramenta que se chama e-Toll, que tem como principal prioridade economizar tempo na altura do pagamento de portagens; por outro lado, oferecemos uma vasta gama de modelos automóveis modernos e confortáveis, sempre com altos níveis de segurança; temos ainda um cartão gratuito – AVIS Preferred – que oferece diversos benefícios como serviço prioritário ao balcão, acesso exclusivo aos nossos carros mais recentes, documentação relativa ao aluguer preparada antecipadamente, veículos estacionados nas localizações mais convenientes, entre outros privilégios”, enumera.

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Na Turisprime, Abílio Lobato dos Santos centra-se primeiro no que o sector, num todo, deve fazer. “Deverão [o sector] conseguir acompanhar aquilo que são as directrizes das autoridades nacionais, nomeadamente quanto à qualidade de serviço a ser prestada ao turista, para que o país continue a ser considerado um destino de excelência”. Depois, sim, a TurisPrime. “Iremos continuar a crescer de forma sustentada e muito atenta a este contínuo fluxo turístico. Temos a capacidade humana e logística para acompanhar esta evolução, ainda assim, estamos muito conscientes que a volatilidade dos mercados é bastante grande e que as regras do jogo podem mudar à velocidade da luz, pelo que cada passo estratégico a ser dado é sempre muito bem ponderado”. Relativamente aos desafios da TurisPrime para os próximos anos, o também administrador lembra que a “empresa continuará a colocar em práctica aquilo que são os três pilares fundamentais da sua presença no mercado: qualidade, transparência e rigor”. “Queremos erguer uma empresa especialista no Turismo e Lazer e que se diferencie pela qualidade. Pretendemos, sobretudo, fazer bem e não fazer apenas. A formação contínua dos nossos colaboradores é uma realidade e começamos a ter o retorno através do nosso posicionamento na evolução do grau de satisfação por parte dos nossos clientes, explanada nas plataformas dos principais parceiros com quem trabalhamos”.

Ainda na mesma linha de pensamento, Abílio Lobato dos Santos deixa uma novidade: “Como previsto, iremos proceder à abertura, já no dia 1 de Março, da estação de Faro”. A finalizar, o responsável refere-se a 2017 “como um ano para ganhar velocidade e colocar a Turisprime num lugar que lhe pertence por direito”. “É por isso fundamental o aumento registado de parcerias sólidas com os principais agentes do sector bem como o contínuo investimento em recursos técnicos e humanos que permitam um posicionamento diferenciador, nomeadamente através de serviços e produtos únicos com consequência directa no desenvolvimento positivo do negócio”.

António Carvalho, da Orbita, afirma que “todos os dias surgem desafios novos”, sendo que “cada vez mais a questão da competitividade e do serviço de excelência são as grandes armas de diferenciação, daí a preocupação e aposta contínua na melhoria das ferramentas de trabalho”. Projectando o futuro, o responsável indica que “é essencial capitalizar a abertura de novos mercados – América do Norte – e pontos de venda, nomeadamente brokers e no alargamento da rede”. Assim, acrescenta, “a Orbita conseguirá estar mais próxima dos clientes e potencializar a chegada de novos”.

Fernando Fagulha, por seu turno, prefere realçar aquilo que a Europcar tem melhorado para, claro está, fazer face aos desafios propostos pelo crescimento do Turismo em Portugal. “Reduzimos os nossos tempos de espera na recolha e entrega do automóvel com a abertura de novas estações em Lisboa e diversificámos a oferta da nossa frota automóvel. Estamos mais flexíveis, com uma oferta mais rica e diversificada: estamos preparados para corresponder às mudanças do mercado e para acompanhar este momento positivo do Turismo no País. Também é nossa prioridade consolidar os nossos serviços e comunicá-los exaustivamente, assim como potenciar a eficácia dos serviços com propostas para as empresas, particulares e para o Turismo, enriquecendo a nossa frota – tudo sob a marca da Mobilidade 360º”.

Contexto digital

“E-Toll, que facilita o processo de pagamento de portagens para que os nossos utilizadores não tenham que se preocupar no momento de pagar, Wi-Fi on board para permitir que os passageiros possam descobrir mais sobre a região onde se encontram, GPS portátil e ainda a Avis Tour Guide, ferramenta que oferece assistência com informações turísticas de forma a proporcionar uma melhor experiência nas viagens pelo país. Temos ainda plataformas como a Budget List através da qual os portugueses podem ver quais os mais ‘trendy’ e principais eventos que decorrem em toda a Europa, tudo baseado em dados retirados das redes sociais”. As palavras são de Valérie Chenevisse e dão-nos uma ideia da importância do digital, mobile e Internet no universo das rent-a-car e do caminho que pretendem trilhar.

Joaquim Robalo de Almeida, da ARAC, lembra que “vivemos hoje na era da informação”. E adiciona: “A Internet transformou a economia e as relações de consumo, pelo que esta importante ferramenta deve ser considerada não como um simples meio de comunicação, mas sim como um ambiente – o ambiente digital onde os modelos de negócio são agora criados”. Ainda sobre a importância do digital para o sector, o secretário-geral da ARAC afirma que “as empresas apostam na comunicação e no marketing digital, realizando cada vez mais os seus investimentos em tecnologia e levando de uma forma eficaz e directa o produto ao seu público-alvo”. Joaquim Robalo de Almeida finaliza a sua opinião sobre o tema apelando a que se desenvolva uma legislação coerente para este novo ecossistema. “No rent-a-car há muito que a maioria das empresas interiorizou essas premissas, pelo que após a introdução desse ambiente, há que alterar procedimentos e legislações que permitam o desenvolvimento harmonioso deste ambiente digital com claras vantagens para consumidores e fornecedores. A mudança dos actuais contratos de aluguer de veículos sem condutor em papel para formato digital é, pois, uma necessidade deste sector que se encontra modernizado mas que depois esbarra com obrigações legais introduzidas há mais de 50 anos”, concluiu.

Autocarristas: estabilidade, o segredo

Flutuações nos preços dos combustíveis, a crise, a troika, o Turismo. Tudo factores que influenciam o segmento de autocarristas em Portugal. O Publituris contactou alguns ‘players’ para que estes fizessem uma radiografia ao sector onde operam. Começamos com a Promartur. João Diogo foi o porta-voz. “O sector tem estado estável nos últimos dez anos, apesar das incríveis flutuações e aumento dos combustíveis, do elevado custo de financiamento, da crise financeira global e em particular em Portugal. O facto de as empresas terem sobrevivido deve-se à persistência e espírito de sacrifício dos seus líderes”.

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Martinho Santos Costa, administrador delegado da Barraqueiro Transportes SA, recorda que “após a crise financeira de 2008, o mercado recuperou de forma segura e equilibrada”. Ainda assim, afirma, “a instabilidade política em alguns países que concorriam habitualmente com Portugal na realização de operações de relevo nos segmentos mais importantes também ajudou a melhorar a saúde do sector”. Na opinião de Jorge Nogueira, da Iberobus, “o sector passou por uma fase de limpeza natural nos anos da troika, em que as empresas menos aptas fecharam ou reduziram as suas frotas”. O responsável adiantou ainda que “actualmente, a indústria está a beneficiar da deslocalização do turismo francófono da Turquia e da Tunísia para Portugal, situação que deve ser aproveitada para consolidar o destino”.

Um 2016 “assim, assim”

No grupo AVIC, Ivo Cunha refere que “tem havido um aumento nos alugueres ocasionais”, pelo que “é expectável que 2017 mantenha a tendência verificada em 2016”. No entanto, tendo em conta o actual cenário, o responsável elenca os principais desafios para que uma empresa do sector obtenha sucesso no mercado. “Alteração da cultura de valorização do automóvel particular; envelhecimento das populações e o impacto no sector da mobilidade, crise económica e social, nomeadamente o desemprego e a emigração; e o combate à desertificação populacional”. A estes, acrescenta ainda os desafios de cariz tecnológico. “Com a mudança de paradigma do que é a mobilidade e como se desenvolve, a questão da tecnologia será algo que nas próximas décadas será ainda mais vincado com a autonomização dos veículos”, destaca.

Na Iberobus, “2016 foi um ano de expansão pelo terceiro ano consecutivo e com crescimento a dois dígitos”. Confiante, Jorge Neves afirma que “em 2017, a aposta vai incidir no reforço das parcerias existentes e na angariação de novos clientes”. Também para este ano “são esperados mais três autocarros de 51 e 55 lugares, ar condicionado, WC, cama de motorista, bancos reflectíveis forrados a eco-pele com estofamento VIP, vidros duplos coloridos, aquecimento por sistema de convectores, DVD com monitores, LCD frontal e a meio da carroçaria, tomadas USB e iluminação por sistema de LEDS”.

João Diogo, da Promartur, refere-se a 2016 “como um ano em que, do ponto de vista da taxa de ocupação/serviços e facturação, foi similar a 2015, mas muito longe da rentabilidade de outros tempos”. “O custo do combustível, a estagnação dos preços de mercado e a legislação laboral provocam constrangimentos à sustentabilidade e crescimento das empresas”. Sobre as expectativas para 2017, João Diogo sustenta que “haverá um incremento na procura para a prestação de serviços em autocarro”, destacando o facto de “se tratar de um ano que ficará marcado pelo Centenário das Aparições de Fátima e sendo Portugal um país maioritariamente católico, irá criar uma dinâmica de eventos onde o autocarro será um meio de transporte por excelência”.

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Na Barraqueiro Transportes SA, o cenário é de optimismo ainda que moderado, segundo Martinho Santos Costa. “Podemos considerar 2016 um ano bastante positivo para o mercado do transporte de turismo em autocarro, ainda que o crescimento da actividade não seja idêntico ao que se publica regularmente sobre o crescimento global do Turismo em Portugal”, critica, justificando, logo de seguida, a sua opinião. “O aumento de turistas no País é proveniente, em grande medida, de clientes individuais que têm uma menor repercussão na nossa actividade. O segmento mais importante para nós, os congressos, incentivos e viagens em grupo, teve um crescimento inferior ao global”.

Que desafios?

Ainda na Barraqueiro Transportes SA, surge uma critica ao sector e, com isso, um desafio. “Coexistem no mercado empresas de grande qualidade e outras onde as condições laborais e regras de segurança na condução são díspares. Sendo o custo na mão-de-obra um factor significativo na construção da matriz dos preços de venda, estão criadas as condições para a degradação das regras de uma concorrência sadia e equilibrada”, diz Martinho Santos Costa, que menciona também que “a elevada sazonalidade dos serviços com a consequente sub-utilização da frota na época baixa, implica uma fraca rentabilidade para os enormes investimentos necessários para se produzir um serviço de qualidade”.

Na Promartur, tal como na Barraqueiro Transportes SA, existem vários desafios nesta área de negócios. “A concorrência desleal, más práticas de gestão, legislação laboral desajustada, variações no custo da matéria-prima – gasóleo – instabilidade geopolítica em várias regiões do globo, falta de segurança. Variações climáticas, catástrofes naturais, epidemias, faltas de recursos humanos qualificados e clientes pouco informados sobre o serviço que contratam são os desafios que as empresas íntegras e com estratégia de crescimento sustentável vão enfrentar”.

Já sobre o crescimento do Turismo em Portugal, João Diogo explica que “este nem sempre é sentido da mesma forma no mercado de passageiros”. “A realidade sentida em Lisboa, Porto, Algarve, Açores e Madeira não é a mesma que nas restantes regiões do País. Não há homogeneidade na divisão do serviço, transmitindo-se a ideia de que o resto é paisagem. As regiões de Turismo têm de intensificar as estratégias de atracção de forma a que exista uma maior divisão de riqueza em todo o território”.

A finalizar, um alerta: “Parte do crescimento turístico deve-se ao turista que viaja individualmente e contrata os serviços directamente. O crescimento do sector dos transportes em autocarro, principalmente o ocasional, só cresce com o incremento das viagens em grupo e esse crescimento não tem sido significativo”.

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