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Opinião

Falta respeito pelo Algarve

As pequenas casas junto ao mar passaram a grandes prédios para albergar mais gente visitante e a vista do mar passou a ser paga a peso de ouro. Mercados foram demolidos em nome da higiene e modernização, apagando-se traços de uma arquitetura com história. O Algarve passou a servir ao invés de viver. Vendeu-se a geografia e vendeu-se a cultura.

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Falta respeito pelo Algarve

As pequenas casas junto ao mar passaram a grandes prédios para albergar mais gente visitante e a vista do mar passou a ser paga a peso de ouro. Mercados foram demolidos em nome da higiene e modernização, apagando-se traços de uma arquitetura com história. O Algarve passou a servir ao invés de viver. Vendeu-se a geografia e vendeu-se a cultura.

Guilherme Costa
Sobre o autor
Guilherme Costa

Não sou algarvio, nasci em Lisboa e aos 4 anos fui atrás do meu pai para Bragança, e lá cresci. Conheço cada rua, cada beco, sei cada início e fim de um lugar em que cada monte no horizonte te ajuda a perceber onde te encontras. Sinto-me transmontano porque fui recebido e criado como tal.

Sou o primeiro a admitir que existe um certo desdém para com o Algarve e os algarvios no resto do país. Mouros com uma pronúncia que come palavras, que comem as refeições em gavetas, e outras tantas afirmações pintam uma imagem de alguém carrancudo, egoísta e desonesto. Aqui pensa-se com o mesmo desdém das pessoas do Norte, que aqui vêm passar férias, com exigências e um desrespeito berrante. Hoje sei que são tudo disparates.

Vivo há cerca de doze anos no Algarve. Casei com uma fantástica mulher de Monchique e o meu filho nasceu em Portimonense. Contudo, no início, senti-me um imigrante e ignorante, mas senti-me bem-vindo. O trabalho que me ajudou a conhecer o Algarve e a pagar mais estudos foi um trabalho comercial que requeria conhecer cada terrinha algarvia.

Doze anos, divididos no Sotavento e Barlavento, serviram para descobrir pronúncias tão distintas que se tornam fascinantes pela meia dúzia de quilómetros que as separam.

Descobri que a N125, uma estrada que atravessa o Algarve, separa mais do que serra e praia, separa gentes e identidades. Descobri muita coisa, e muita coisa ainda está por descobrir.

Contudo, acima de tudo, descobri que há poucos algarvios.

A identidade de um povo assenta na sua cultura, nos seus costumes, tradições, língua e geografia.

Quem sou eu para dizer o que é ser algarvio? Ninguém, nem vou tentar, porque sou um deslocado, mas parece-me que nem os algarvios sabem bem quem são.

Penso que essa falta de identidade advém da sua geografia ter sido vendida como serviço, a agricultura desapareceu e a pouca que sobreviveu passou a servir poucos e a gastar muita da preciosa água. As pequenas casas junto ao mar passaram a grandes prédios para albergar mais gente visitante e a vista do mar passou a ser paga a peso de ouro. Mercados foram demolidos em nome da higiene e modernização, apagando-se traços de uma arquitetura com história. O Algarve passou a servir ao invés de viver. Vendeu-se a geografia e vendeu-se a cultura.

O queixume é o roubo do Algarve, que pode ser aplicado a Portugal inteiro, mas no Algarve ainda se fazem cartazes com saldos.

A luz ao fim do túnel existe. Não passará pelo saudosismo não vivido daqueles que remontam a um Reino dos Algarves como referência identitária. Penso que a luz estará em dar foco àqueles que vivem do Algarve com respeito.

A boa comida algarvia ninguém nega, mas projetos como o Restaurante Loki, apelidado pelo Expresso como o “restaurante mais sustentável do país”, onde o Chef algarvio João Marreiros colhe os próprios ingredientes nas proximidades e faz uma reinterpretação de comidas tradicionais do Algarve, que nos deixam mesmerizados; ou os inúmeros investimentos vinícolas, com castas nacionais e nativas, feitos por algarvios e não só, que dão a provar um Algarve que se respeita e se faz respeitar.

Projetos audiovisuais como o “Choque Frontal” que dá a conhecer a boa arte daqueles que aqui vivem, ou o incrível espetáculo “Eis o Algarve” que faz um levantamento e reinterpretação da música algarvia. Projetos arqueológicos como os da Associação de Arqueologia do Algarve merecem mais do que respeito, merecem o devido financiamento para a exposição de um Algarve que vai além praia. E esse financiamento vem da compra de vinhos locais, na compra de bilhetes de espetáculo durante o ano inteiro, vem da mobilização do poder de escolha dos algarvios em apostar local.

As autoridades queixam-se da falta de financiamento e falam de um peixe com rabo na boca. Para o marisqueiro com balde de caranguejos onde nenhum consegue sair porque os outros o puxam para baixo, é um marisqueiro tranquilo.

Falta respeito pelo Algarve, falta acreditar que nem tudo está perdido ou vendido. Sabemos que faltam médicos, faltam meios de transporte, falta tudo, mas, acima de tudo, faltam mais algarvios no Algarve.

Faltam mais algarvios que acreditem e defendam o Algarve.

Sobre o autorGuilherme Costa

Guilherme Costa

Diretor de marketing e brand strategist
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