No país onde o ensino é uma “paixão” e o turismo uma aposta

Por a 3 de Dezembro de 2014 as 10:43

As várias intervenções, que tenho ouvido ultimamente, proferidas pelos vários actores do “círculo” turístico nacional, são na sua grande maioria imbricadas de alguma confiança para o ano que se avizinha. Vivemos uma “euforia turística” na qual todos queremos participar. No ensino também assim é. Quer seja ensino profissional ou superior, o ano lectivo de 2014/2015 está a ser um ano de alguma recuperação nos dados referentes às inscrições e nos drop out (desistências). A verdade é que, paulatinamente, a sociedade portuguesa começa a responder de forma positiva à importância que a formação, a aquisição de competências e respectiva actualização de conhecimentos representa para todos os profissionais de turismo. Por outro lado, reconhece-se o esforço que certas IES (Instituições de Ensino Superior) têm feito para perceber a realidade laboral, contribuindo para a sustentabilidade da actividade no país. Até aqui vamos bem. O problema surge quando ouvimos, nas intervenções que há pouco referi, (a) a falta de preparação que muitos alunos adquirem no seu processo de aprendizagem e (b) o desconhecimento sobre as exigências colocadas no ensino superior do turismo.

E é sobre o último ponto que me debato diariamente contra algumas “incoerências” estabelecidas, que em nada favorecem o ensino superior. Já tive oportunidade de referir que actualmente as IES vivem num processo de estrangulamento relativamente aos requisitos que constam no artigo 6º do Decreto – Lei nº 115/2013, de 7 de agosto, onde refere que o corpo docente é academicamente qualificado, quando o mesmo é constituído por um mínimo de 50% de docentes com o grau de doutor nas áreas científicas das unidades curriculares que leccionam, com produção cientifica e investigação reconhecida na área. Como se deve calcular, devido à escassez de Doutorados na área do turismo, a questão complica-se. As contas são simples. Vejamos só o caso das licenciaturas. Existem 12 licenciaturas no sector privado e 31 licenciaturas no ensino público na área do turismo e o número de Doutores em Turismo deve actualmente rondar os 40 (segundos os últimos dados). Por outro lado, é importante referir que a dedicação necessária à produção científica e à investigação afasta, na maioria das vezes, o corpo docente da realidade empresarial, levando à separação das duas realidades fundamentais para o ensino do turismo.

Quando os ciclos não cumprem estes requisitos o processo é simples, a A3ES – Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior encerra o curso. Esta agência, através das CAE’s (Comissões de Avaliação Externa), tem por objectivo a verificação e monotorização da qualidade do desempenho das instituições de ensino superior e dos seus ciclos de estudos, que em muito concordo. Mas a curiosidade reside no facto que estas comissões que vão às IES avaliar os cursos (docentes, unidades curriculares, investigação, estágios, entre outras), constituídas por peritos, supostamente constituídas por Doutorados em Turismo, na sua grande maioria não são. De facto…curioso! E assim continuam algumas das incoerências no ensino superior, num país onde o ensino é uma “paixão” e o turismo uma aposta.

 

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