Opinião: Bruxelas-Lisboa via Roma

Por a 22 de Julho de 2021 as 10:06

*Por Pedro Castro, consultor em aviação comercial

A decisão da Comissão Europeia sobre a TAP chegou a estar anunciada para breve de acordo com fontes ministeriais Portuguesas. Afinal, não. Fez uma escala em Roma – que não mereceu qualquer destaque na nossa comunicação social – e atrasou-se… ou talvez não.

A Alitalia de hoje é, em tudo, semelhante à TAP: companhia parcialmente privatizada e re-nacionalizada à força por crenças e decisões políticas que seguem uma linha simultaneamente popular nas suas emoções e retrógrada na sua racionalidade económica ao querer replicar os idos anos 80 do século passado. As semelhanças prosseguem no tamanho da sua frota (92 aviões) e no número de empregados (11 mil) e no fato de, tal como a TAP, a Alitalia apenas conseguir guardar uma tímida posição dominante no seu único aeroporto principal, Roma. Também a Itália é um país geograficamente complexo com uma dimensão continental e insular, MAS é a 3ª economia da União Europeia, tem uma população seis vezes superior à de Portugal, o seu turismo internacional é muito mais pujante (65 milhões de turistas estrangeiros em 2019) e tem uma das maiores diásporas mundiais espalhada por todos os Continentes. A Alitalia de hoje serve uma minoria geográfica e populacional e foi ultrapassada pelas suas concorrentes em destinos, rotas, passageiros e bases no país: no mercado doméstico e europeu foi ultrapassada pela Ryanair, easyJet, Volotea e Wizzair (no conjunto têm bases em 28 aeroportos italianos com pessoal local; a Alitalia tem apenas 2) e no mercado intercontinental por companhias estrangeiras que conetam vários aeroportos (Veneza, Catania, Bolonha, Pisa, Milão, Rome, Palermo e Nápoles; o longo curso da Alitalia voa apenas de Roma) diretamente ao mundo. Acresce que, entre ajudas oficiais (e não oficiais) do Estado Italiano e os prejuízos crónicos, a bandeira aérea Italiana já custou ao seu contribuinte milhares de milhões de Liras e Euros para um resultado sempre pior. Substitua-se Liras por Escudos e temos a TAP.

A decisão da UE sobre o futuro da companhia aérea da sua 3ª maior economia não terá sido isenta de fricções e de tentativas de obstrução. Ainda assim, os resultados dessa decisão denotam a preponderância dos critérios de justiça, igualdade e de livre mercado sobre os critérios políticos e emocionais – para o bem da Europa e, sobretudo, dos Italianos. E a Comissão tem por hábito tratar casos semelhantes usando critérios decisórios semelhantes.

A primeira grande mudança: o nome Alitalia cai a 14 de Outubro. A nova companhia quebrará essa continuidade e, ao que tudo indica, passará a chamar-se será ITA;

A segunda limitação à ação do Estado: a injeção de capital público tem um limite de 700 milhões em 2021, 400 milhões em 2022 e 250 milhões em 2023 – para um total de quase 1.4 mil milhões de euros. Menos de metade do que pretendia o governo Italiano e do que pretende o Português para a TAP.

O terceiro compromisso: a frota será de 52 aviões (em vez dos atuais 92 que queria manter) – apenas 7 desses aviões servirão voos intercontinentais. Como consequência, a nova empresa terá de dar espaço à concorrência e ceder 15% das faixas horárias (“slots”) que a Alitalia detém no cobiçado aeroporto de Linate em Milão e 57% das que detém no aeroporto de Roma-Fiumicino; e a sua rede limitar-se-à a 45 destinos e 61 rotas.

Em 4º lugar: a nova companhia começará com 2800 funcionários que poderão vir da Alitalia mas que terão de aceitar um novo contrato com a nova companhia. Em 2022, altura em que a companhia poderá crescer para os 78 aviões, atingirá os 5750 empregados… longe dos atuais 11 mil funcionários.

Por último: a nova companhia terá de se desligar das atividades de handling, manutenção e do programa de milhas MilleMiglia.

Estas longas negociações levaram a um resultado ínfimo quando comparadas com as intenções do governo Italiano. À semelhança do sucedido com a Alitalia, decidiu agora a Comissão que vai seguir o caminho de “avaliação profunda” da TAP – para bom entendedor, meia palavra bastará.

No dia em que a Comissão Europeia decidir qual a ajuda Estatal legalmente possível para a TAP, certamente se levantarão dedos acusatórios à Comissão e haverá até quem manipule e argumente ser melhor sair da UE – não saberão fazer as contas, certamente. Nesse dia, constatemos apenas, com pesar, o preço que todos nós pagámos pela teimosia política demagógica que já levou, em plena crise pandémica, ao desaparecimento de 2 mil milhões de Euros dos nossos impostos na TAP sem qualquer utilidade para o país. Esse dinheiro – necessário para nos fazer avançar em tantos outros setores, incluindo o do turismo mas não desta forma enviesada – não voltará.

Uma coisa é certa: com ou sem TAP, é graças ao quadro politico-económico da UE que continuaremos a ter ampla escolha de companhias, preços e horários quando quisermos voar de vários aeroportos de Portugal para Bruxelas sem fazer escala em Roma… nem em Lisboa.

2 comentários

  1. mario xavier

    24 de Julho de 2021 at 15:17

    Antes de escrever artigos sobre Aviação era bom que pelo menos estivesse informado e não escrevesse asneiras e falsas informações pois quem percebe de Aviação sabe que a Alitalia não tinha não têm o mesmo problema da tap e por favor tenham jornalistas que percebam de aviões e mercado da Aviação.

  2. Maria Queiroz

    24 de Julho de 2021 at 9:13

    Enquanto por cá continuamos sem perceber exactamente o que se pretende (ou pode) fazer com a TAP.

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