“Desde novembro de 2019 que os campos de golfe não têm receitas”

Por a 14 de Julho de 2021 as 17:06

O turismo foi dos setores mais afetados pela pandemia. Zero de novidades. O golfe, inserido no universo do turismo, foi afetado, mas registou, segundo Luís Correia da Silva, presidente do Conselho Nacional da Indústria do Golfe (CNIG), um comportamento ligeiramente diferente, fruto (imagine-se) do confinamento. Ou seja, o facto, dos golfistas nacionais e estrangeiros residentes no nosso país estarem confinados até foi benéfico. O problema foram os restantes – golfistas internacionais – que não puderam vir ao nosso país e que correspondem a 70% dos golfistas em Portugal. Além disso, o golfe turístico vai ao encontro de um dos objetivos do plano apresentado para o turismo: combater a sazonalidade.

Em abril de 2020, em entrevista ao Publituris, destacava o forte desempenho que a indústria do golfe tinha tido em 2019. Na altura indicava que 82% das empresas e campos de golfe tinham reduzido significativamente a sua atividade. Mais de um ano depois, como está o golfe em Portugal?
No turismo, praticamente, todos foram amplamente impactados com a crise decorrente da COVID-19. O golfe, contudo, teve um impacto ainda mais complicado. E mais complicado porquê? Porque o golfe tem, basicamente, e falo particularmente do golfe turístico, duas épocas altas: abril e maio e depois setembro e outubro. Por isso, é que é uma atividade complementar nos destinos turísticos, porque é intenso nas alturas em que as épocas de sol e praia não estão no seu auge.

Mas essas duas épocas são fortes em Portugal ou em todos os destinos de golfe?
Em todos os países que não sejam os do norte por causa das condições climatéricas para jogar golfe. Ou seja, neste momento [final de maio] todos os campos de golfe na Europa já estão abertos, os golfistas turistas não viajam para o sul em junho, julho e agosto, porque jogam habitualmente nos seus países.
Basicamente joga-se a partir da última semana de fevereiro. A partir de março já começa a ser interessante, porque no norte da Europa os campos ainda estão fechados.
Os meses de setembro e outubro são, precisamente, iguais. Como no verão os golfistas jogam nos seus países, com a chegada do outono, começa a ficar muito frio e chuva e viajam até ao sul para jogar.

Sem receitas desde 2019
Mas confirma os tais 82% de quebra nas receitas?
Em termos de receitas, na prática, os campos de golfe que possuem uma grande dependência do golfe turístico, estão sem receitas desde o princípio de novembro de 2019. Mesmo em janeiro e fevereiro de 2020, ou seja, antes da pandemia…

Que o setor do turismo refere como os melhores dois meses de sempre…
Exatamente. Estamos a falar de dias com 50 jogadores, 70 jogadores. Nos anos anteriores teríamos 30.
Efetivamente, o que se perspetivava era que as reservas que havia para abril, maio e depois para setembro e outubro de 2020, eram muito superiores às de 2019.
Ora, toda a gente estava numa expectativa muito positiva, com as reservas a esgotar para os restantes meses do ano.

E depois veio a pandemia!
Por isso, na prática, desde novembro de 2019 que os campos de golfe não têm receitas.
Não nos podemos esquecer que os campos de golfe exigem manutenção, mesmo quando estão fechados. Podemos fechar um hotel e reduzimos 80 ou 90% dos custos de operação, mas fechando um campo de golfe, reduzimos 20% dos custos que é, basicamente, o pessoal.

Porque em relação ao campo, em si, tudo se mantém, certo?
Tudo se mantém igual. É certo que na época alta poderá dizer que temos de cortar a relva todos os dias e com o campo fechado, corta-se duas ou três vezes por semana. Correto, mas as pessoas têm de lá estar e continuar a trabalhar. Os custos de manutenção de um campo de golfe são muito elevados, independentemente de estar ou não a ser utilizado. Se o campo de golfe não tiver manutenção, perde-se, tudo.

Aquele período entre maio e outubro de 2020 veio ajudar um pouco?
Sim, houve uma ligeira abertura, fundamentalmente, aproveitada pelos jogadores nacionais. Quando houve a abertura, já não era possível os jogadores estrangeiros virem jogar a Portugal. Os que vieram nos meses de julho e agosto foram para o sol e praia, não para jogar golfe.
O que acontece é que, com o confinamento e posterior desconfinamento, as voltas jogadas pelos jogadores portugueses e estrangeiros residentes até foram superiores, as receitas dos campos é que foram, substancialmente, inferiores.
É sabido que, quem deixa a maior receita nos campos de golfe, são, efetivamente, os jogadores estrangeiros. Então os campos que dependem, fundamentalmente, do golfe turístico, ou seja, Algarve, Oeste, Lisboa, sofreram e sofrem muito mais.

 

Podemos fechar um hotel e reduzimos 80 ou 90% dos custos de operação, mas fechando um campo de golfe, reduzimos 20% dos custos

 

Confirma-se, então, aquilo que dizia, que em virtude do golfe depender muito dos estrangeiros, as quebras rondariam os 90%?
Diria que em termos de receitas devemos ter atingido uma quebra bruta à volta dos 70%. Em voltas, a quebra não foi tão elevada, porque houve muito mais portugueses e estrangeiros residentes a jogar, porque estavam confinados e/ou em teletrabalho e tinham possibilidade de jogar.
As pessoas, esta manhã, estariam no escritório a trabalhar e não encontraria ninguém a jogar. Agora com o teletrabalho, temos muitos portugueses ou estrangeiros residentes a jogar em horas que antigamente era difícil ver.

Dependência britânica
Quanto pesa o jogador nacional e o estrangeiro residente nas receitas?
70% das receitas provêm de jogadores estrangeiros e 30% de jogadores nacionais e estrangeiros residentes.
Os jogadores nacionais concentram-se em meia dúzia de campos. Já o Algarve, Oeste e alguns campos à volta de Lisboa dependem enormemente do jogador estrangeiro. Mas o Algarve é, de facto, das regiões e dos campos mais afetados. 90% das receitas dependem de jogadores estrangeiros.

Portugal entrou e saiu da lista verde do Reino Unido. Que impacto teve esta situação no golfe nacional?
Repare, nós entrámos e saímos da lista verde fora da época do golfe. Por isso, não teve grande impacto. O que estamos a verificar é um grande interesse e pedidos de informação para reservas para setembro e outubro.

Quais são as principais nacionalidades dos golfistas que nos visitam?
70% dos golfistas são do Reino Unido ou Irlanda. O resto tem havido um crescimento muito interessante de França, Itália, Bélgica.

Com esse peso todo do mercado britânico, além da pandemia há também o Brexit. Nota-se o impacto ou agora é só mesmo pandemia?
Essa é uma boa pergunta e para a qual não sei se tenho resposta. O facto é que o Brexit aconteceu depois da pandemia. Mas só havia medo e receio de uma situação: se se verificasse uma perda muito grande da libra face ao euro. E isso não se verificou.
Tudo o resto, continua igual. Continua a compra de casas por parte dos ingleses no Algarve e no resto do país, continua a verificar-se que os turistas ingleses são fundamentais para o nosso turismo e continuam a ser o maior número de golfistas a vir para Portugal.

Como inverter essa dependência britânica?
O CNIG tem relações com as associações homólogas dos países europeus e há um dado verdadeiramente notável: nestes últimos anos houve um crescimento brutal do golfe nalguns países. Porquê? Porque existindo já muitos jogadores, houve um interesse manifesto por parte das pessoas em fazerem atividades desportivas ao ar livre. E de repente o golfe, que era uma atividade que estava de alguma maneira em perda com muita gente a deixar de jogar e poucos jovens a aderir – houve um crescimento em países como a Suécia, Dinamarca ou Inglaterra, entre outros. Durante a pandemia os campos estiveram completamente esgotados.
Houve campos nesses países que tiveram receitas como nunca. Uma vez que as pessoas não podiam viajar para fora, houve um aumento de jogadores. Na Escandinávia houve campos que não podiam aceitar mais sócios. Nunca as academias nesses países tiveram tanta gente a querer aprender a jogar golfe.

E por cá?
Em Portugal, o que acontece é que, infelizmente, temos muito pouco jogadores de golfe e não temos tido a capacidade de aumentar o número de jogadores no nosso país. Acho que há um conjunto de problemas. Por um lado, há a ideia de que o golfe é um desporto elitista e por outro que é caro.
Se quiser jogar ténis ou padel, se tiver de alugar um campo, provavelmente, vai gastar mais para jogar cinco horas ténis ou padel do que a jogar golfe.

É uma questão de perceção?
Ninguém discute se o ténis ou o padel é elitista ou caro, certo? Se comprar uma boa raquete de ténis, custar-lhe-á eventualmente o mesmo que um set de clubs de golfe. Mas está a comprar uma só raquete.
Depois há outro problema que, ao contrário de outros países, Portugal não tem uma rede de campos de golfe municipais. A maior parte das autarquias acha que tem de ter uma arena para desportos – futsal, andebol, volley, padel – e muitas vezes têm o problema do investimento e manutenção. Ora na maior parte dos países na Europa, há campos de golfe de seis buracos, de oito buracos que são municipais. Em Espanha, por exemplo, é uma brutalidade os campos de golfe municipais.
O que esta pandemia veio ensinar e destacar é que o ideal é fazermos desporto e atividade física ao ar livre. Nesse aspeto, o golfe bate qualquer outra atividade desportiva.

 

O que esta pandemia veio ensinar e destacar é que o ideal é fazermos desporto e atividade física ao ar livre. Nesse aspeto, o golfe bate qualquer outra atividade desportiva.

 

Uma (velha) questão de imposto
E depois, continua a existir a questão do IVA?
Sim, a questão do IVA é muito grave, porque não se trata somente de pagar impostos. Ao pagar tantos impostos, as empresas têm mais dificuldades em investir e melhorar os campos e a atividade. Ou seja, a questão do IVA coloca-se ao nível da competitividade da nossa oferta e da dificuldade do reinvestimento. Se pagarmos 23% de IVA e tivermos de cobrar esses 23% a um cliente, tornamo-nos menos competitivos do que outros destinos onde o IVA é de 6% ou 12%. Para o mesmo nível de custos base, estamos a fazer com que tenhamos de diminuir as nossas margens de modo a acomodar esses 23%.

De modo a manter a tal competitividade?
Exatamente. Eu não posso ter um campo espanhol a cobrar 60% por uma volta de golfe e eu, em Portugal, tenho de cobrar 80% por causa dos 23% de IVA. Mas também sei que o golfista estrangeiro mais facilmente pagará mais 20 ou 30% para vir jogar golfe a Portugal, porque encontra no nosso país campos únicos.
E aqui só tenho duas hipóteses: ou o meu campo é muito melhor que o espanhol, o que felizmente é o caso em Portugal ou, se tivermos margens encurtadas para acomodar os tais 23%, temos menos margem para reinvestir na melhoria e manutenção dos campos.
E numa época em que as empresas e campos estão completamente descapitalizados, vivemos, de facto, tempos dramáticos.
Em vez de falarmos em reinvestir para manter e melhorar, temos de falar antes em sobreviver. Por isso é que defendemos, nem que fosse por um período transitório de dois ou três anos, uma baixa do IVA para 6%.

A indústria do golfe reivindicou ajudas ou auxílios. Essas ajudas foram satisfeitas ou ficaram aquém do que foi pedido?
Se olharmos para o que aconteceu desde março de 2020, não nos podemos esquecer que o golfe faz parte de uma indústria que é o turismo e lazer e essa foi, particularmente, impactada pela pandemia.
Se me pergunta se a indústria do turismo e do golfe tiveram medidas excecionais e específicas para tentar colmatar e minimizar essas situações, respondo que foram muito poucas.

Mas foram pedidas?
Foram pedidas. Houve casos em que a área da restauração, as micro e pequenas empresas relacionadas com a cultura, tiveram algumas, mas poucas medidas. Todas as outras foram, praticamente, idênticas às que tinham todas as outras atividades.
Portanto, o golfe aí não foi diferente. O grande apoio limitou-se ao layoff e à retoma progressiva.

O que quer dizer é que faltaram apoios?
Não sei se teve oportunidade de ver o programa de Espanha? No PRR de Espanha há centenas de milhões de euros para o apoio a zonas turísticas espanholas que estavam em decréscimo. O que quer dizer que dentro de cinco ou seis anos, nós vamos ter áreas de Espanha que até agora não eram competitivas, porque estavam degradas, mas que estão e vão ser recuperadas. Nós não vamos conseguir competir contra isso. Isto em resposta à constatação de que não precisamos de reformas estruturais no turismo.

 

O golfe turístico é hoje responsável por trazer para Portugal, num ano normal, um nível de receitas que chega aos dois mil milhões de euros

 

1% do PIB
O golfe deveria fazer parte de campanhas do turismo como, por exemplo, praia e sol?
Às vezes sou crítico do que o Turismo de Portugal faz, mas, neste aspeto, justiça seja feita, as coisas têm mudado substancialmente.
Hoje quando vemos as campanhas que acontecem lá fora, seja as campanhas ditas tradicionais, sejam as ações feitas através das plataformas online, sabemos que a comunicação é muito diferente. Sabemos perfeitamente que existem duas razões essenciais para que os turistas estrangeiros visitem Portugal. Uma é o sol e a praia. Por isso, se temos bons atributos nesse campo, temos de aproveitá-los. A segunda questão é tudo o que tem a ver com a descoberta das nossas cidades, património, gastronomia, vinhos, etc.. Ou seja, tudo o que antigamente era pouco valorizado e hoje é extremamente valorizado.
E aí o Turismo de Portugal tem feito uma aposta muito importante, porque as pessoas vêm e descobrem um país que não conheciam, descobrem um outro país.
Por isso, não podemos ter a veleidade de querer que se gaste o mesmo em promoção do golfe que se gasta na promoção de sol e praia.

Mas não estava a dizer gastar o mesmo. O que queria dizer era gastar algum?
Sem dúvida que gostaríamos que houvesse muito mais investimento no golfe turístico, porque é hoje responsável por trazer a Portugal, num ano normal, um nível de receitas que chega aos dois mil milhões de euros.

Só o golfe turístico?
Sim, só o golfe turístico. Quem vem para o golfe turístico fica num hotel, vai a um restaurante, aluga carros, faz compras, etc.. E depois, com uma particularidade, vem fora das épocas do turismo de massas. É um complemento e que mantém uma série de destinos ativos vivos. Se for ao Algarve em fevereiro ou março, num ano normal, não havia um restaurante aberto.
Não nos podemos esquecer, também, que as reservas que existem para setembro e outubro, não são reservas novas. A maioria são reservas que transitam do ano passado ou de fevereiro e março deste ano.
O certo é que estes dois anos foram complicados e estimo que os próximos dois ou três anos ainda continuem complicados, porque a pancada foi muito forte.

Leia a entrevista na íntegra aqui.

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