Opinião| Partida, largada, fugida

Por a 11 de Junho de 2021 as 15:25

*Por Nuno Abranja, Diretor do Departamento de Turismo do ISCE – Instituto Superior de Lisboa e Vale do Tejo

De acordo com a Organização Mundial do Turismo (OMT), um em cada três destinos no mundo está neste momento completamente fechado ao turismo internacional, considerando que o aparecimento de novas variantes do vírus COVID-19 levou a que muitos governos adiassem a abertura de fronteiras e o alívio das restrições de viagem, principalmente nas regiões da Ásia-Pacífico e da Europa.

Segundo a World Travel & Tourism Council (WTTC), o impacto económico global da COVID-19 já mostrou bem a sua pressão, revelando até novembro de 2020 uma queda no setor das viagens e turismo de 43% (142,6 milhões) em termos de emprego, 43% (3,815USD biliões) no Produto Interno Bruto (PIB) e aproximadamente 65% em chegadas internacionais e 33% em chegadas domésticas. Esta organização internacional afirma que, se não houver melhorias, estes números podem piorar em 10%. Por cá, o Publituris publicava a 9 de abril que o estudo anual do WTTC revelava um varrimento de 21 mil milhões de euros do setor de viagens e turismo em Portugal, revelando uma queda da contribuição do setor para o PIB de 56,4% em 2020.

Não será novidade para ninguém se dissermos aqui que só uma ação política forte e coordenada permitirá à Europa (que viu cair 85% das chegadas turísticas no seu território no primeiro trimestre de 2021) reabrir ao turismo durante a época alta do verão, que se aproxima a uma velocidade vertiginosa. Nesta conjuntura imprevisível, trabalhar em rede, reinventar-se, desenhar novas formas e procedimentos de trabalho e definir novas estratégias, novos focos e novas operações torna-se perentório para se conseguir recuperar de forma consolidada. Devemos acreditar que embora as situações crónicas provoquem consequências gravosas de diferentes naturezas, tal pode significar que surgem, em simultâneo, novas oportunidades para os intervenientes turísticos capitalizarem inovações no produto, no serviço, nas estratégias e nas ações promocionais, nas operações e procedimentos, nos canais e modelos de distribuição e nos modelos de gestão de clientes.

Apropriando-me das recomendações do Comité de Crise da OMT, de 2021, como se fossem minhas, é tempo de olharmos em frente e criar medidas que assegurem:

a) o reinício das viagens transfronteiriças seguras, ao ponto de viabilizar a todas as populações que atravessam fronteiras todos os dias, ou precisam que outros atravessem, a normalização da sua atividade regular e respirarem sem a coexistência constante de elementos causadores de taquicardia;

b) a promoção de viagens turísticas seguras em todas as suas fases, tendo em conta que o elemento segurança vai ser o primeiro da pirâmide de necessidades do turista do futuro, pelo menos nos tempos mais próximos, mas uma seguridade que vai para além das componentes turísticas e não se resume apenas ao transporte, alojamento ou alimentação. Todos os intervenientes serão envolvidos nesta chamada planetária de um turismo seguro;

c) a disponibilização de liquidez às empresas de turismo e a proteção dos postos de trabalho, considerando que a recuperação das empresas não se vai fazer sozinha e de um momento para o outro. É imperativo que os governos auxiliem os players turísticos de forma musculada, contínua e atempada, para que estes assegurem os seus compromissos financeiros correntes e, o mais importante, garantam o máximo de postos de trabalho pois irão ser precisos muito em breve. É fundamental criar uma concertação entre as regras de viagens e as de saúde, para restaurar a confiança de milhões de pessoas e de empresas que esperam as decisões certas para regressar e reestabelecer as práticas turísticas.

d) o restabelecimento da confiança nas viagens, elemento fulcral no retorno à normalidade. Sabemos que qualquer situação de crise, independentemente da sua natureza, provoca um efeito multiplicador muito grave na sociedade afetando a economia e a confiança dos seus indivíduos. Neste sentido, após ou mesmo durante esta ‘fase final’ da crise sanitária, e colmatada que estará a situação económica de muitos viajantes, há que trabalhar na restituição dos níveis de confiança da procura turística e demonstrar que a atividade é inteiramente segura.
Gostaria de terminar este artigo com as palavras felizes de Margaritis Schinas, vice-presidente da União Europeia, em que referia que podemos tornar o verão de 2021 o início da era pós-pandemia, mais segura, mais sustentável, mais resiliente e mais próspera, sublinhando que o setor do turismo pode e deve estar na vanguarda deste esforço, liderando a recuperação da economia europeia e global.

*Artigo publicado na edição de 14 de maio do Publituris.

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