Opinião| In English, please

Por a 8 de Junho de 2021 as 14:46

Lembro-me do tempo em que se dizia que para sermos bem atendidos no Algarve, era melhor falar em Inglês. Quem trabalhava no turismo Algarvio valorizava mais o turista estrangeiro – porque gastava mais, alugava carro, permanecia mais tempo, era mais generoso nas gorjetas e toda uma série de outras razões, algumas até anedóticas, serviam para esta hierarquização.

Não é esta a percepção que tenho do Algarve e nunca tive nenhuma experiência que ecoasse, ainda que subtilmente, esta discriminação. É um facto que o mercado britânico é um dos mais importantes emissores de turistas para o nosso país. E para as regiões do Algarve e da Madeira onde a indústria do turismo tem maior expressão e preponderância económica, os Ingleses eram líderes em vários indicadores. É, por isso, perfeitamente natural e compreensível que os empresários tenham depositado toda a sua esperança na luz verde atribuída a Portugal pelo Reino Unido. Neste contexto, sempre nos foi claramente comunicado pelas autoridades que este sistema de semáforos seria revisto periodicamente e que poderia ser alterado unilateralmente e a qualquer momento. E eis que, menos de um mês depois, voltamos à estaca “quase-zero”.

Entendo a esperança dos privados. Condeno a falta de visão dos responsáveis e dos decisores que continuam a insistir – mesmo logo após a decisão britânica ser revelada – que o mercado inglês poderá ser substítuido por outros emissores…estrangeiros. Paremos, por alguns momentos, de pensar em “Inglês”. Seja qual for o sistema ou o país, iremos continuar a correr este risco de não conseguir materializar estadias e reservas oriundas dos mercados exteriores. O que aconteceu com os Ingleses poderá acontecer com outros mercados. Mais do que nunca, é necessário estimular e incentivar o turismo doméstico porque, tal como em 2020, será esse o mais fiável e o menos susceptível de quaisquer restrições ou cancelamentos de última hora. E um dos maiores estímulos é justamente o de criar um acesso fácil, rápido, direto e ao preço certo. Sabemos que a TAP não está a facilitar essa tarefa ao colocar a tarifa média Continente-Madeira (destino campeão na recente Bolsa de Viagens da BTL) ao nível de um voo para Cancun ou mais cara do que um voo para as Canárias, Ibiza, Croácia ou Israel.

Para citar um exemplo muito concreto: não existem voos diretos entre Faro e a Madeira. Para alguém viajar do Sul do País para o arquipélago tem de o fazer via Lisboa – numa ligação que transforma um inexistente voo direto de 1 hora num voo de 5 a 7 horas e com preços proibitivamente caros (não menos de 180 Euros – ida simples). Não nos devemos admirar, por isso, que o chamado “quintal da Madeira” seja a Gran Canaria, ligada com voos diretos de 90 minutos 4 vezes por semana a partir de 85 euros. Estavam inclusivamente previstas ligações entre a Madeira e três outras ilhas do arquipélago espanhol e para Marraquexe – algo que a Covid impediu de concretizar. Mas os números não mentem: o número de passageiros indiretos entre a Madeira e Algarve é 20 vezes superior ao existente entre a Madeira e Marrocos. É por isso inconcebível que, no segundo Verão pandémico que enfrentamos, continue a ser mais fácil e mais barato para um residente Algarvio se deslocar do aeroporto de Faro até à Riviera Francesa – com dois aeroportos e três companhias aéreas à escolha – do que ir até à Madeira – sem voos diretos de nenhuma companhia. Uma coisa é certa: se esta ligação continuar a não existir, nunca poderemos estimular este fluxo. E bem poderemos continuar a procurar miragens nos mercados exteriores.

Se não for suficiente pensar nos potenciais Portugueses de ambas as regiões interessados neste voo, imaginemos então os cerca de 20 mil britânicos fixados no Algarve e os cerca de mil na Madeira que, certamente, irão usar essa oportunidade para se deslocar entre as nossas regiões. Ou pensemos no mercado espanhol vizinho de Huelva e Sevilha.

E se para se ser entendido é preciso falar inglês, então só me resta parafrasear a WTTC:
Especially in times when foreign tourists are staying away, domestic tourism can keep a destination going and cushion the effect of a crisis.

*Por Pedro Castro, consultor em aviação comercial

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