Museus: como a tecnologia é sinónimo de democratização

Por a 18 de Maio de 2021 as 0:01

Estamos no mês em que se celebra o Dia Internacional dos Museus, espaços culturais por excelência e componente fundamental de qualquer destino turístico. As novas necessidades de segurança e conforto trazidas pela pandemia (a mesma que, em 2020, afastou 70% dos visitantes e das receitas) juntaram-se a uma urgência mais antiga de promoção da interatividade e atratividade dos espaços e conteúdos para chegar a novos públicos – em idade e frequência. Neste campo, a tecnologia tem, sem dúvida, um papel importante, com a inclusão de elementos que podem ir desde vídeo ou painéis interativos mais simples até à realidade aumentada e realidade virtual, robótica ou inteligência artificial.

A digitalização dos museus e outros espaços e experiências turísticas marcará de forma determinante a forma como experienciamos a cultura e será alvo de sérios investimentos, de que são exemplo os 92,8 milhões do Plano de Recuperação e Resiliência dedicados a Redes Culturais e Transição Digital. Mais do que um motivo de atratividade, a integração de tecnologia tem e continuará a ter um papel fundamental na democratização do acesso a bens culturais, de que os museus são um exemplo, tornando o conteúdo mais acessível e compreensível para uma maior parte da população, incluindo aquela que apresenta algum tipo de deficiência motora, visual, auditiva ou outra.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (2018), mais de mil milhões de pessoas em todo o mundo precisam de algum tipo de Tecnologia de Assistência e isso não pode ser ignorado na preparação dos espaços culturais, que continuam a apresentar ainda diversas barreiras a este nível. Tomemos como exemplo as pessoas com deficiência visual, sejam elas cegas ou com baixa visão. É certo que um staff bem preparado é essencial no acolhimento e acompanhamento destes visitantes, mas a tecnologia acrescenta-lhe inúmeras possibilidades para que a experiência no museu se torne não só mais autónoma como mais satisfatória.

Os sistemas GPS, por exemplo, são auxiliares claros para a orientação no espaço ao longo de toda a visita. Já os bem conhecidos áudio-guias com orientações espaciais e descrições das peças beneficiam se tiverem sistemas de ativação automática, como os infravermelhos, ao invés da ativação por botões. Também a integração de conteúdos com dispositivos móveis do visitante, como o smartphone, é preciosa, pois as câmaras e sensores que incorporam possibilitam, entre outros, o aumento de elementos textuais ou gráficos (quase como “lupa”) ou a iluminação de determinados espaços. De resto, o trabalho de luz e som é também determinante, porque permite criar ambientes distintos para cada zona ou sala, possibilitando uma melhor orientação. Como último de muitos exemplos possíveis, podem referir-se as técnicas de impressão ou reprodução cada vez mais avançadas e fidedignas de réplicas de peças que possibilitam criar visitas em que o toque é permitido (sobretudo, quando tocar nas peças originais compromete a sua preservação). Não só o toque como o olfato e até o paladar devem ser integrados na criação de experiências sensoriais que despertem os restantes sentidos, quando a visão está comprometida.

Estes são apenas algumas das formas como a tecnologia pode, num museu, tornar-se efetivamente “de assistência” para quem tem algum tipo de deficiência visual. A sua eficaz integração e conjugação com os espaços e peças museológicas fará de cada exposição uma viagem muito mais significativa, pois, sendo certo que falamos de um público ainda muito marginalizado pela sociedade, é da mais elementar justiça que este tenha um acesso igualitário à arte, à história, à tradição. No fundo, à cultura.

Susana Mesquita, Docente do ISAG – European Business School

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