Opinião| Turismo em modo sobrevivência

Por a 8 de Abril de 2021 as 15:49

Um ano após o início da pandemia COVID-19 em Portugal, o setor do Turismo enfrenta o seu maior desafio de sempre!

Evidenciando uma tendência longa de crescimento sustentado, em 2019, o Turismo é, definitivamente e por mérito próprio, uma importante força global de desenvolvimento económico, representando mais de 10% do PIB global, 29% das exportações de serviços e 300 milhões de empregos em todo o mundo.

Em 2020, porém, a pandemia COVID-19 teve um impacto repentino e significativo na saúde pública e na economia global, tendo interrompido repentinamente as viagens internacionais. De acordo com a OMT, o número de turistas internacionais caiu o ano passado mais de 70%, provocando uma redução no PIB global superior a US$ 2,0 triliões (2.000.000.000.000 de dólares, cerca de 1,68 biliões de euros) e a perda de 120 milhões de empregos diretos. Trata-se, num único ano, de um recuo súbito superior a 30 anos, para os níveis de 1989.

Neste enquadramento de catástrofe global da atividade turística, Portugal não foi exceção. Efetivamente, 2020, foi um ano negro para a aviação e a hotelaria, arrastando todos os serviços da constelação das Viagens & Turismo. A NAV Portugal geriu, em 2020, menos 58% voos que em 2019, tendo o tráfego aéreo recuado 22 anos, para os níveis de 1998, altura em que as companhias low-cost ainda não estavam popularizadas. E, segundo o INE, os estabelecimentos de alojamento turístico terão registado 26 milhões de dormidas, uma diminuição anual de 63% face a 2019, recuando 27 anos, para os níveis de 1993.

Considerando a importância do setor do Turismo para a economia e o emprego, e reconhecendo o seu papel no desenvolvimento, bem como o relevante contributo das suas empresas ao longo dos anos, é legitimamente expectável que estas, sabendo o que se sabe hoje, e a persistente incerteza quanto ao futuro próximo, contem com apoios públicos de exceção para enfrentar uma crise sem precedentes. Porém, apesar de todas as medidas de apoio ao setor do Turismo por parte do Governo serem muito bem-vindas, estas têm prazos e montantes limitados, pelo que muitas empresas precisarão de tomar decisões cruciais no início de 2021, com impacto na sua sobrevivência.

Para as empresas portuguesas do Turismo, o ano de 2021 será ainda muito, muito difícil. Embora um eventual crescimento das receitas em relação a 2020 seja motivo de satisfação, os resultados operacionais serão ainda anémicos. Apesar do forte corte dos custos fixos, muitas operações continuam deficitárias e com fluxos de caixa negativos até que ocorram fortes crescimentos das receitas.

A procura reprimida é alta, mas também a incerteza, sendo ainda muito baixa a confiança em assumir compromissos de reserva pelos viajantes. À medida que esta aumente, em linha com o plano de vacinação e se verifiquem progressos na imunidade de grupo, e que as restrições de viagem, expectavelmente, sejam relaxadas no final do 1.º trimestre ou início do 2.º trimestre, com o verão de 2021 em perspetiva, a procura deve disparar de forma decidida. No entanto, para que as empresas do setor do Turismo resistam e possam capitalizar a recuperação, é necessário apoio massivo agora para que mais tarde possam aportar benefícios mais amplos à economia em geral. O setor do Turismo precisa assim de um forte e decidido suporte emergencial no 1.º semestre de 2021, sem o qual a recuperação das viagens internacionais chegará demasiado tarde para muitas das suas 120.000 empresas e dos seus 400.000 postos de trabalho diretos.

 

*Por Jorge Aníbal Catarino, Professor na Pós-graduação “Top Management in Hospitality and Tourism” do ISCTE Executive Education

 

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