E se tivermos um segundo verão igual a 2020?

Por a 5 de Abril de 2021 as 11:10

Em 2020, o verão sobreviveu muito na base do mercado interno, um cenário que se deve repetir no próximo verão segundo uma análise da Oxford Economics, que aponta que o verão de 2021 será “semelhante ou ligeiramente superior ao do ano passado”.
Ao contrário do final da primavera de 2020, são poucos os empresários que arriscam fazer previsões sobre o comportamento que as atividades turísticas vão registar este ano.

Eric Drésin, secretário-geral da ECTAA – Confederação Europeia das Associações de Agentes de viagens e operadores turísticos, constata que “a principal lição dos últimos meses certamente foi aprender a olhar para o futuro com humildade”, mas adianta que espera um “reinício suave já no final de junho”. Questionado sobre a repetição de um verão como 2020, o responsável adverte que, no que diz respeito às agências de viagens e operadores turísticos, “não podem sobreviver a outro verão sem atividades”. “Mesmo que o apoio dos governos seja real, nenhuma empresa pode sobreviver até dois anos sem renovação”, avisa, deixando o alerta que “é a sobrevivência de toda a cadeia de valor do turismo que está em jogo”.

É por isso mesmo que o diretor-geral do operador turístico Viajar Tours, Álvaro Vilhena, não quer pensar numa repetição de 2020. “Apesar de tudo, durante os meses de verão foi possível alcançar algum equilíbrio, mas não foi obviamente suficiente para “salvar” o ano. O impacto de um novo 2020 seria devastador para todo o setor”, salienta, perspetivando que em 2022 já se poderá verificar uma “boa recuperação”, mas que os níveis de 2019 só deverão ser alcançados em 2024 ou 2025.

Também o responsável da rede de viagens GEA considera que o impacto para o setor das agências de viagens caso se repita um verão semelhante a 2020 será “muito negativo, colocando em causa a viabilidade de muitas agências de viagens em Portugal” e consequentemente terá um efeito negativo também para a rede. As melhores previsões de Pedro Gordon apontam para uma retoma gradual no 3º trimestre de 2021. “Temos uma expectativa de retoma das reservas a partir de maio e junho para viagens a partir do início do terceiro trimestre”, indica. Contudo, considera que os níveis pré-crise só deverão aparecer no verão do próximo ano.

Para Bernardo Castro, proprietário da Seaventy, um verão semelhante a 2020 “irá obrigar a desmembrar, temporariamente, a equipa”, lamenta, acrescentando que também a empresa  ficará “numa situação em que dependerá ainda mais dos apoios do Estado, o que é uma situação extremamente instável e indesejável”.

A Vila Galé espera que o próximo verão seja melhor do que o anterior, “ainda que também saiba que a performance ficará muito abaixo de um ano normal”. Porém, o grupo hoteleiro tem “solidez financeira para aguentar mais este ano que ainda será de alguma incerteza”, diz Gonçalo Rebelo de Almeida, que perspetiva uma retoma do mercado português a partir de maio/junho e do internacional apenas no segundo semestre. “A recuperação total não deverá acontecer antes de 2023/2024”.

Por sua vez, Miguel Velez, CEO da Unlock Hotels, descreve que “2020 não foi um ano bom, mas se tiver em consideração toda a situação, foi um ano com saldo positivo e controlado”. Porém, refere que é necessário fazer melhor para não se voltar a repetir certas situações”. “O confinamento, este ano, foi antecipado pelo que a economia tem de começar a trabalhar mais cedo e muito melhor, tendo por base o que já aprendemos”, sublinha, apontando que em abril já se deve recomeçar lentamente e que junho deverá ser o mês de arranque mais concreto.

Apesar da possível dinâmica do mercado nacional, este não é suficiente para a maioria das empresas turísticas. Como explica Hortênsio Fernandes, o mercado nacional não impacta muito a atividade da Yellowfish Transportes, mas as previsões apontam para uma retoma deste mercado mal termine o Estado de Emergência. Quanto à repetição de um verão como 2020, o responsável admite que este foi “bom, tendo em conta os custos, contudo não é suficiente para sobreviver outro inverno caso não haja apoios governamentais”.

Apesar da retoma de viagens estar prevista para um futuro relativamente próximo, a easyjet considera que a “recuperação e o aumento do número de viagens que registava no início da pandemia ainda demorará a ser alcançado”. No entanto, e caso se verifique um verão semelhante a 2020, continua “com saldo positivo e com a possibilidade de procurar um financiamento adicional”, adianta José Lopes, que acredita que quando “as restrições governamentais no setor da aviação e do turismo na Europa forem mais leves, será fortemente visível o aumento da procura das viagens”. “É muito importante que se estabeleça um conjunto claro de medidas coordenadas e uma visibilidade de como será o futuro (em qualquer possível cenário, de melhoria ou de nova vaga) que ajude a restabelecer a confiança do público”, adverte novamente.

No entanto, há quem já se esteja a preparar para a repetição do mesmo cenário do verão de 2020, como é o caso da Portimar, que se  encontra a adaptar “a estrutura e modelo de negócio para essa realidade”. É por isso que Eduardo Caetano aponta apenas para 2022 o ano de retoma, “com as épocas média e baixa a recuperar  melhor”, mas com os turistas a continuarem a evitarem grandes aglomerações. “O turismo de cidade e de negócios terá uma retoma mais tardia, pelo que, acredito que 2022 será menos dinâmico” neste segmento.

Mais optimista está Francisco Paixão da Turkish Airlines, que confia que o verão de 2021 “apenas poderá ser melhor”. “Tivemos mais tempo para nos adaptar, para saber o que mudar e/ou melhorar consoante a procura e feedback dos nossos parceiros e passageiros. Portanto, o verão 2021 será importantíssimo”, antevê. O responsável revela-se confiante quanto ao futuro porque existe procura, “o que é essencial”. “As pessoas querem viajar e estão desejosas disso e achamos que, assim que outros países comecem a levantar as restrições, vai haver um aumento significativo de reservas”, destaca.

Também a Hoti Hotéis olha para “o futuro com positivismo”, admitindo, no entanto, que “de uma forma generalizada, os grupos hoteleiros estão com resultados muito aquém de anos anteriores”. “A nossa prioridade será sempre encontrar soluções que permitam a segurança dos nossos clientes e colaboradores, de forma a gerir eficientemente a nossa operação e preservar a liquidez do grupo, pois não sabemos quanto tempo estaremos em situação de défice operacional”, diz Miguel Proença, que perspetiva também uma retoma a partir do segundo semestre de 2022 ou em 2023.

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