Opinião| Covid-19 e Mercados Accionistas: Imunidade Natural ou Pré-Vacinação?

Por a 5 de Março de 2021 as 11:47

*Por Ricardo Barradas, professor universitário do ISCAL – Instituto Politécnico de Lisboa

É hoje um facto praticamente inegável que estamos a viver uma das maiores crises sanitárias e económicas do mundo contemporâneo. A pandemia relacionada com a Covid-19 já provocou mais de 100 milhões de infectados e mais de 2,4 milhões de mortes em todo o mundo. Alguns períodos de confinamento têm-se tornado inevitáveis, o que tem provocado uma contracção sem precedentes na actividade económica e um aumento correspondente do desemprego em muitos países.

No entanto, a evolução dos mercados accionistas parece bastante insensível à evolução da pandemia e da economia. Os principais índices accionistas do mundo continuam a registar subidas bastante expressivas para valores máximos do ponto de vista histórico. Trata-se de um fenómeno vulgarmente conhecido como decoupling, justamente para traduzir a ideia de uma maior dissociação entre o comportamento dos índices accionistas e a evolução da economia real. Mas o que explicará esta indiferença dos mercados accionistas e dos investidores que neles actuam à real situação sanitária e económica? Terão imunidade natural? Ou terão sido previamente vacinados?

Várias razões poderão explicar este comportamento dos mercados accionistas. Em primeiro lugar, o facto dos investidores estarem a lidar com um novo acontecimento, o que não lhes permite encontrar similitudes com acontecimentos passados. Os investidores mantém-se especialmente optimistas em relação a uma recuperação rápida da economia à medida que os países vão anunciando vários programas de suporte à actividade económica para mitigar os efeitos nefastos dos confinamentos e à medida que os programas de vacinação vão-se materializando. Em segundo lugar, a manutenção de taxas de juro muito baixas, o que tende a incentivar o investimento em activos financeiros de maior risco, onde as acções se incluem. Isto acontece porque os investimentos mais conservadores (como os depósitos bancários, as obrigações, entre outros) praticamente deixaram de oferecer remuneração num contexto de taxas de juro muito baixas. Em terceiro lugar, a subida bastante pronunciada das cotações das acções das empresas tecnológicas, cujos ganhos acumulados já mais do que suplantaram os ganhos acumulados durante a bolha especulativa das dot.com na década de noventa. O mesmo observamos em relação aos ganhos bastante expressivos das acções das empresas farmacêuticas.

O problema que se poderá estar a colocar é a formação de uma nova bolha especulativa nos mercados accionistas, na medida em que estes ganhos parecem já bastante irracionais tendo em conta os fundamentais económicos. O rebentamento desta bolha no futuro poderá gerar efeitos económicos ainda mais devastadores do que aqueles que já estão a ser gerados pela Covid-19, com a agravante de não existir nenhuma vacina que os possam deter ou mitigar.

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