Opinião| Turismo: A recuperação chegará mas a diferentes velocidades

Por a 1 de Março de 2021 as 9:45

Quisemos crer que em 2020 se fechasse o ciclo da pandemia e que em 2021 a vida voltasse a ser a mesma que conhecemos desde sempre. Mas não. Ao contrário do que ambicionávamos, o início do ano trouxe o que já não julgávamos ser possível: um novo confinamento. Paralisar praticamente toda a economia de um País, ainda que necessário face ao contexto pandémico, tem sempre um forte impacto em todos os setores e cada um, pelas suas particularidades, observará uma recuperação distinta.

Setores como o do Turismo e o da Hotelaria foram dos mais afetados durante o último ano, ao ponto de atingirem situações preocupantes em termos operacionais. Agora, voltam a passar por um período difícil e veem a retoma cada vez mais adiada. A recuperação não decorrerá à velocidade desejada, já sabemos, até porque não se prevê que o setor atinja os níveis registados em 2019 antes de 2023-2024.

Portugal, apesar de ser um país pequeno, apresenta realidades e dinâmicas muito diferentes nas várias regiões. O Algarve, por exemplo, zona marcada por maior sazonalidade e onde predomina o turismo de lazer, deverá observar uma retoma mais rápida. No caso de existir uma redução significativa a nível global do número de casos antes do verão (mesmo que sem imunidade de grupo), poder-se-ia eventualmente esperar uma das melhores temporadas de sempre nesta região, num contexto de tourism revenge, ou seja, de recuperação de férias perdidas em relação ao último ano.

Já as cidades de Lisboa e Porto poderão ver a sua recuperação adiada por mais algum tempo. O Porto deverá ter uma recuperação mais rápida que Lisboa, devido a uma menor dependência de segmentos como negócios e eventos, para os quais se prevê a manutenção da quebra acentuada verificada, e uma maior probabilidade de demora na retoma. A verdade é que ainda se tenta compreender se o formato de evento digital vai ganhar relevância pós-pandemia ou se, pelo contrário, nunca irá atingir os objetivos de um encontro presencial. Adicionalmente, Lisboa tem uma maior relevância de mercados de long-haul (ex. Brasil, EUA), o que também impactará a recuperação nos próximos anos.

2021 deverá, tal como sucedeu em 2020,  passar por zonas com menor densidade populacional fruto do contexto pandémico, com as regiões Centro e do Alentejo a serem novamente as grandes beneficiadas. Quanto às ilhas, a Madeira e os Açores deverão continuar bastante prejudicadas em 2021, mesmo após um plano de vacinação eficaz, fruto da dependência das conexões áreas, setor também gravemente afetado pela crise. Ainda assim, sendo destinos maioritariamente de natureza e com menores aglomerados populacionais, poderão assistir a uma crescente procura, mitigando parte deste “atraso” na recuperação.

Se 2020 nos trouxe algo de positivo foi a capacidade de adaptação às mais diversas circunstâncias, o que acabou por alterar os nossos hábitos. Agora, e no futuro, a escolha do local e do tipo de alojamento serão cada vez mais marcados por exigências relacionadas com o conforto, a segurança e bem-estar. Apesar de algumas mudanças terem sido maioritariamente temporárias, outras serão estruturais. O turismo de natureza e o de bem-estar, os serviced apartments, e as second home em resorts turísticos foram soluções bastante procuradas, e que deverão manter o crescimento nos próximos anos.

“E se eu conseguir trabalhar a partir de qualquer lado?” Este pode ter sido o ponto de partida para o começo de uma nova era na hotelaria e para uma alteração de posicionamento, capaz de atrair público nacional e internacional, com muitos de nós a substituir o home office pelo ocean office ou nature office. Há alguns anos era impensável não ir ao escritório todos os dias. Com o passar do tempo, muitas empresas começaram a permitir trabalhar a partir de casa. Hoje, a verdade, é que podemos trabalhar virtualmente de qualquer lugar. E isto é uma mudança dramática, inequívoca, e que mudará hábitos daqui para a frente.

Esta nova realidade levou já algumas marcas como o Grupo Selina a criarem ‘A Netflix da Hotelaria’, um termo utilizado para denominar serviços alternativos criados pelos grupos hoteleiros no formato de subscrição, semelhante ao que fazem as conhecidas plataformas de streaming. Esta solução, permite, por exemplo, dar total liberdade ao cliente para frequentar os vários hotéis de um mesmo grupo, por períodos de tempo mais longos, e com preços bastante atrativos.

Inevitavelmente, a digitalização dos serviços, acelerado pela realidade que vivemos, como as aplicações de marcação rápida de estadias, têm vindo a ‘esvaziar’ cada vez mais os hotéis. Toda a experiência, desde o check-in ao check-out, deverá ser cada vez mais tratada virtualmente para cumprir o distanciamento social e evitar aglomerados.

Uma coisa é certa: 2021 não permitirá recuperar as perdas que se verificaram em 2020, pois teremos uma primeira metade do ano completamente marcada pela situação pandémica que ainda atravessamos e um segundo semestre muito dependente da velocidade e eficácia da vacinação. No entanto, é expectável que o segmento de lazer retome mais rapidamente e possa, ainda em 2022, estar muito perto de uma recuperação total.

*Por Duarte Morais Santos, Diretor da área de Hotels da CBRE

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