Opinião| Voo para os Açores? Danke, Lufthansa!

Por a 26 de Fevereiro de 2021 as 15:06

*Por Pedro Castro, consultor em aviação comercial

No próximo Verão, Ponta Delgada passará a estar ligada a Frankfurt pela asas da Lufthansa: uma frequência semanal sazonal durante 22 semanas que resulta de uma iniciativa da  Associação de Turismo dos Açores (ATA), em parceria com o Turismo de Portugal, ANA Aeroportos de Portugal e o Governo dos Açores, no desenvolvimento e consolidação das acessibilidades aéreas ao arquipélago.

Esta iniciativa, sendo de louvar no geral, é no mínimo estranha quando devidamente enquadrada:

– esta mesma rota é oferecida pela Azores Airlines à razão de 2 voos por semana. Não se poderia ter investido num Ponta Delgada-Munique, o outro hub da Lufthansa? A ter de ser Frankfurt, não se poderia ter escolhido Frankfurt-Terceira e assim diversificar o produto?

– para além de outros possíveis compromissos não divulgados, sabe-se que a ATA se comprometeu a investir 500 mil euros em ações de promoção do destino no mercado alemão. Será este o melhor investimento para o Verão que se avizinha?

O ano de 2021 será, sem dúvida, um ano de dúvidas. As reservas para o Verão estão ora em stand-by ora em euforia e desconhece-se se estas reservas serão de fato materializadas. Talvez seja por isso que a Universidade de Oxford alertou para o fato da realidade vivida no Verão de 2020 nos países mediterrânicos (a Universidade inclui Portugal nesse grupo), com o setor do turismo a “sobreviver” com base no turismo interno, deverá repetir-se em 2021. Aplicando esta situação aos Açores, o Verão de 2020 denotou, de fato, uma maior resistência do mercado nacional. Considerando as dormidas em estabelecimentos de todo o tipo referentes aos residentes em Portugal a queda em 2020 foi de “apenas” 51%; a dos estrangeiros foi de 83%. Em termos absolutos, o total de dormidas por residentes em Portugal (560 mil) foi quase o dobro do total de dormidas dos residentes estrangeiros (288 mil).

É neste clima de incerteza, e apesar de já ter essa ligação assegurada pela operação bi-semanal da Azores Airlines, que esta parceria público-privada resolveu apostar mais recursos num futuro desconhecido e encontrar uma outra companhia para a mesma rota. Nunca na história do aeroporto de Ponta Delgada existiram duas companhias aéreas a operar Frankfurt-Ponta Delgada e nunca essa rota foi servida por 3 voos semanais. 2021 não parece ser um bom ano para incentivar essa novidade.

Num outro momento, numa outra altura, não teria nada a apontar a esta estratégia mas, concordando com os dados da Universidade de Oxford, diria que o mercado alemão está largamente coberto pelos voos da Azores Airlines e que a expansão deveria ter focado o mercado interno. Porque não lançar um voo para o Algarve (nunca existiram voos sem escalas Açores-Algarve) beneficiando ambas as regiões com mais fácil acesso do mercado interno? Porque não lançar voos Horta-Porto ou Pico-Porto? Porque não lançar um voo Açores-Beja com campanha quer para o mercado interno quer para o mercado espanhol limítrofe? E, já agora, porque não estudar e incentivar a Azores Airlines a reajustar o seu voo Ponta Delgada-Bermuda para voo noturno de forma a permitir ligações imediatas para os destinos europeus da companhia com stopover necessário em apenas uma das direções e não em ambas?

Os 500 mil euros da campanha de 2021 correm o sério risco de servir para muito pouco e o mercado alemão – que apenas pesou 6% no turismo dos Açores em 2020 – poderá repetir o mesmo comportamento por condicionalismos pandémicos. Em ano de Covid e de tantas questões, teria sido mais sábio apostar naquilo que a Universidade de Oxford aponta como tendência e naquilo que, em 2020, resistiu mais e melhor. Em 2022, logo se vê.

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