Opinião| A História, o nosso Património e o negacionismo

Por a 25 de Fevereiro de 2021 as 16:26

Quando não temos leitura da História, quando a História se resume, apenas, a frases soltas que ouvimos vagamente e há muitos anos nos bancos da escola, em períodos da infância ou da adolescência, quando não questionamos a História e não a entendemos no seu contexto, explorando leituras, saberes e factos sobre os acontecimentos políticos, económicos, sociais, culturais, não descobrimos o real, o verdadeiro, o autêntico valor do nosso passado. Não entendemos quem somos, quem fomos e as mensagens da História como uma aprendizagem para não repetir momentos menos bons e para nos motivarmos com os momentos, dos quais nos devemos orgulhar como povo, não passam, não circulam.

De facto, a História é importante para refletirmos, assim como devemos refletir diariamente sobre o que somos enquanto pessoas, quem foram os nossos avós, os erros cometeram, as alegrias que viveram, mas sobretudo para refletimos sobre o que construíram que nos permite ser o que somos, hoje.

É normal questionarmos, é normal passarmos sobre os momentos interrogando. Isso é normal. Normal, não é derrubarmos símbolos, ícones, que têm, apenas e tão só, uma leitura possível: mostrar a quem os olha que no passado, homens e mulheres em período de grandes dificuldades, saídos de uma crise imensa, de uma pandemia (a peste negra) que mudou o mundo instalando a morte, a falência emocional, a desesperança, a fome, a guerra, conseguiram transformar, no Mundo conhecido de então, o panorama de crise e transformá-la numa oportunidade para uma recuperação política, económica, social, cultural e, diga-se, com enorme sucesso. Note-se que o Mundo conhecido de então, se resumia à Europa, ao norte de África e a um Oriente longínquo, desconhecido, temido, era este o planeta Terra conhecido.

Esses homens e mulheres partiram em pequenos e frágeis barcos, navegando por um mar desconhecido, agressivo. Esse desconhecimento era real, pela primeira vez enfrentavam os medos e as histórias de um mar que não sabiam onde e como terminava ou o que os esperava no virar de um novo cabo.

Esses que dividiram o Mundo em duas partes, que cruzaram do Atlântico para o Índico, que viajaram pelo Pacífico, que contruíram grandes monumentos em toda a África, Brasil, China, Japão, Península Arábica, Índia, esses que circularam pelo mundo das porcelanas, das  especiarias, do ouro, do açúcar, esses que construíram famílias independentemente da cor da pele dos lugares por onde andavam, esses que abriram a Europa (o mundo de então) a uma primeira universalidade, esses que protegiam os novos mundos descobertos, esses que encontraram terras onde nem se imaginava que existiam, esses que deixaram um património imenso espalhado pelo planeta Terra, testemunhos da sua História, património que hoje pode ser olhado pelos residentes desses países e pelos seus turistas revelando que Portugal existe e esteve ali, esses que mudaram a botânica, a astronomia, a geologia, a biologia, as ciências e técnicas da navegação, esses que morreram para irem mais longe, esses que mudaram o mundo da crise económica que se vivia e projetaram o desenvolvimento da ciência e do progresso económico, esses, de facto, construíram um grande império.
Esses não podem ser esquecidos e não podem ser vistos como uma construção, invenção, provenientes dos sonhos de alguém que viveu no século XX. Não podem ser vistos como se fossem apenas atores e cenários de um filme de fraca qualidade do seu produtor. Eles e os seus feitos, os seus erros e as suas façanhas foram reais, aconteceram.

Hoje vivemos um período idêntico. Vivemos em pandemia, vivemos em crise económica, social, emocional… Ao olhamos para trás, vemos motivação para continuar, força, alento neste momento tão difícil, tão desconhecido, inesperado a cada momento. Neste momento sabemos que o mar desconhecido que temos pela frente, nos levará a bom porto, à calmaria das águas límpidas e paradisíacas onde iremos chegar. Ao olhar estes símbolos da História, vejo apenas um exemplo de coragem e de força para enfrentar todas e qualquer intempérie.

Falta, de facto, o conhecimento da História para nos ajudar em momentos difíceis. Confrontemos o passado, sem medo dos momentos menos bons e com os quais aprendemos a melhorar. Olhemos o passado com motivação para enfrentar o futuro. Não apaguem a História, não apaguem o que nos permite aprender a sermos melhores no nosso dia a dia. Não apaguemos da memória o que nos pode levar mais longe quando o mar acalmar e a tempestade passar.

*Por Professora Dra Isabel Vaz Freitas, Departamento de Turismo, Património e Cultura da Universidade Portucalense

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