Opinião| Portugal precisa de cabeça fria

Por a 19 de Fevereiro de 2021 as 16:50

*Por Ricardo Miranda, Founder and Creative Partner da Wonder Why

Sempre fomos catastrofistas. Mesmo a lidar com catástrofes, tendemos a querer ser os mais catastrofistas de todos. Tudo é terrível, dramático, sofrido. Faz parte do nosso feitio literário. Essa é a matéria de que os nossos Camões são feitos.

Mas vivemos uma pandemia. Precisamos de largar a adolescência e chegar rapidamente à maioridade.

Não estamos a viver nada de insólito para esta época. Estamos a viver o que o mundo todo vive. Não há um excecionalismo lusitano nisto. Começámos bem o combate ao vírus, mas a meio do caminho tropeçámos. Na 3ª vaga fomos particularmente massacrados pelo Corona, mais do que os restantes países, graças uma série de erros próprios. Passámos de “exemplo para a Europa” a “mau exemplo para a Europa”. A nossa saúde foi afetada. A nossa imagem lá fora foi afetada. É mau, mas acontece. Importante é perceber que aprendemos com isso e estamos a corrigir a rota. Confinámos e os números começaram a cair. Menos mortes, menos infetados, menos internados. O Serviço Nacional de Saúde abanou, sofreu, temeu-se o pior, mas aguentou-se. O plano de vacinação continua a avançar. Dá prioridade aos mais velhos, aos profissionais de saúde, às pessoas com problemas crónicos de saúde. Depois, vêm todos os outros. E é assim que humanamente deve ser.

Este é o caminho. Esta é a história que devemos contar ao mundo. Não somos um exemplo do que se faz de mal. Somos um exemplo de país que faz o melhor que pode com aquilo que tem. Fizemos bem, fizemos mal, fizemos bem de novo.

A Morning Star DBRS, consultora de avaliação de risco para negócios, afirmou num relatório de 8 de fevereiro, que Portugal tem tudo para que o seu turismo regresse a níveis pré-Covid. A principal razão é de que tudo o que Portugal tinha e que atraía os turistas, vai continuar a ter. Nada se perdeu. As paisagens mantêm-se. As praias mantêm-se. O bom tempo mantém-se. As unidades hoteleiras mantêm-se. A relativa tranquilidade face a outros países mais expostos a atos de terrorismo, mantém-se. O acesso fácil à Europa vai voltar. Os profissionais do setor não desaprenderam em ano e meio.

Dentro de meses, a maioria dos portugueses vão estar vacinados. A maioria dos turistas que costumam visitar Portugal idem. Cheios de vontade de comemorar o fim da pandemia, o fim do confinamento e o regresso do escapismo.

Portugal tem de estar preparado para os receber. Essa preparação começa na comunicação.

Primeiro no storytelling. Os principais players do mercado e as instituições públicas que promovem Portugal têm de estabelecer uma “meta-história” comum (a história por cima das histórias). Começámos bem, tropeçámos a meio, levantámo-nos e voltámos ao bom caminho. Apesar das dificuldades, aguentámos e agora estamos prontos para receber os turistas. Como nos “bons velhos tempos” só que melhor.

Depois, fazer um levantamento das melhores práticas de turismo nacional durante o Covid. É essencial explicar ao estrangeiro que o país hoteleiro não entrou em modo Bela Adormecida à espera do beijo do príncipe turista. A atividade turística abrandou aqui, como abrandou no mundo inteiro, mas não foi zero.

É fundamental perceber o que se fez de novo: claro que as novas regras sanitárias surgem à cabeça (selos de segurança, desinfeção rigorosa, ligação a unidades de saúde, etc.), mas não chega. O que fizemos de novo em termos de turismo sustentável? Que novos projetos de turismo foram lançados em pandemia que mostram visão e coragem? Que produtos e serviços fruto da inovação pura foram lançados? Houve exemplos em que fomos pioneiros?

À medida que os casos forem conhecidos, devem ser comunicados. Juntos servirão de sustentação da meta-história que estamos a contar. Juntos convencerão os turistas de que, quando for a altura para voltar a viajar, Portugal estará pronto para os receber. Com tudo o que já tinha dantes e com umas (boas) surpresas.

Um comentário

  1. Campos

    22 de Fevereiro de 2021 at 11:32

    Concordo plenamente.
    Obrigado pela narrativa esclarecida e com pensamento estratégico.
    Assim é que tem que ser.
    Este é um texto que precisava de chegar a todos os intervenientes no sector.
    O saber comunicar é fundamental para o sucesso.

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