“A transição digital está na cabeça de todos os empresários”

Por a 17 de Dezembro de 2020 as 5:16

A pandemia provocou um terramoto no rent-a-car e nem a Europcar escapou às perdas. Mas as épocas de crise costumam ser alturas de reinvenção, caminho que também a maior rent-a-car do país está a fazer, com forte aposta nas tecnologias.


Em entrevista ao Publituris, o diretor-geral da Europcar Portugal, a maior rent-a-car a operar em território nacional, faz um balanço negativo do verão, que trouxe poucas boas surpresas, e fala das atuais restrições à circulação adotadas para conter a COVID-19, mas que estão a provocar novos cancelamentos, num setor que pode não aguentar sem novos apoios. No caso da Europcar Portugal, esta altura de menor procura está a ser aproveitada para lançar e testar produtos ligados ao digital, porque, como diz Paulo Moura, as apps e estas novas ferramentas “são o futuro”, também no turismo e no rent-a-car. Mas, para o futuro, importante é também construir o aeroporto do Montijo, essencial para melhorar o serviço aeroportuário na capital e para que, quando a procura regressar – o que o diretor geral da Europcar Portugal estima que aconteça em 2023 – o país esteja preparado para voltar a receber turistas.

Este ano, houve muitas expetativas em relação ao verão, mas acabaram por ser algo frustradas, porque o verão não trouxe a retoma esperada. Na Europcar, como é que correu o verão, ao nível do turismo?
Não sei se podemos dizer que houve realmente uma retoma, porque ficámos muito aquém dos níveis de 2019. Francamente, não tínhamos uma enorme expetativa em relação ao verão. Há uma parte do nosso negócio que tem a ver com o ‘long haul’, como os mercados emissores dos EUA, Brasil ou Canadá, que já esperávamos que se mantivesse suprimida ou quase inexistentes e foi o caso. Nos mercados com origem na Europa, alguns correram dentro da nossa expetativa, como o Reino Unido, que com aquelas questões de abre e fecha corredor aéreo, não correu particularmente bem. Mas houve mercados onde as coisas correram até francamente melhor do que esperávamos, como a França, Bélgica e a Suíça, que tiveram um comportamento muito interessante e muito aceitável durante este verão. Portanto, obviamente que se compararmos com 2019, foi um verão fraquíssimo, mas até talvez um pouco acima das nossas expectativas iniciais.

Estamos a falar numa quebra de quanto? A ARAC, associação que representa o rent-a-car, tem vindo a falar numa quebra de 60%. No caso da Europcar, corresponde?
Não é igual para todo o rent-a-car, depende dos segmentos em que se opera. É evidente que há operadores que estão 100% focados no segmento do turismo e, para esses, há um impacto muitíssimo maior. Não é dessa ordem de grandeza a nossa quebra, porque temos também o negócio corporativo, dos carros comerciais. Se considerarmos uma quebra de 40 a 45%, não deveremos andar longe da realidade.

Em que segmentos de automóveis se registou maior procura no verão?
Aqui houve um retrocesso. Nos últimos anos, tínhamos vindo a melhorar aquilo a que chamamos o ‘mix’ do negócio, que tem a ver com a tipologia dos carros alugados. O negócio tem tido, claramente, uma tendência para o low cost, com opção por carros de gamas mais baixas, o que já acontecia antes da pandemia, mas que se agravou, porque as pessoas estão preocupadas, mesmos as que optaram por fazer férias, fazem-no com preocupação em relação ao futuro e nós notamos isso. Também tem a ver com outro aspeto, que é a faixa etária que tivemos este verão, que era mais baixa, porque os turistas seniores foram os que mais se retraíram de viajar devido à doença.

E qual é a posição da Europcar face às novas medidas de combate à COVID-19, que preveem restrições à circulação, o que, obviamente, tem impacto no turismo?
Nestas duas últimas semanas, estamos a registar uma quebra enormíssima nas reservas, maior do que a quebra expectável em novembro, que é o pior mês de atividade no rent-a-car e no turismo em geral. A quebra que se está a registar é muito acima do normal e tem a ver com essas restrições, com as que houve no fim-de-semana dos Finados, que normalmente é uma data que tem um pico de atividade no turismo, porque muitos dos nossos compatriotas estão a trabalhar fora e vêm visitar a família nessa altura. Isso não se verificou este ano, houve essa quebra e continua-se a notar um retrocesso nas reservas, com muitos cancelamentos. Prevejo, pelo menos, três meses muito complicados. Não quero ser pessimista ao ponto de achar que vamos voltar aos níveis de abril, mas é um facto que se deverá aproximar.

Medidas e apoios

O governo tem procurado combater a crise da COVID-19 com medidas de apoio às empresas. Que avaliação faz a Europcar das medidas para o rent-a-car, se é que existem medidas concretas para o rent-a-car?
São muito poucas, para o setor do rent-a-car são quase inexistentes. Tanto a ARAC, como a Confederação do Turismo de Portugal, manifestaram o seu agrado pela forma rápida como o Governo respondeu à pandemia no início. Isto é, as medidas tomadas no início foram acertadas, como o lay-off simplificado, que foi essencial para as empresas do turismo ultrapassarem a fase crítica do confinamento. Também as moratórias de crédito foram essenciais. Diria que sem estas duas medidas, provavelmente teríamos assistido a muitas falências no setor do turismo, não quero dizer em particular no rent-a-car, mas certamente também no rent-a-car. Esta atividade tem uma dependência enormíssima do turismo e é, simultaneamente, uma atividade de capital intensivo e mão-de-obra intensiva. Portanto, se não houvesse as medidas que nos permitiram conter custos durante a fase crítica, provavelmente muitas empresas não teriam sobrevivido. Mas estamos a entrar numa nova fase idêntica à que vivemos anteriormente e, se não houver medidas mais robustas, não vejo forma das empresas a ultrapassarem sem profundas reestruturações, com efeitos no emprego. Não há possibilidade de lidar com as quebras da magnitude que estamos a registar – e que nalguns casos são de 60% e noutros de 50% – sem ajustar custos, ou terão de haver medidas do Estado. Mas também precisamos de medidas que nos permitam relançar a economia, temos de nos preparar para uma nova fase. As preferências dos nossos clientes estão a alterar- -se, as pessoas têm hoje preocupações muito maiores na questão do contacto físico e, por isso, tudo o que tem a ver com o digital, com serviços que impliquem o mínimo contacto possível, é hoje uma necessidade. Quem não investir na tecnologia, provavelmente está a perder o barco, porque a preferência de boa parte dos clientes vai nesse sentido. Mas para isso é preciso capital, é preciso investir e temos de nos preparar para concorrer num mercado que há de vir, porque a pandemia não vai durar para sempre.

A ARAC reivindicava a descida do ISV, do IUC e queria a redução do IVA para a taxa intermédia, mas o Orçamento do Estado para 2021 não contempla nenhuma dessas medidas. O que é que preciso que o rent-a-car faça para ser ouvido, pois é um setor com muito peso económico, mas que não viu nenhuma destas medidas atendida?
Temos vindo a manifestar-nos nos fóruns a que temos acesso e procuramos alertar o Governo através da ARAC – cuja atuação do secretário- -geral tem sido incansável nos contactos com o Governo, no sentido de alertar para os problemas do setor e para entender porque razão é que, estando no mesmo setor de atividade, não beneficiamos dos mesmos apoios que outros -, assim como através da Confederação do Turismo, que tem tido igualmente uma atuação importantíssima e através da qual temos pressionado de forma construtiva o Governo, para conseguirmos os apoios necessários. Mas também percebemos que o Governo tem recursos limitados, somos um país de parcos e escassos recursos, onde não é possível atender a todos, mas procuro sempre alertar que o rent-a-car contribui indiretamente para muitos outros setores. Por exemplo, nós compramos 40% dos carros que se vendem em Portugal, o que quer dizer que se o rent-a- -car cair 50%, o mercado automóvel cai 20% ou mais. Isto é algo que, às vezes, não é claro, mas que procuramos demonstrar ao Governo.

Digital

Apesar da pandemia, as alturas de crise costumam trazer inovação, como a maior aposta no digital, de que falou há pouco. A Europcar, que já vinha a apostar em novos produtos digitais antes da COVID-19, tem previstas novidades a este nível?
É verdade e estamos, de facto, a conduzir alguns testes. Tenho o orgulho de que Portugal tenha sido escolhido para conduzir esses testes-piloto para o Europcar Mobility Group, todos na área do digital. Alguns desses testes têm a ver com a conexão da frota, os Connected Cars, que serão uma forma de implementar novos serviços e ofertas, precisamente naquele sentido que referia anteriormente de dar acesso direto ao carro, sem qualquer interação física. Isto é, os clientes fazem a reserva no site e recebem um e-ticket – como recebemos das companhias aéreas – e, depois, com o smartphone ou numa máquina onde se registam, recebem a chave ou um código de acesso direto à viatura, que está num determinado parque. Estamos a implementar esta experiência nas nossas marcas, nomeadamente na Goldcar, que já tem esta oferta a funcionar também em Portugal. Temos uns dispensadores que funcionam nos aeroportos, denominados ‘Key&Go’, onde os clientes se dirigem, levantam as chaves no parking do aeroporto e seguem para a viatura, sem interação humana. Este serviço vai ser estendido também à Europcar e contamos ainda ter estações virtuais, ou seja, estações abertas 24h e sete dias por semana, para levantamento e entrega das viaturas.
É este negócio de proximidade que pretendemos alargar. Na Europcar, classificamos a atividade em três segmentos: profissional, que é o negócio corporativo; o lazer, que são os resorts, aeroportos e o verão; e o negócio de proximidade, que são as estações de cidade. Temos 82 estações em todo o país e estamos em todas as capitais de distrito, em algumas com mais que uma estação, e são estes pontos de contacto de proximidade com os clientes que queremos alargar, disponibilizando estes serviços de forma mais fácil, sem esperas e sem grandes burocracias, para que os clientes possam, cada vez mais, optar pelos nossos serviços como uma alternativa ao carro próprio, porque cada vez faz menos sentido ter viatura própria para quem vive nos centros urbanos. Por isso, se houver soluções de mobilidade que sejam fáceis de ativar, as pessoas acabam por aderir.

Esse projeto já estava em andamento, mas foi acelerado com a pandemia?
Exatamente. É um processo que já estava em andamento, já tínhamos iniciado os projetos-piloto e estamos agora a acelerar, porque faz todo o sentido, já fazia antes e agora ainda mais. Estas tecnologias, as apps, são o futuro e acredito que o turismo acabará por ser complementado com este tipo de serviços, em que o rent-a-car tem um papel importante com o carsharing ou com o aluguer de curto prazo.

Quando é que vai estar operacional na Europcar em Portugal?
Nos próximos meses. Sem dúvida no próximo verão, vamos ter máquinas ‘Key&Go’ em vários pontos.

A Europcar tem a expetativa que este projeto possa influenciar outras iniciativas, até de outros setores, que tirem partido deste lado positivo da tecnologia, que se está a revelar agora tão importante?
Acho que sim. A transição digital, neste momento, está na cabeça de todos os empresários e gestores, todos têm consciência que é necessário investir no digital e temos, aliás, visto uma evolução enormíssima nas nossas vidas. Se pensarmos que, há uns anos, todas estas funcionalidades que usamos hoje – como as apps que usamos para nos deslocarmos – não existiam, percebemos a importância destas ferramentas, que hoje estão acessíveis através do digital. Hoje, o digital é fundamental para qualquer negócio.

Aeroporto

 As épocas de crise também são, normalmente, aproveitadas para se reavaliar investimentos, e parece ser isso que está a acontecer com o aeroporto do Montijo, pois o Governo já admite que o projeto perdeu urgência porque a pandemia reduziu o tráfego aéreo em Lisboa. Concorda que esta visão?
Discordo completamente porque estamos décadas atrasados. Esta não é, de todo, altura para adiar uma decisão que já devia estar assente porque Lisboa precisa desse aeroporto. Só se acreditássemos que a pandemia iria durar indefinidamente é que podíamos aceitar isso. Talvez não acabe já em 2021, mas é possível que isso aconteça em 2022 ou em 2023. Portanto, se em 2023 regressarmos aos números de 2019, Lisboa vai ser um pandemónio em termos de serviços aeroportuários, como era no ano passado. Toda a demora assumida neste processo vai ter repercussões e vai-se traduzir em perdas de milhões de euros de receita para Lisboa. Por isso, acho que não é, de todo, altura de perdermos mais tempo a discutir o aeroporto, foi assim que este processo se arrastou 40 anos.

Em relação ao aeroporto do Montijo, as rent-a-car já foram ouvidas sobre as condições de que vão dispor na nova infraestrutura?
Temos uma relação próxima e aberta com a ANA – Aeroportos e já discutimos o tema do novo aeroporto. Eles ouviram as nossas opiniões e assumimos inclusive que, se o novo aeroporto tivesse sido uma realidade durante o prazo da corrente concessão, o que não será muito possível, porque a obra vai demorar três ou quatro anos – e esta é mais uma razão pela qual não faz sentido adiar mais a decisão -, as rent-a-car teriam obviamente um espaço no futuro aeroporto. Nem faria sentido se não fosse assim, apesar de, para nós, isso partir em dois a nossa operação na cidade de Lisboa. Mas creio que não há outra solução e é sempre uma melhor solução do que oferecer o péssimo serviço que se presta no aeroporto atual, que atingiu o limite da sua capacidade.

Futuro

A pandemia torna difícil fazer previsões, mas ainda há pouco disse que, talvez em 2023, já exista retoma. Como vê o futuro do turismo e do rent-a-car?
Quando falo em 2023, é em voltar a atingir a performance de 2019, em que tivemos níveis altos de turismo, mas acho que já haverá uma franca recuperação em 2022. Talvez em 2021 seja cedo, porque isto tem a ver com a confiança das pessoas. Logo que se consiga eliminar a incerteza e o medo, a recuperação será rápida, porque as pessoas estão desejosas de viajar. Quando houver confiança, tudo será rápido. Por isso, acredito que 2021 será ainda cedo para que exista recuperação, porque não há ainda uma vacina ou cura, e as pessoas ainda não se habituaram a viver com esta situação. Mas no futuro, com ou sem vacina ou até que tudo isto se torne normal nas nossas vidas, haveremos de recuperar os níveis do passado.

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