Opinião| Turismo: Ultrapassar a crise, Preparar o futuro

Por a 24 de Novembro de 2020 as 8:45

Perante a maior crise com que o turismo alguma vez se defrontou, em Portugal e no mundo, e da grande incerteza em que vivemos, duas opções se podem assumir: concentrar todos os esforços na tentativa de salvar aquilo que pode ser salvo ou esperar que a pandemia passe e, entretanto, preparar o futuro. Porém, uma não pode excluir a outra.
Salvar o que pode ser salvo é um dever imperioso e inadiável. Tem de ser! E o que tem de ser tem muita força. Tudo tem de ser feito para isso, caso contrário, a recuperação económica e social duraria muitos anos com consequências dramáticas e o turismo sofreria um abalo do qual dificilmente recuperaria.

Preparar o futuro, vivendo em crise, pode não ser apelativo e pensar-se que pode aguardar melhores dias e mais ânimo. Seria erro irremediável e de grandes proporções. Preparar o futuro é uma forma de agir sobre ele, influenciá-lo, moldá-lo para optimizar benefícios e reduzir os erros e os inconvenientes que toda a acção humana implica mas, ao mesmo tempo, abrir novos horizontes. Não o fazer e esperar que a maré seja favorável é a solução dos desesperados. De quem não tem alternativa.

Vivemos momentos de grande incerteza. Nunca foi tão avassaladora e angustiante. Alterou tudo e introduziu-se em todas as manifestações humanas. A incerteza passou a ser a certeza do dia a dia. Nestas condições não é fácil preparar o futuro mas não fazê-lo seria comprometer seriamente o desenvolvimento do turismo e prolongar a incerteza. Coloca-se, contudo, a questão de saber quais as determinantes que o moldarão nos próximos anos. São várias mas dentre elas destacam-se: as consequências da pandemia; as questões ambientais, em particular, as mudanças climáticas; os efeitos da 4ª Revolução Industrial; e as mudanças de comportamentos.

A consequência mais imediata e de maiores proporções da pandemia foi a de eliminar as deslocações para fora da residência habitual sem as quais o turismo não existe. A crise no turismo era inevitável. Globalmente, o turismo nunca entrou em crise por razões endógenas do sistema que o constitui e também agora não aconteceu. É relevante evidenciá-lo, sobretudo, quando se ouvem vozes que lhe imputam a causa do agravamento da crise e menorizam a sua importância económica e social. As poucas crises que sofreu foram sempre por razões exógenas: políticas, económicas, financeiras, do petróleo e por razões sanitárias como agora. Provocaram efeitos que se traduziram em crises no turismo. Crises do turismo não se conhecem. Havê-las-á quando as necessidades turísticas se reduzirem ou forem substituídas por outras; quando se reduzir a capacidade de atracção dos destinos ou da sua adaptação a novas necessidades; quando não houver investimentos, em especial, nas infra-estruturas, inovação e modernização; e se a hospitalidade se transformar em “ turismofobia” em que os anfitriões repudiam os turistas.

O maior perigo para o futuro do turismo é se algum ou alguns destes fenómenos ocorrerem em simultâneo com os efeitos da pandemia e isso poderá acontecer se as actividades turísticas forem deixadas à sua sorte.
Se assim não for, como se espera, o turismo recuperará quando os meios de combate à pandemia permitirem retomar as condições de deslocação e o regresso da confiança dos consumidores. É provável que a retoma se inicie depois da próxima primavera mas os valores de 2019 não se alcançarão antes de 2023/24 e as empresas e administrações públicas devem estar preparadas para isso. Entretanto, é essencial, tomar medidas para evitar ou atenuar a expansão de doenças contagiosas que, as viagens facilitam, como agora é claro, em complemento àquelas que foram adoptadas por causa do terrorismo.

As mudanças climáticas são o maior desafio com que a humanidade se defronta e a mais recente literatura científica sobre os efeitos da pandemia é unânime em considerar que esta crise deve ser uma oportunidade para repensar e redefinir o turismo no sentido de contribuir para a neutralidade carbónica, abandonando a tentação de adoptar estratégias baseadas no regresso ao normal pré- COVID-19. Não esqueçamos que, segundo a OMT, a contribuição do turismo para o aquecimento global pode atingir uma percentagem muito superior à da sua contribuição para a riqueza mundial. Por sua vez, o meio ambiente, é um dos mais importantes factores de desenvolvimento turístico mas são as suas condições que definem a atractividade da maior parte dos destinos. Em consequência, os modelos do futuro têm necessariamente de visar a sustentabilidade e as políticas têm de dar primazia aos produtos que se desenvolvem em compatibilidade com ela e às acções que reduzam os efeitos negativos do turismo sobre o ambiente.

Os desenvolvimentos tecnológicos que constituem a emergente Revolução Industrial produzirão a maior transformação que o mundo jamais registou, modificarão as actividades e o próprio ser humano e operar-se-ão muito mais rapidamente do que no passado. As influências no turismo exercer-se-ão por várias formas e vias alterando os comportamentos dos consumidores, o funcionamento das empresas, o exercício das profissões e a gestão dos destinos. As mudanças esperadas, por via das tecnologias de registos distribuídos (blockchain), da Internet das coisas que está a levar à criação da “economias resultados” e das realidades virtual e aumentada, que poderão reduzir as necessidades de deslocação, obrigam as empresas a abrir-se às tecnologias, a investir no desenvolvimento dos empregados e a garantir uma cultura de “empresa colaborativa”.

Do ponto de vista da tecnologia já sabe muito do que vai acontecer e alguma coisa das suas consequências mas as mudanças do ponto de vista humano (políticas, sociais, comportamentais) só quando o futuro for presente se saberá. No, entanto, as tendências actuais revelam mudanças radicais que obrigam a encarar o turismo segundo novas perspectivas. As viagens sempre tiveram riscos mas, actualmente, os consumidores estão menos dispostos a comprometer a sua segurança e desejam aumentar o seu bem-estar dando maior importância à qualidade das experiências e à garantia de saúde. Por outro lado, as TIC modificam o comportamento social das novas gerações. O constante diálogo dos jovens entre si nas redes sociais evolui para o chamado “lazer performativo”, isto é, a partilha de opiniões sobre as suas experiências que lhes dão maior confiança do que a publicidade. Em consequência os fornecedores de serviços têm de garantir experiências  autênticas (atenção a este conceito!) e auto-perfeiçoamento e adoptar novas formas de comunicação.

Uma das consequências da 4ª RI são as alterações no mercado do trabalho com o desaparecimento de muitas profissões, a criação e mudança de outras e a destruição de milhões de empregos: já se identificam dezenas de profissões que ainda não existem e calcula-se que 35% das competências actuais mudarão em todos os sectores. Nestas condições não é fácil identificar os conhecimentos e competências que os jovens terão de adquirir, mas parece certo que devem ser preparados para profissões que não existem, adquirir capacidade de adaptação rápida a situações novas, terem comportamentos éticos, civilidade e empatia e valores morais e culturais. Questões a que os currículos escolares devem, dar resposta. Estas questões obrigam a preparar, desde já, o futuro porque surgirá com muita rapidez: há três anos os telemóveis da 5G não eram notícia, hoje, são-no quase diariamente e a 6G já está em preparação!

Há meses tive oportunidade de sugerir a preparação imediata de um Plano de Recuperação e Reorientação do Turismo ( o nome pouco importa) constituído por dois sub-planos. O primeiro, orientado para a recuperação, com duração de três anos com os objectivos de reestruturação das empresas; generalização dos sistemas de controlo de doenças contagiosas; aceleração da digitalização; recuperação da procura turística e promoção de projectos inovadores em detrimento do crescimento da oferta. O segundo , a longo prazo mas coincidente com o primeiro, com os objectivos de promoção de produtos de maior valor acrescentado; melhor aproveitamento do turismo para maior diversificação da economia; apoio ao desenvolvimento regional; fortalecimento da competitividade das empresas e dos destinos; adaptação às mudanças esperadas da 4ªRI e dinamização de programas de apoio à redução da pobreza, na convicção de que esta não se ultrapassa com subsídios mas, antes, levando as pessoas a participar em processos produtivos que facilmente se podem identificar no turismo. Os desenvolvimentos mais recentes reforçam a sugestão.

*Por Licínio Cunha, ex-secretário de Estado do Turismo
Artigo publicado na edição de 31 de outubro do Publituris.

2 comentários

  1. MARIO PIRES

    25 de Novembro de 2020 at 19:10

    Excelente artigo. Existem várias estratégias e caminhos que podemos tomar rumo à recuperação, mas o pior caminho é sem dúvida nada fazer. Que esta crise sirva pelo menos para criarmos uma abordagem mais sustentável, verde, igualitária e justa para este delicado recurso.

  2. Manuel Proença

    25 de Novembro de 2020 at 8:58

    Aprender com a experiência é muito importante.
    Aqui está um artigo de grande clarividência de um Homem a quem o turismo português muito deve.
    Obrigado por partilhar connosco.

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