Opinião| Procura, Oferta e Recuperação Económica

Por a 30 de Outubro de 2020 as 9:29

O modelo clássico da procura e da oferta, por mais elementar e simplista que seja, é sempre útil para compreendermos algumas dinâmicas económico-sociais, nomeadamente aquelas que caracterizam actualmente os nossos dias. Na verdade, o período de confinamento que foi imposto na sequência da proliferação do novo coronavírus, nos meses de Março e Abril, implicou uma contracção bastante pronunciada da procura e da oferta. As empresas tiveram forçosamente de encerrar as suas portas e as famílias tiveram de ficar em suas casas com o objectivo de conter uma subida exponencial da curva epidémica sob pena de comprometer toda e qualquer capacidade de resposta do Serviço Nacional de Saúde.

Como nos mostra o modelo clássico, uma redução da procura e da oferta tende a provocar uma queda das quantidades transacionadas (produzidas e consumidas) no mercado e, eventualmente, dos preços. Não é por isso de estranhar que a economia portuguesa tenha registado uma queda sem precedentes de 16,3% no segundo trimestre deste ano em termos homólogos e que a taxa de inflação, que mede o nível geral de preços da economia, tenha exibido uma queda marginal de 0,01% em Agosto em termos homólogos.

Neste contexto, para garantir que a economia portuguesa tenha uma evolução mais favorável no decorrer dos próximos trimestres, é preciso promover um aumento da procura e da oferta para os níveis pré-confinamento. O ideal será, portanto, começar pela adopção de medidas que promovam um aumento da procura por parte das famílias, na medida em que isso acabará por ter um efeito de arrastamento na promoção do aumento da oferta por parte das empresas. O aumento da procura das famílias fará com que as empresas tenham de aumentar a sua produção para fazer face ao expectável aumento do consumo que daí decorrerá. Isto é ainda mais premente tendo em conta que a procura externa (sobretudo a ligada ao sector do turismo) tenderá a estar bastante contida no decorrer dos próximos meses, em virtude dos receios e das incertezas que ainda assombram a evolução económica mundial.

Assim, a forma mais eficaz de garantir um aumento do consumo passa pela adopção de medidas centradas na recuperação dos rendimentos das famílias. Estas medidas podem passar pelo aumento do salário mínimo, mas não só. É desejável igualmente o aumento dos apoios públicos às famílias, sobretudo às que estão a viver condições mais difíceis num contexto de perda de emprego, as quais muitas delas nem sequer têm acesso ao subsídio de desemprego dadas as condições precárias que caracterizavam as suas relações laborais no período pré-confinamento. Só assim será possível restabelecer a procura agregada e inverter a queda vertiginosa da economia portuguesa nos próximos trimestres.

*Por Ricardo Barradas, professor universitário do ISCAL – Instituto Politécnico de Lisboa

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