Opinião| Estabilidade, turismo e meio ambiente

Por a 29 de Outubro de 2020 as 9:48

A vitória sobre o nazismo trouxe à Europa um prolongado período de estabilidade que proporcionou um crescimento económico contínuo e um amplo acesso aos bens de consumo.
O turismo, que carece de paz e estabilidade, conheceu um “boom” nas últimas décadas, só afetado por crises globais que, neste século, já ocorreram três vezes: atentado às Torres Gémeas de Nova Iorque em 2001, com impacto global na aviação, obrigando ao reforço dos já exigentes padrões de segurança; crise económica de 2008, consequência da especulação financeira e da bolha imobiliária dos Estados Unidos; e, agora, a pandemia, com danos económicos e sociais muito superiores aos das crises anteriores.

A liberalização da economia acirrou, a nível global, a disputa dos mercados globais, contribuindo para o agravamento da situação política internacional, com incremento de comportamentos marcados por agressividade e o radicalismo, acrescentando novos fatores de instabilidade suscetíveis de provocar novas crises.

O tema “meio ambiente” está também na ordem dia mobilizando em especial os mais jovens, mais preocupados com o futuro do planeta. Os acordos de Paris de 2015, aprovados pelas principais potências, estabeleceram regras e limites razoáveis para conter o aquecimento global, mas a posterior desvinculação de Trump afetou a dinâmica da sua aplicação.

A aviação tem-se confrontado, de forma crescente, com iniciativas que limitam a sua atividade e aumentam os custos. Em alguns países, defende-se a aplicação de novas taxas e impostos, pensando que o turismo ainda é um exclusivo dos ricos. A Holanda já anunciou uma nova taxa de 7 euros por passageiro mas, com receio de perder turistas para outros países, pretende que seja a União Europeia, através de uma diretiva, a generalizar a “sua” taxa.

No centro da Europa, com maior densidade demográfica, o comboio ganha espaço ao avião, tendo já sido suprimidos alguns voos entre aeroportos com distâncias inferiores a 500 km.
A União Europeia desenterrou de novo o “Céu Único Europeu” com que pretende evitar a atual fragmentação do espaço aéreo oferecendo aos aviões rotas mais diretas, com vantagem para passageiros e para companhias e, por consequência do meio ambiente. Irá a iniciativa ficar, de novo, refém de alguns países e de interesses corporativos?

A necessidade de redução das emissões de gases tóxicos pressiona também os construtores de aeronaves que têm investido em alternativas aos combustíveis fósseis. A Airbus anunciou já o êxito das suas pesquisas, prevendo para 2035 a utilização do hidrogénio que afirma reduzir a zero as emissões poluentes.

Uma referência ainda para o novo Aeroporto de Lisboa, de que se fala há décadas. Só há uma solução boa: a construção de um aeroporto de raiz que resolva as necessidades de tráfego a longo prazo e liberte Lisboa da agressão ambiental. Uma década atrás, na sequência do debate público havido, considerou-se ser Alcochete a melhor solução, com a crise política de 2010, tudo voltou ao princípio.

O esgotamento do Humberto Delgado trouxe, de novo, o problema à ribalta, tendo o Governo escolhido o Montijo por ser a opção mais barata e rápida. Agora, em quadro de pandemia, a quebra do turismo criou uma janela de oportunidade que poderia ter permitido reavaliar a situação. Porém, o Governo, certamente com receio de tudo voltar à estaca zero, frustrou expectativas, assumindo o ministro das Infraestruturas que a crise deve ser aproveitada “apenas” para rever com a ANA o dossiê Montijo.

É pena, pois dois aeroportos provocam dispersão operacional e duplicação de custos. É verdade que é um luxo oferecer aos turistas um aeroporto a 15 minutos do centro da cidade. Mas, neste caso, o que é bom para os turistas é péssimo para os lisboetas, em cima de cujas cabeças se desenrola uma fervilhante atividade operacional que envolve em tempo normal mais de 1.000 movimentos diários com implicações brutais no ambiente e no ruído.

Uma convicção: com o regresso à normalidade o turismo voltará em força revelando, em poucos anos, os limites da solução Humberto Delgado+Montijo. Regressará então o tema à ribalta.

*Por António Monteiro

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