“Tentamos não deitar dinheiro à rua e navegar à vista porque todos os dias as coisas mudam”

Por a 18 de Setembro de 2020 as 14:41

Lisboa tem feito campanhas online nos mercados europeus e já há turistas a circular na cidade. O perfil de clientes, para já, alterou-se e são, sobretudo, millennials que reservam individualmente.


Em Lisboa, a recuperação do turismo tem tido um percurso com “altos e baixos”, o que leva o diretor-geral do Turismo de Lisboa (ATL) e presidente da Entidade Regional da Região de Lisboa a ser cauteloso nas previsões e considerações. Vítor Costa volta a insistir na questão de aguentar a estrutura económica que suporta o turismo no seu global, através de medidas, e lamenta o corte no orçamento das regiões assim como duas declarações do primeiro-ministro durante a pandemia.

Como é que correu o verão para o turismo na cidade e na região de Lisboa?
Desde que começou a pandemia, todos nós fomos tendo expetativas que depois vieram a ser afastadas pela realidade que se mostrou mais grave do que pensávamos à partida, nomeadamente no que diz respeito ao tempo de duração. Tivemos vários períodos: de confinamento obrigatório e depois uma abertura progressiva, a partir de 18 de maio. Começámos a ter alguma esperança que a partir de julho começasse a haver uma melhoria, mas tivemos aquele episódio de surtos na região de saúde de Lisboa e Vale do Tejo, o que nos mercados internacionais foi entendido como se fosse em Lisboa, apesar de, na altura, esses números serem de zonas sem incidência turística. O próprio Governo não ajudou porque fez declarações no sentido de eventualmente equacionar que Lisboa ficasse de fora [da abertura aos mercados]. Isso notou-se em cancelamentos, adiamentos de aberturas de hotéis, etc. Posteriormente a isso, começámos a ter algum pequeno movimento, incluindo a própria Final da Liga dos Campeões. Agora os números continuam nessa linha, mas dado o aparente agravamento dos últimos tempos e o que poderá acontecer com o mercado inglês, a situação não é otimista. Temos altos e baixos. O que se verifica é algum movimento, mas muito distante do que é necessário.

A Final da Liga dos Campeões em Lisboa foi uma oportunidade perdida para promover o país e Lisboa? Qual é a sua opinião?
Quando foi anunciado esse evento tínhamos uma expetativa. Aquilo com que contávamos era que este evento viesse numa altura em que já estivéssemos no início de uma recuperação. Portanto, iria ter o efeito de mostrar que o país tinha tratado bem o problema e que estávamos agora a iniciar uma fase de recuperação. Mas a partir do momento em que foi claro que não ia haver público, não tivemos esperanças que tivesse um grande efeito na nossa economia local. Havia apenas um efeito positivo na hotelaria que recebesse as equipas e a organização. Isso esteve dentro da expetativa. Quanto ao outro impacto, o mediático, esse pensamos que se mantém. Um dia o turismo há de voltar e quem estiver com um posicionamento melhor tem vantagens. Isto consolida a imagem de Lisboa como destino turístico no futuro. Em relação ao que esperávamos, ou seja, um início de recuperação e um fator de dinamização e aceleração dessa recuperação, isso não se verificou porque a pandemia não está resolvida.
A pergunta que me faz é se devia ter sido feita mais promoção. Nesta matéria de promoção estamos numa encruzilhada de lógicas diferentes: por um lado, vamos fazer muita promoção e depois as pessoas não podem vir, ou não vêm porque não têm confiança, ou os números não ajudam; por outro lado, se não fazemos promoção, há nichos que perdemos. Penso que não estamos numa altura de lançar grandes campanhas de promoção e ações nos mercados. Embora, enquanto ATL, temos feito. algo. Temos agências de comunicação em alguns mercados, procuramos intervir de uma forma correta nos mercados, além das campanhas online e as parcerias com companhias de aviação. Ou seja, vamos aproveitando aquilo que neste momento é possível fazer. Mas não tenhamos ilusões, a principal questão é que não voltaremos a ter uma atividade com muita dinâmica enquanto este problema da saúde pública não estiver resolvido.

Qual o balanço do programa de dinamização e captação do turismo da Região de Lisboa, desenvolvido pela Entidade Regional da Região de Lisboa (ERT-RL) em colaboração com a Associação Turismo de Lisboa?
Estamos num contexto em que toda a gente elegeu o mercado interno como a questão principal. Portanto, a “concorrência” sobre o mercado interno é enorme. Olhando para o nosso mercado interno, ele é muito menor face ao peso que tem o mercado internacional. Nunca o mercado interno pode ser um substituto para resolver o problema do turismo. Depois, temos na nossa região um terço da população em Portugal. Onde é que podemos ir buscar fluxos de turistas internos se um terço da população está logo em Lisboa. Além disso, Lisboa não é considerada normalmente um destino turístico para o mercado interno. Embora as dormidas nacionais tenham um peso relativo, se olharmos para essas estatísticas com algum pormenor, verificamos que, apenas 8% dos turistas nacionais vêm a Lisboa por lazer.
Portanto, a região de Lisboa, em termos de posicionamento para o mercado interno, não está no top 3. Temos um posicionamento relativamente fraco. Foi nesse contexto que procurámos fazer algo para tentar mexer alguma coisa. Uma campanha que fosse muito efetiva, e não só motivacional.
A campanha teve muita adesão da parte da oferta. Da parte da procura foi pequena. Iremos divulgar estes números. Mas posso dizer que é pequena. Não houve procura relevante de noites, apesar de serem pacotes muitos atrativos em termos de preços e conteúdos. O que teve mais adesão foi a experiência do fado. Proporcionámos uma experiência de fado por um preço muito competitivo. E teve bastante adesão. O que é positivo porque estamos a falar de um fator diferenciador e identitário que estava em risco. O fado sem as casas de fado não existe. Demos uma pequena ajuda para que as casas de fado consigam sobreviver.

Durante o período da pandemia a ATL desenvolveu um plano de emergência que consistiu no desenvolvimento de vários ações, nomeadamente a contratação de agências de comunicação nos mercados europeus. Qual é o balanço?
São agências de Relações Públicas e Comunicação em Espanha, França, Itália, Alemanha, Reino Unido e Rússia e estão a intervir dentro do possível. Já aconteceu por exemplo a existência de programas já previstos, trabalhos jornalísticos, etc, mas alguns foram adiados outra vez por causa destas oscilações [da pandemia]. São ações táticas que permitem reforçar quando há oportunidades.

Por exemplo, quando o Reino Unido retirou Portugal da lista de quarentenas obrigatórias.
Sim, fizemos um reforço, quer online, quer na intervenção da agência de comunicação.

E quanto à melhoria das condições dos Planos de Comercialização e Venda?
Sim, fizemos isso e aprovámos planos que representariam um investimento total superior a 3 milhões de euros, incluindo a nossa participação e a das empresas e, portanto, esses planos estão todos aprovados, não sabemos ainda é qual o grau de execução pelas empresas. Antevejo que poderão não vir a ser cumpridos todos na sua totalidade. Temos um grande número de empresas que aderiram, os planos foram aprovados, e agora o grau de implementação poderá não ser de 100%.

Também fizeram um reforço da promoção digital?
Tem corrido dentro do previsto. Estamos a intervir em cerca de 27 mercados com campanhas de AdWords e de fomento de utilização do nosso site.
Também fizemos acordos que consistem no cofinanciamento de ações de marketing e publicidade nos mercados com as companhias de aviação easyJet, Ryanair e TAP. O da TAP tem sofrido alterações e agora estávamos na iminência da TAP começar a fazer a sua parte em Inglaterra.

Para que mercados com a TAP?
Neste momento para a Europa. Foi uma opção que fizemos, não vale a pena neste momento estar a intervir no mercado norte americano e ou no Brasil, tendo em conta a ausência, por enquanto, de ligações aéreas suficientes. É deitar dinheiro à rua. Parece-nos que a Europa é que pode responder mais imediatamente.
Da mesma forma, tínhamos previsto estender a mercados do Médio Oriente, e também priorizámos a intervenção na Europa. Normalmente quando se fala de mercados, há a grande questão do Reino Unido, que também é importante para Lisboa. Mas em Lisboa temos seis, sete mercados mais ou menos ao mesmo nível de importância e já tínhamos perdido dois desses mercados: o brasileiro e americano. O caso do mercado inglês é o mais falado, porque tem uma relevância para determinadas regiões. Mas no caso de Lisboa, tem uma importância equivalente a outros mercados.
O que decidimos na ATL, em primeiro lugar, foi tentar não deitar dinheiro à rua, fazermos opções, e essas opções têm de ser navegar à vista porque todos os dias as coisas mudam.

O financiamento do Estado às Entidades Regionais de Turismo vai diminuir?
Foi-nos comunicado que as verbas do Turismo de Portugal de apoio às ERT’s foram diminuídas para o próximo ano. As ERT´s têm de apresentar à Direção Geral do Orçamento os orçamentos para que possam ser integrados no Orçamento do Estado. O orçamento da ERT Região de Lisboa para o próximo ano tem, aproximadamente, menos 250 mil euros, que corresponde a um corte feito pelo Turismo de Portugal.
Não estou de acordo. Não somos apologistas de deitar dinheiro à rua, mas temos de ter recursos para navegar à vista. Embora as previsões mudem todos os dias, isto não irá durar sempre. No próximo ano, a expetativa é que a pandemia tenha sido ultrapassada. Se isso acontecer é preciso meios na altura para um grande investimento. A questão que esta pandemia coloca é que atinge o coração do turismo. Tínhamos um setor com uma grande dinâmica, por um lado, por outro lado temos as pessoas que mantêm a vontade de viajar, mas estamos numa situação muito dramática. Agora é importante, sobretudo, aguentar um tecido económico que possa responder mais tarde. O turismo não funciona se não tiver um tecido económico capaz de trazer os clientes. Agora é aguentar, depois é trazer clientes, porque sem clientes isto nunca funcionará a longo prazo.
Quando existe uma redução de orçamento há opções que têm de ser feitas. Para a semana terei uma reunião da comissão executiva para decidir onde é que esse corte se vai refletir. Mas não há receitas alternativas para as Entidades Regionais.
É um sinal negativo, mas Lisboa, tanto a ATL como a ERT, não têm, normalmente, uma atitude de reivindicação de dinheiro. Procuramos fazer o melhor possível com os meios que estão disponíveis, mas não deixamos de fazer observações quando achamos que há injustiças.

Críticas

O primeiro-ministro declarou que os trabalhadores do turismo no desemprego podem converter-se em profissionais do setor social. Vê nestas palavras um abandono do turismo?
Pelo menos teve essa leitura. Penso que foram palavras infelizes. Considero a maior parte das palavras do primeiro-ministro felizes, muitas vezes identifico-me com elas, mas houve duas situações nesta crise que penso que o próprio Primeiro-ministro foi infeliz. A primeira foi quando disse publicamente que talvez a abertura aos mercados pudesse ser feita para outras regiões deixando Lisboa de fora. Penso que foi um erro grande e que teve consequências. E a segunda foi esta declaração. A ideia do primeiro-ministro provavelmente foi dizer que temos de procurar alternativas, mas no contexto em que foi dita, ou seja, de desânimo entre as pessoas, parece que é deitar a toalha ao chão e dizer que aqui já não há hipótese. Fez-me lembrar em certa medida aquela expressão do primeiro-ministro anterior [Pedro Passos Coelho], que disse para os jovens irem procurar trabalho no estrangeiro.

Aquando do Estado de Calamidade declarado em Lisboa, foi crítico, escreveu que estava a promover-se uma divisão do país em vez de se atacar o problema.
É verdade. Em termos comunicacionais, confundiu-se a região de saúde de Lisboa e Vale do Tejo com o destino turístico. Em termos internacionais, sentimos logo [os efeitos]. Inclusivamente algumas ações previstas de jornalistas internacionais foram adiadas e hotéis que já não abriram. Isso depois foi agravado por declarações da secretária de Estado do Turismo, do ministro da Economia e do próprio primeiro-ministro. Como se isso fosse possível num país dizer “a capital não, mas o resto sim”. Isso não funciona. Claro que depois isso foi atenuado com os factos posteriores que viemos a verificar. Não vejo que esta divisão seja uma coisa boa para o país e para o turismo. No momento em que estamos a falar, os últimos dados mostram que onde houve mais casos foi no Norte, e não vou dizer venham só para Lisboa.

Leia a entrevista na íntegra aqui.

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