APAVT: “Se os apoios do Estado não chegarem a tempo é natural que possam haver falências”

Por a 27 de Agosto de 2020 as 19:53

O verão está a ser menos positivo do que aquilo que era expectável no início da pandemia. A abertura das fronteiras e o retomar das viagens no mês de junho criaram algumas expetativas àqueles cujos negócios dependem exatamente da livre circulação de cidadãos. Contudo, os números verificados no verão com, por exemplo, os aeroportos nacionais a registarem quebras de 57,7% nos voos comerciais, deitaram por água abaixo qualquer réstia de esperança que o verão fosse salvar o já desastroso ano.

Questionado pelo Publituris, Pedro Costa Ferreira, presidente da APAVT (Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo), confirma que “as primeiras expectativas da pandemia incluíam um verão substancialmente melhor do que aquele que aconteceu. O cenário hoje, ao evoluir, evoluiu para pior e as expectativas são mais baixas”.

No entanto, os resultados negativos do verão e, inclusive, do primeiro semestre, ainda não se reflectiram em insolvências no setor das agências de viagens. E Costa Ferreira explica porquê: “O ‘lay off’ simplificado foi um poderoso instrumento que ajudou todos a manterem-se ativos”. Segundo dados da APAVT, em abril, 76% dos associados estavam em ‘lay-off’, enquanto no mês de julho estavam 83%.

Para já, a associação não tem conhecimento de empresas do setor que tenham declarado insolvência e tal também não se tem refletido ao nível do número de associados da APAVT que esteve, inclusive, prestes a alcançar o recorde de associados no início da crise. Porém, “ninguém duvida que vamos descer de forma significativa ao longo dos próximos meses, porque também as empresas vão descer de forma significativa”.

O presidente da APAVT alerta que, apesar de não existirem registos de insolvências, “não surpreenderemos ninguém, sobretudo se o Estado mantiver esta lentidão relativamente à segunda vaga de apoios, [se verifiquem falências”. Costa Ferreira descreve que as empresas de Turismo, sejam elas agências de viagens, hotéis, companhias de aviação, animação turística estão “mais frágeis” e adverte que “se os apoios do Estado não chegarem a tempo é natural que possam haver falências”.

APAVT quer Turismo de Portugal no Banco de Fomento

De forma a apoiar a manutenção das empresas do Turismo, a APAVT aponta algumas medidas a implementar por parte do Governo, entre as quais se destaca o regresso do ‘lay off’ simplificado. “Não se compreende que as condições de acesso a um ‘lay off’ simplificado fossem umas com as empresas fortes no início da crise –  as empresas estavam fortes porque eram lucrativas há bastantes anos -, e que agora, com as empresas muito mais fragilizadas, não haja a possibilidade de aceder ao ‘lay off’ simplificado”, constata o dirigente.
Outra das preocupações da associação tem que ver com a recapitalização das empresas com apoios a fundo perdido que, segundo Costa Ferreira, “tardam em chegar ao mercado”.

Quanto às moratórias fiscais e ao reembolso de financiamentos, o responsável considera que o Governo já deveria ter clarificado e deixado definido que estas medidas fossem “postecipadas para o segundo semestre de 2021”. “Penso que se justifica perfeitamente,  porque a crise foi bem maior do que estava perspetivada e as medidas vão ter de ser adotadas de acordo com o modo como a crise evolui”, aponta.

Por último,  a APAVT revela preocupação com a entidade onde estas e outras medidas estão centralizadas: o Banco de Fomento. Para a associação,  “o Banco de Fomento provoca alguns problemas de acesso ao diálogo para micro e pequenas empresas, ora o setor das agências de viagens e do Turismo, e até da economia portuguesa em geral, é constituído por micro e pequenas empresas”. Assim, a APAVT defende que ficaria “mais confortável e confiante” se “o Turismo de Portugal tivesse uma outra intervenção nesta segunda fase dos apoios”. E justifica: “Primeiro, porque tem experiência e já provou que é um organismo efectivo neste tipo de relacionamento, ainda agora com o microcrédito. E sobretudo porque conhece muito melhor as vicissitudes do setor  turístico”.
Pedro Costa Ferreira considera que o Turismo de Portugal seria “muito mais capaz de avaliar a necessidade de uma empresa e os riscos dessa do que propriamente o Banco de Fomento que acaba de aterrar no mercado, não se sabe ainda bem com que estruturação e aparentemente atrasado na sua atividade”.

2 comentários

  1. David Coelho

    28 de Agosto de 2020 at 21:50

    A catástrofe é inevitável. A Festa do Avante está antes da retoma económica. Agora que se está a tentar fazer algo em grupo, em Portugal apenas está claro, vem o alarmismo do Estado de Contingência, mas microscopicamente depois de terminar a tal Festa, contra a qual nada tenho. Os seguros são mantidos para prevenir insolvências… a Pullmantur torna-se insolvente e dos seguros nada se fala. Vamos então cancelar todos os seguros porque se não garantem as insolvências para quê mantê-los?! A Melair dá suporte… perdão, a Royal Caribean dá suporte às reservas individuais da Pullmantur mas aos grupos não?! Porquê? Não são todos viajantes? Isto não é discriminação de pessoas?! Enfim há que elogiar várias ações mas acho que muito mais poderia ser feito porque curiosamente não vivo nome de nenhuma grande nos credores da Pullmantur. Não tinham grupos?! Pois,.. mas enfim é o que é!

  2. João Passos

    28 de Agosto de 2020 at 11:32

    O Pedro, como de costume, demonstra uma perspectiva correcta da situação do Turismo, nomeadamente das Agências de Viagens.
    Será efectivamente fundamental ter o Turismo de Portugal integrado no Banco de Fomento. O Turismo necessita de decisores que saibam do que se fala, do que se precisa.

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