Histórias do Turismo | Pela nossa saúde!

Por a 14 de Agosto de 2020 as 10:26

Por Jorge Mangorrinha, Investigador em História do Turismo

Historicamente, a ciência e o turismo receberam importantes impulsos, na sua evolução, a partir de fatores mais ou menos complexos, que ajudaram à reflexão pluridisciplinar, perante a surpresa ou o acaso e perante o engenho da mão humana. É o caso das atividades económicas relacionadas com o culto da água e com o seu benefício para a saúde e para o turismo.

Sob o signo da água, o binómio saúde-turismo é dos mais ancestrais. Presentemente, a dinamização de produtos turísticos específicos, nomeadamente o Turismo de Saúde, é uma prioridade para o Estado (Turismo de Portugal), como forma de combater a sazonalidade e estender os benefícios do turismo a todo o território. Neste sentido, hoje percorremos memórias, mas também o presente de duas estâncias que escolhi sob um único critério, ou seja, as notícias que nos últimos dias têm veiculado acontecimentos distintos, mas complementares e dignos de nota, pela importância que cada qual apresenta e com os quais se marca, neste espaço, uma abordagem a este produto.

Em Cabeço de Vide, as águas sulfúreas, levadas aos domicílios, já negativaram uma centena de vítimas da covid-19, no corrente ano, mas não há evidência científica que prove esta relação, embora se coloquem como hipóteses de trabalho: a) se terá influência o facto de a água mineral natural ser muito alcalina, com um pH de 11,5, bem acima das de consumo diário; e b) se os casos com essa doença evoluem independentemente do que tomem, bebam ou comam.

Porém, esta água não é indicada para ser bebida normalmente, como outras com um pH entre os 6,5 e os 9, embora possa ser consumida em pequenas quantidades, localmente nas termas e com acompanhamento profissional, tal como eu próprio fiz, recentemente. Importa ainda sublinhar que tanto a Organização Mundial da Saúde como a Direção-Geral da Saúde têm repetido que não existe qualquer tratamento cientificamente comprovado para a covid-19, pelo que o acompanhamento dos doentes se tem focado no alívio dos sintomas da doença. Mas importaria que as autoridades nos pudessem esclarecer, cientificamente, com provas analíticas deste fenómeno recente. Sublinhe-se que, neste preciso ano, passam dois séculos sobre a primeira análise científica das Termas da Sulfúrea de Cabeço de Vide (1820). No ano anterior, os moradores requereram ao Ministério do Reino que se mandasse fazer reparos na fonte de água mineral, de que muitos doentes haviam recebido benefício. O Ministério mandou que a Academia Real das Ciências de Lisboa analisasse a água, o que ocorreu em abril de 1920, pelo médico Francisco Xavier de Almeida Pimenta e pelo químico Tomé Rodrigues Sobral. Dois séculos depois, importa que as análises sejam outras e que possamos saber, com rigor, se este balneário pode alargar as suas indicações terapêuticas, motivadas por mais uma doença silenciosa, com benefícios para a saúde e para o turismo.

A evolução do termalismo científico partiu, simplesmente, de evidências de cura ou de melhoria da saúde das populações e dos animais, pelo que, presentemente, temos outros acontecimentos que precisam de investigação e de pedagogia.

Por falar em ensino, nas Caldas da Rainha, que quer voltar a ser “Cidade Termal”, avança uma edição piloto, a nível nacional, que resulta da colaboração entre diversas entidades públicas e privadas (Turismo de Portugal, Ordem dos Médicos, Associação Nacional de Municípios, Associação das Termas de Portugal, Direção Geral de Energia e Geologia), na sua conceção e estruturação, em cuja sessão de apresentação estive presente como orador convidado. O objetivo é que o Curso de Turismo de Saúde e Bem-Estar seja um estímulo à dinamização de atividades e à criação de produtos e serviços turísticos relacionados com este segmento. Em particular, a memória e a capacidade de abertura, inovação e de gestão do futuro são o caminho de uma cidade que deve ter objetivos estratégicos a médio e a longo prazo, para os quais se mobilizem vontades políticas e cidadãs e meios financeiros planificados, porque caso contrário esgotará todos os seus recursos como uma manta de retalhos e reduzirá o próprio sentido de pertença da sua comunidade. Há muito que a água das Caldas faz benefícios a quem usufrui do Hospital Termal, o mais antigo do mundo, com um património a merecer um plano de intervenções, aliando a atividade possível com a valorização e divulgação cultural. Lembro que, em 1820, quando se procedeu à análise das águas de Cabeço de Vide, já as das Caldas se exportavam para o Brasil, a partir desse mesmo ano, pelo que a sua história de mais de cinco séculos é uma referência e uma realidade a ter presente.

Ambas as águas são sulfúreas. Ambas as localidades têm uma história. Ambas têm uma oportunidade para ganhar mais competências e para beneficiar a saúde e o turismo. A comunidade científica e educativa tem agora a palavra, no laboratório e na escola.

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