Turismo: Necessidade da sua integração no Programa de Recuperação Económica e Social 2020/30

Por a 10 de Agosto de 2020 as 13:57

Por Licínio Cunha, Economista e ex-secretário de estado do Turismo
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Desde o início da pandemia, que ocasionou a quebra dramática do turismo, tem-se afirmado que “a aposta no turismo foi excessiva”, que “o país confiou nele em demasia para ser um dos pilares da economia” e, agora, Costa Silva, acrescenta que é “uma actividade de baixo valor acrescentado” e que “estamos muito dependentes” dele.

Depois das desmedidas ondas de euforia, do “ Portugal está na moda” e dos prémios exaltados “ad nauseam” mas cujo rigor e real significado não foram postos em causa porque respondiam ao ego nacional, aquelas afirmações lembram a velha fábula que fala do leão moribundo.

São afirmações, umas gratuitas outras inconsistentes, que põem em causa a importância e o papel do turismo, não ajudam à sua recuperação em bases sólidas e escamoteiam as verdadeiras causas da incapacidade que, nas últimas décadas, o país demonstrou para criar uma economia diversificada, moderna, competitiva e geradora de maior bem-estar colectivo.

Na verdade, o país, leia-se, político, nunca apostou no turismo e não se conhece  nenhuma estratégia de desenvolvimento económico e social que o consagre como um dos “pilares da economia”, a não ser nos planos para o próprio sector mas sem consequências a nível da sua inter-relação com as políticas macro-económicas. Tem sido, nelas referido mas não integrado o que é muito diferente. Se o fosse, provavelmente, não se teriam devastado as paisagens algarvias como o foram ou destruído recursos ímpares e ter-se-ia respeitado o ambiente e os valores arquitectónicos que diferenciavam o Algarve de qualquer outra região europeia. Poder-se-ia ter aproveitado melhor o seu potencial para fortalecer e dinamizar outras actividades e o seu crescimento teria sido menos desordenado e mais equilibrado.

Critica-se a dependência que dele temos mas a recuperação económica desde 2014, embora frágil e anémica, deve-se a par das exportações, ao turismo que, desde esse ano, proporcionou ao país mais de 85 mil milhões de euros de receitas externas. Compare-se com as verbas que esperamos receber da UE e que nos deixam eufóricos.
O turismo é uma “actividade de baixo valor acrescentado” como afirma Costa Silva? Vejamos.

Em primeiro lugar, a Conta Satélite do Turismo contraria esta afirmação. Os últimos dados do INE mostram que o VAB directo gerado pelo turismo, aumentou, nos últimos anos, sempre mais do que o gerado pelo conjunto da economia, calculando-se que, em 2919, tenha representado 8,5% a 9,0% deste. Ao mesmo tempo, o VAB turístico representa mais de 47% do consumo turístico, ou seja, do valor total da produção turística. Qual outra actividade em que tal acontece?

Em segundo lugar, apesar dos salários da restauração e hotelaria serem baixos, as remunerações das actividades características do turismo têm aumentado, nos últimos anos, mais do aquelas que o conjunto da economia proporciona.

Em terceiro lugar, as produções turísticas exigem menos importações do que as actividades exportadoras de bens: estas para produzirem necessitam de importar mais de 60% do valor total produzido enquanto no turismo não chegam a 50%.

Por último, as “matérias primas” essenciais ao desenvolvimento do turismo e que constituem os principais atractivos que levam as pessoas a fazer viagens turísticas são o sol, mar e praias, paisagens, valores culturais, centros históricos e monumentais, tradições e hospitalidade que têm características de bens públicos. Não podem ser comprados nem vendidos e só dão origem à criação de riqueza por via do turismo: uma paisagem só tem valor económico se os turistas a procurarem originando a criação de empresas e de emprego, ou seja, atribui valor económico àquilo que o não tem. Já Stendhal o dizia.

Estamos muito dependentes do turismo? Pois estamos! Somos muito mais dependentes dele do que a Espanha, França, Itália, Reino Unido, Alemanha, EUA ou Turquia que fazem parte do grupo dos dez maiores destinos turísticos mundiais de que Portugal não faz parte. As razões são óbvias: todos têm economias mais diversificadas, maior grau de industrialização, são tecnologicamente mais avançados e outras coisas mais. Não é por terem pouco turismo.

A questão que se nos coloca não é a de suster o desenvolvimento do turismo mas promovê-lo de forma sustentável e equilibrada, melhorar a sua cadeia de valor e, sobretudo, aproveitá-lo nas políticas económicas e sociais em função da sua contribuição para os objectivos estratégicos do processo de desenvolvimento porque em todos aqueles que podem ser eleitos, o turismo terá um papel a desempenhar. Isso implica que cada domínio de governação inclua o seu aproveitamento nas políticas que desenvolve nas respectivas áreas. Ou seja, aquilo que podemos designar como”abordagem integradora do turismo “.

O Programa de Recuperação Económica e Social 2020/30 é uma boa oportunidade, quiçá, a última, para integrar o turismo nas políticas económicas e sociais. Façam-no e não se desculpem com o turismo, aproveitem-no inteligentemente, protejam os valores em que se baseia e garantam o seu desenvolvimento sustentável. O turismo não é um fim em si mesmo e o seu grande objectivo terá de ser o de ajudar a promover o desenvolvimento económico e social. Se não aconteceu até aqui a culpa não se lhe pode assacar.

2 comentários

  1. Jorge Mangorrinha

    11 de Setembro de 2020 at 17:25

    Um texto informado e sem rodeios como nos habituou o Sr. Prof. Dr. Licínio Cunha e um comentário muito pertinente do Sr. André Jordan que complementa o texto-base com conhecimento de causa pela lição prática a que nos habituou.

  2. André Jordan

    11 de Agosto de 2020 at 12:00

    Muito claro, bem estruturado e muito bem escrrito o artigo do Professor Licinio Cunha. Entretando omisso em relação ao turismo residencial, fonte iimportante de investimentos estrangeiros e de receitas recorrentes de receitas e impostos .

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