Opinião | É a estratégia para a crise; não o dinheiro para a estratégia!

Por a 7 de Agosto de 2020 as 14:55

Estamos, já não pode ser negado por quem quer que seja, a viver aquela que é a mais significativa crise económica das nossas vidas.

Contudo, não é absolutamente verdade que a crise seja igualmente devastadora. É, curiosamente, uma crise mais de líderes de mercado, do que de pequenas empresas (outra coisa, é a capacidade de resposta, de uns e de outros); certamente mais das grandes cidades e do litoral, do que do interior; de forma evidente, com impactos sectoriais diferenciados, com especial relevância para o sector do Turismo.

O diabo acabou por chegar, quando menos se esperava, de onde menos se imaginava, e atingindo como um raio o sector mais saudável, que mais atraía, que melhor crescia – o Turismo.

É justo reconhecer que, inicialmente, o Governo reagiu de forma rápida e efectiva. O lay-off simplificado constituiu um poderoso instrumento de apoio a fundo perdido, o microcrédito integrou um apoio específico às mais pequenas empresas, inovador e efectivo, várias linhas de financiamento foram disponibilizadas.

É igualmente justo perceber que o tempo esperado para a duração da crise foi, inicialmente, mais curto. Em março, falava-se em trabalho normal em julho, em maio ainda se sonhava com um agosto normal. Infelizmente, hoje sabemos que, para o sector turístico, a reentrada em cena da mobilidade internacional e da confiança para viajar será tema para, na melhor das hipóteses, 2021.

Ou seja, ficou entretanto absolutamente claro e cristalino, que as empresas terão de ter acesso a apoios mais diversificados, durante mais tempo.

Por razões que têm a ver com as empresas?

Muito mais do que isso, por razões estratégicas relacionadas com a economia portuguesa.

Por razões que têm a ver com o emprego, com a capacidade de Portugal exportar, com o crescimento do PIB, com o reequilíbrio das contas externas. Por outras palavras, ninguém deve ter vergonha de apoiar as empresas do sector do turismo, visando a sua sobrevivência. São elas que vão, no início da recuperação, garantir o crescimento, acrescentar emprego, liderar as exportações, reequilibrar as contas externas. Porque, por muitas apostas estratégicas que se façam em relatórios, na vida real o crescimento não resulta de uma escolha, resulta da competitividade internacional de um sector, e, nesse aspecto, todos sabemos que o Turismo português é muito mais competitivo do que a economia portuguesa em geral.

Impõe-se então, para o sector do Turismo, e para as agências de viagens em particular, a manutenção do lay-off simplificado até final do ano, e a disponibilização de linhas de apoio à recapitalização das empresas, incluindo as mais pequenas, e integrando modelos de fundo perdido.

Infelizmente, depois de uma, já reconhecida, intervenção rápida e efectiva, temos assistido a uma, pelo menos aparente, maior contenção no apoio estatal. Maior lentidão na decisão e, a dar como verdade algumas publicações referentes aos próximos regimes de lay-off, menor efectividade no apoio.

Dando a ideia de que, percebendo-se a gravidade da crise, simplesmente não se tem orçamento para a resposta.

Mais do que compreendo a situação, sei bem o peso da dívida pública no quotidiano económico nacional. Mas é precisamente nestes momentos de excepção, que temos de nos subjugar à realidade e encontrar, na «realpolitik», os princípios da sobrevivência. Foi assim com o novo banco, foi assim com a TAP (ainda bem!); terá de ser assim com o sector do turismo em geral, sob pena de termos um terramoto sectorial, que impediria a existência de uma estratégia de recuperação assente na competitividade internacional dos sectores exportadores.
Que triste seria, desistir a meio, e reconhecer que, mais do que uma estratégia com um custo, tivemos um dinheiro, que já gastámos , sem estratégia!

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