Histórias do Turismo| De Portugal e “dos Algarves”

Por a 14 de Julho de 2020 as 12:28

O escritor portuense Raúl Brandão, descendente de pescadores, sendo o mar um tema recorrente na sua obra, escreveu no Algarve: “Pela portinhola do comboio vou seguindo a paisagem de figueiras e vinhas que desfila. (…) Os nomes das estações têm um sabor a fruto maduro e exótico (…). Ao longe, e sempre, acompanha-me o mar, que mistura o seu hálito a esta luz vivíssima.” (Raúl Brandão, “Os Pescadores”, 1923).

O caminho-de-ferro já chegara há décadas, e outros factores ajudaram a acelerar a actividade turística do Algarve, como o Congresso Regional (1915) e um interesse enfocado na Praia da Rocha, incluindo o Projecto de Estação Balnear e Estação d’Inverno na Praia da Rocha (Raúl Lino, 1924) e depois, em 1932, a abertura do Grande Hotel da Rocha (antiga Pensão Viola) e a remodelação do Casino da Praia da Rocha. O arranque do transporte rodoviário público e privado facilitou a frequência de banhistas e a criação de outros aglomerados de veraneio. Mas, na época, Lisboa, o Funchal e os Estoris representavam 88% das diárias turísticas (1939). O Algarve era terra distante para quase todos os Portugueses.

A proto-história do turismo algarvio antecedeu o arranque definitivo, após a II Guerra Mundial. Em 1961, César Moreira Baptista, Secretário Nacional da Informação, Cultura Popular e Turismo (SNI), realizou, no Palácio Foz, um Colóquio Nacional para debater as grandes questões do turismo nacional. A representação do Algarve impressionou, não apenas pelo número, mas sobretudo pela qualidade das intervenções e pelo conteúdo programático das questões e propostas a colocar ao Governo.

Domingos Uva investe no Hotel Vasco da Gama, em Monte Gordo, o primeiro hotel moderno do Algarve, e a “Condeça Hotéis, Lda.” constrói a Residência “C Mar”, em Armação de Pera. Surgem as primeiras unidades hoteleiras classificadas como de cinco estrelas. John Benedict Stilwell cria o Penina (1966), em terrenos de arrozal, e Henri Cotton, o golfe, ficando a marca do principal golfista britânico; Artur Cupertino de Miranda dá vida à imensidão das terras do Morgado de Vilamoura, cuidando de preservar a milenária vila romana; Vale do Lobo torna-se cosmopolita com a Costin-Trust Houses, a que se seguiu Sander Van Gelder; Agostinho e José da Silva levam a Torralta para o Algarve; e a Quinta do Lago foi o sonho feito realidade de André Jordan.

A partir dessa década, o Algarve não mais pararia, cujas praias foram sendo equipadas com aldeamentos turísticos, hotéis, campos de golfe, marinas. O seu crescimento turístico sentia-se pulsante, vigoroso e dinâmico, num ritmo que, por vezes, terá ultrapassado a capacidade de resposta do sector primário e até dos serviços, mas o investimento imobiliário e a criação de infraestruturas absorveram meios humanos a todos os níveis e, como tal, foi importante para o mercado de trabalho nacional. O debate nascia sobre qual o tipo de turista ideal para Portugal (Congresso de Estudos Turísticos, 1963). Os planos regionais incorporaram o ordenamento turístico do território (1963, 1966) e abertura do Aeroporto de Faro (1965) foi determinante.

Animação de dia e de noite, e Albufeira torna-se o epicentro: abrem as primeiras discotecas e bares, onde Neville Roberts cria a famosa discoteca “7 e Meio” e Harry Warner torna célebre o Bar Sir Harry’s (1963); Fernando Barata, vindo da Suíça, abre o restaurante Fernando (1967) e passa a dirigir o Hotel Sol e Mar (1974). A 27 de Maio de 1965, Paul McCartney chegou pela primeira vez a Portugal e escreveu a letra de “Yesterday”, no trajecto que separa o aeroporto de Lisboa da casa do também músico Bruce Welch (The Shadows). Concluiu assim o tema que musicalmente iniciara no ano anterior, fazendo a letra melancólica, que, na minha opinião, foi inspirada na paisagem percorrida: “Now I need a place to hide away”. É que, por vezes, um detalhe da história pode tornar-se numa campanha promocional, com repercussões ilimitadas, mas que ainda não potenciámos. Tal como tem sido a história de Cliff Richard, que comprou uma residência e, mais tarde, se tornou vitivinicultor e um divulgador do Algarve.

José Carrasco escrevia que os novos investimentos eram “pequenos mundos (…), mas todos rodeados de convidativos oásis de solidão, onde se pode gozar o prazer de um regresso à natureza sem abdicar do conforto da vida moderna.” (“Algarve”, 1968), precisamente no ano em que Carlos Mendes levou à Eurovisão o tema “Verão” e Paul McCartney voltou ao Algarve. Nove anos depois, no Festival RTP da Canção, o Grupo Férias ostentou, nas suas camisolas, as palavras “Férias”, “Portugal” e “Algarve”, mas lamentavelmente não foi à Eurovisão.

Os turistas interessavam-se, não só pelo sol e pelas praias, como também pelas comunidades de pescadores e pelas lotas do peixe, que ainda constituíam um “meeting-point” diário vivo, bem como pelos mercados e restaurantes, que fariam da mesa algarvia uma carta de peixes frescos e de mariscos, de jantares de feijão e de grão, da doçaria tradicional e dos vinhos, colocando o Algarve numa posição singular e referenciado. Porém, as décadas seguintes deram-nos desequilíbrios no ordenamento territorial e um forte lisonjeio aos estrangeiros. Mas, presentemente, o Algarve não pode deixar de contar com os Portugueses, como se vê por estes dias.

Por Jorge Mangorrinha, Investigador em História do Turismo

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