Opinião | Uma Estratégia de Recuperação Económica para Portugal

Por a 9 de Julho de 2020 as 15:06

Nos últimos meses, as nossas atenções centraram-se sobretudo na evolução da curva epidémica relacionada com os efeitos nefastos do novo coronavírus e na capacidade de resposta do Serviço Nacional de Saúde na prestação dos devidos cuidados. Agora que já entrámos em período de desconfinamento e que voltámos a uma nova realidade, as nossas preocupações focam-se na curva económica recessiva, cujos efeitos começam a ser agora visíveis. É já hoje praticamente inegável a materialização de uma recessão sem precedentes, a qual implicará necessariamente uma deterioração das contas públicas, um aumento da taxa de desemprego e um aumento dos níveis de pobreza e de desigualdade na sociedade portuguesa.

As autoridades europeias têm tido uma postura mais pró-activa na procura de soluções para mitigar os actuais riscos recessivos, sobretudo em comparação com a inércia demonstrada na última crise económico-financeira. O Banco Central Europeu acentuou as suas compras de títulos de dívida pública em mercado secundário, o que tem permitido que os custos de financiamento do Estado português permaneçam baixos e mais ou menos controlados. E a Comissão Europeia anunciou um pacote de estímulo, o qual estará associado ao recebimento de cerca de 15 mil milhões de euros a fundo perdido. Ainda assim, este valor só deverá começar a ser recebido em Portugal a partir do próximo ano, o qual não deixa de ser bastante residual para todas as necessidades que se colocam na recuperação da actividade económica no imediato. Este montante servirá essencialmente para financiar as principais despesas do programa de estabilização económica e social, que foi recentemente apresentado por parte do governo português.

Num contexto de queda da actividade económica na generalidade dos países, uma estratégia assente na promoção das exportações poderá ser infrutífera no curto-prazo. Mesmo a evolução do sector do turismo – importante motor da economia portuguesa nos últimos anos – deverá continuar a ser bastante tímida, tendo em conta os receios que persistem na população global de viajar, pelo menos até à descoberta de uma vacina ou de um tratamento eficaz para a Covid-19. Assim, o foco de qualquer estratégia no curto-prazo deverá assentar essencialmente na recuperação de rendimentos das famílias de forma a revigorar a procura e assegurar a sobrevivência das empresas através do aumento das suas vendas. Paralelamente, os investimentos deverão recair sobre a modernização e expansão dos processos produtivos em sectores com maior valor acrescentado e na requalificação da população, promovendo-se assim um maior dinamismo da procura interna e uma certa substituição de importações.

Por Ricardo Barradas, Professor Universitário ISCAL – Instituto Politécnico de Lisboa
Artigo publicado na edição de 19 de junho do Publituris

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