Opinião| “Um novo escapismo”

Por a 14 de Maio de 2020 as 11:29

Turismo é uma forma de escapar. Às rotinas. À pressão. Ao stress. Saímos de onde estamos e acreditamos que, quando vamos para um novo lugar, somos transformados por uns dias. E como acreditamos, melhoramos. Mesmo quando vamos em trabalho, há uma certa forma de escapismo. O quarto não é o mesmo. A paisagem não é a mesma. O dia não parece o mesmo. Sentimo-nos mais livres. Dom Delillo dizia que “ser turista é fugir da responsabilidade, os erros e os defeitos não se colam a nós como em casa”.
A COVID-19 teve uma espécie de efeito Chernobyl no setor. Só de pensar em viajar dá-nos pele de galinha. Não nos imaginamos a ficar noutra casa que não seja a nossa, tão cedo. Mas, ao mesmo tempo, sentimo-nos mais presos do que nunca. A necessidade de escapar nunca foi tão forte.
Não está morta, está latente. Enquanto o ser humano se quiser libertar, há futuro para o setor. Mas muita coisa tem de mudar. Quando o nevoeiro levantar, as pessoas vão voltar, mas vão a medo. É o medo que se deve começar por atacar. Uma marca é uma relação com pessoas. Se as pessoas têm medo,  temos de lhes dar os instrumentos que lhes façam acreditar que não há nada a temer.
O objetivo deve ser escapismo em segurança. Não apenas para hotéis específicos, mas para o setor. Para atingir esse posicionamento, os hotéis podem fazer várias coisas. Parcerias com marcas ligadas à saúde. Cadeias de clínicas, redes de hospitais, etc. Marcas que antes provocariam uma relação de repulsa junto dos hóspedes (quem é que antes queria pensar em saúde quando ia de férias?…), mas que agora são bem-vindas.
No plano interno, dar formação em saúde aos seus colaboradores para que todos saibam como proceder em situações de potencial contágio. Criar equipas especializadas em desinfeção que façam o tratamento de cada superfície de forma perfecionista. Criar uma organização de hotéis, por iniciativa do setor e não do Estado, que monitorize os hotéis. Uma ASAE dos hotéis que garanta que todos os que cumprem as suas normas e que deixe o seu selo de segurança atribuído.
Criar novos canais de comunicação com os clientes mais fiéis, explicando o que estão a fazer. Preparando-os para avaliações de rotina (ex. tirar a temperatura) que terão de fazer quando se hospedarem nos seus hotéis. A relação tem de ser alimentada com comunicação. Se não os podem receber, façam-nos sonhar. Digam- lhes que estão a aproveitar este intervalo para os receber melhor.  Com segurança. Com limpeza. Com garantias de que se trata de um espaço que é um (ex.) PPP (“pandemic prevention place”).
Este novo propósito de escapismo com segurança deve ser mais do que um mero procedimento de segurança, deve passar a fazer parte da identidade das marcas dos hotéis. As pessoas devem acreditar que os hotéis se reinventaram. E que redescobri-los vai valer pena, porque nos vamos poder libertar de novo ‘risk free’.

Por Ricardo Miranda, Founder and Creative Partner da Wonder Why
Artigo publicado na edição de 01 de maio do Publituris

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