Opinião| Que caminhos seguir? Analisar o passado & antecipar o futuro

Por a 11 de Maio de 2020 as 9:04

Quando fui convidado para redigir um artigo de opinião aceitei mediante a autoimposição em conseguir abordar novos ângulos, de forma imperiosa que os mesmos fossem concretos e objectivos, desafio este ambicioso mediante a incerteza actual. Na minha abordagem simples e directa procurarei vislumbrar caminhos para o presente através de uma reflexão, em primeiro lugar, sobre o futuro e mediante uma observação do passado.

FUTURO:

O futuro é incerto, para mais ao nível do sector do turismo e face a realidade actual. De forma imediata é impreterível salientar o meritório sucesso comportamental e de actuação da sociedade no geral, da população portuguesa e das as instituições vigentes em concreto, no controlo da propagação do vírus, pelo menos até ao momento actual. O trajecto bem sucedido beneficiou da conjugação de diversos factores, nomeadamente do enorme sentido de responsabilidade dos portugueses, por outro lado, a introdução célere de medidas por parte das autoridades centrais e beneficiamos de factores “endógenos” como uma única fronteira terrestre, etc. O sucesso teve efeitos positivos em termos de saúde pública e na reputação internacional do país, situação que leva o sector do turismo a contemplar enormes esperanças nesse reconhecimento para relançar a procura por parte dos estrangeiros . Creio que o caminho iniciado não deve terminar no controlo da pandemia em si, caminho esse ainda longo, mas refiro-me a uma perspetiva de longo-prazo. A primeira ideia que gostaria de desenvolver prende-se com este ponto.

A grande maioria dos países utiliza uma única medida para avaliar o desempenho de sua economia: o Produto Interno Bruto (PIB), o qual mede o valor total dos bens e serviços produzidos em um determinado ano pela economia do país. Contudo, esse indicador não informa se o crescimento do PIB foi acompanhado por um crescimento no bem-estar e na felicidade das pessoas . Hipoteticamente podemos estar perante uma situação de crescimento económico (medido pelo PIB) mas com uma quebra no índice de felicidade e bem-estar, esta dicotomia é frequentemente observada em diversos países ocidentais nomeadamente na Europa.

A preocupação do país em medir aspectos sociais e ambientais teria um sucesso imediato na percepção internacional (a nível do turismo, captação de investidores, captação de “residentes”, maior adaptação ao mindset e às prioridades das gerações mais novas, etc) e contribuiria para o desenho de políticas mais amplas para beneficio dos cidadãos residentes e de protecção ambiental. O caminho iniciado no controlo da propagação do COVID-19 poderia ser a génese de algo mais profundo, amplo e com diversos elementos positivos para os residentes e na captação de estrangeiros.

PASSADO:

Numa observação ao passado, a marca Portugal ganhou protagonismo internacional e o destino é actualmente associado a aspectos muito positivos, nomeadamente: qualidade, segurança, versatilidade dos players , etc. A capacidade em dotar o país no caminho da competição pela qualidade é , na minha opinião, um marco difícil, digno de registo e para o qual foi necessário um forte investimento cumulativo.

Neste processo de credibilização há um contributo misto dos actores: das entidades públicas e respectivas equipas (parte delas num trabalho permanente nos países alvo), de forma complementar uma vincada promoção internacional permanente das empresas privadas quer de forma digital quer presencial. De realçar ainda a qualidade de actuação operativa das equipas e a muito elogiada qualidade de grande parte das infrestruturas privadas e públicas existentes. Este caminho foi feito de erros que proporcionaram aprendizagem, as equipas ao longo desta jornada muscularam e criaram sinergias e os portugueses mais uma vez demonstraram que estão altamente preparados para competir num mundo global beneficiando da sua formação académica, da sua permanente capacidade criativa e de inovação (e de muitas outras capacidades técnicas e de soft skills). Um dos maiores riscos actuais é a perda de valor mediante o desmembramento de equipas, a saída do mercado de algumas das empresas que fizeram parte do sucesso desta estratégia  e do inevitável  desinvestimento do processo em curso.

O turismo terá um ponto de ignição da recuperação mais tardio face a muitos outros setores, por seu turno o timing do confinamento é despoletado logo após a época de Inverno com menor ou nulo desempenho de tesouraria e antes do florescer da procura a partir da Primavera.

A constatação dos aspectos sumariamente destacados nos parágrafos anteriores, realçando ainda o contributo do sector do turismo ao nível do PIB nacional e na criação de emprego em Portugal, na minha opinião é uma necessidade imperativa contemplar o turismo com medidas de apoio mais amplas temporalmente para que a perda do valor cumulativo da “marca Portugal” e da capacidade de execução não seja lapidado de forma tão acentuada. Um destino turístico com empresas de turismo fracas e descapitalizadas não conseguirá competir pela qualidade dos serviços e da execução operativa.

PRESENTE: CONCLUSÕES

Nesta fase de muitas interrogações e dúvidas, onde todos procuram respostas, trabalhar com base em convicções concretas permite maior grau de certeza nas decisões.

Indubitavelmente que o país necessita de dar continuidade a sua credibilidade internacional e a introdução de um indicador anual que contemple a medição do desempenho económico mas igualmente de elementos ambientais e de felicidade & bem-estar da população residente (para mais quando o nossos país é muitas vezes valorizado por elementos não económicos), estou convicto que poderia ter um enorme sucesso e seria o despoletar de uma estratégia de futuro.

Por seu turno, o sucesso recente no turismo não pode ser lapidado mediante a incapacidade das empresas de turismo de actuarem em qualidade e é imprescindível terem capacidade para investir, é fundamental um mecanismo de apoio ao sector durante um período temporal mais amplo senão o risco de perda de valor será grande e a recuperação será mais distante e incerta (condicionando o efeito multiplicador no emprego e junto de outros sectores de actividade).

As empresas de turismo assumiram-se como “Embaixadores do Crescimento,  com um impacto positivo em tantos outros sectores, é fundamental proteger os “Embaixadores do Crescimento”.

Por Ricardo Ferreira, Managing Partner da Osiris

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