Opinião | “Vá para fora cá dentro” europeu

Por a 8 de Maio de 2020 as 11:10

Por Alfredo Tavares, diretor de operações My Story Hotels

O início de 2020, estava a ser bastante prometedor em termos económicos, até sermos apanhados desprevenidos.

Desprevenidos com o aparecimento repentino e em força da COVID-19 – apesar dos avisos vindos do Oriente que, antes, em situações semelhantes, nunca nos conduziram a isto, mas que, desta vez, nos obrigaram a fechar Portugal, a Europa e o Mundo!

Todos sabemos o que aconteceu, todos vamos sabendo o que está a acontecer, mas não sabemos, ninguém sabe, o que vai acontecer!

Por isso, temos de começar já a pensar sobre o que iremos fazer para que consigamos reverter, para que consigamos não só sair, mas sair bem de toda esta crise.

Mais do que fazer contabilidade do que se perdeu – porque, tendo chegado ao ponto de termos tido faturação zero, as contas não serão tão difíceis de fazer – teremos de encontrar soluções para sair de tudo isto.

Sair, sim, porque o pior que nos poderá acontecer é perdermo-nos em discussões intermináveis, arranjarmos desculpas, todas aceitáveis, mas não sabermos encontrar e pôr um ponto final em toda esta situação, prolongando o que não pode continuar a existir.

Foi compreensível – até – a existência de alguma descoordenação na Europa, já que a chegada do vírus ao nosso Continente não foi igual em todos os Países e, por isso mesmo, a resposta de cada Governo tenha dependido muito da sua própria iniciativa, sem grande (quase arriscaria, nenhuma) articulação, em timings diferentes e com soluções e medidas diferentes.

Apesar de o conseguirmos compreender, temos hoje de considerar como totalmente errada a forma como a chegada da COVID-19 à Europa foi encarada!

E em Portugal?

Apesar de termos um Turismo de Portugal bastante ativo, dinâmico e que rapidamente tomou decisões importantes e com muito boas ideias para a revitalização do turismo, teremos também – com toda a frontalidade – de reconhecer que a maior parte delas foram assumidas um pouco fora de tempo!

Por isso, talvez contra a corrente generalizada, não encontro qualquer vantagem em, a curto prazo, olhar para o nosso umbigo e tomarmos medidas avulso que, apesar de boas, individualmente consideradas, em nada irão mudar a situação que vivemos.

Há que ser mais ambicioso!

Ninguém considerará como possível voltarmos a ter turistas a chegar, por exemplo, de Espanha, do Reino Unido, da Alemanha, de Itália, etc., se, em cada um destes Países, não tiverem a sua situação interna, no que à COVID-19 diz respeito, resolvida.

Creio ser unânime a ideia de que ninguém pensará em viajar numa altura destas, se continuarem a existir tantas dúvidas, por muitas garantias que haja no país de destino (de que a mensagem do governo alemão, a desaconselhar as viagens até meio de junho, é um bom exemplo).

Quando chegamos ao ponto de ter as Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores – embora no exercício dos seus direitos constitucionais – a decretarem medidas diferentes das que são  fixadas, para o Continente, pelo Governo da República, sabemos que ninguém fica a ganhar pelo menos na área do turismo!

Ora, em termos do setor, importa reter a forma errática com que a Europa (não) tratou esta crise.

O que nos obriga, a todos, a pensar o regresso do turismo a nível global, neste caso a nível europeu, tendo em vista o muito curto prazo, ou seja para produzir efeitos ainda em 2020.

Aproveitando o dinamismo e proatividade do Turismo de Portugal, a imaginação do Turismo de Espanha e juntando, obviamente, as estruturas de países mais fortes como a Alemanha, a França, o Reino Unido e, também, a Itália (enquanto País mais mediático, pela negativa, na crise gerada por esta pandemia), seria fundamental criar uma espécie de “task-force”, de forma a que os responsáveis do Turismo de cada um destes Países, conseguissem, em conjunto, definir um plano global, a nível europeu, que fosse capaz de esquecer a promoção do destino, e se preocupasse, antes, com a promoção do turismo, por si só!

Com a inclusão, tão óbvia quão necessária, das companhias aéreas, que poderemos considerar como a “ignição de toda a retoma do setor turístico”!!!

Temos de fazer com que os cidadãos voltem a confiar, que, com base nessa confiança, voltem a viajar, em segurança, apesar de saber que o vírus continua presente, mas passando a saber viver com a sua existência, como sempre fomos capazes de viver “paredes meias” com causas de morte bem mais letais!

Temos de saber tomar medidas e dar garantias, ao nível da Europa, desse viajar em segurança.

Como, por exemplo, a excelente ideia do selo Clean & Safe (apesar de saber os riscos da interpretação literal das palavras usadas, já que clean sempre foi uma garantia que não precisa de ser publicitada e safe, na sua versão original, pode ser um perigo, por nada se poder garantir, em termos absolutos). Essa ou outra, mas que essa qualificação fosse, isso sim, uma garantia, europeia, de cumprimento rigoroso de todas as normas exigidas, facilmente identificável pelos destinatários à semelhança, por exemplo, da atribuição da bandeira azul nas praias.

O mais importante é conseguirmos adotar medidas que abranjam todos os países, em que se promova e anuncie que a Europa, enquanto Continente, é um destino seguro, porque segue regras importantes,

Só depois disso seria admissível, em uníssono, ir pelo slogan “vá para fora cá dentro”, mas considerando o continente europeu como um todo. E não ter um slogan como este, em cada um dos países, até porque, Portugal, apesar de ser um excelente destino, por força da sua dimensão, deixa de ter escala para a oferta que tem, já que somos, como é sabido, um dos Países que mais depende do turismo para o seu bem-estar e crescimento económicos.

Só aí – com o turismo europeu de alguma forma consolidado e seguindo as regras impostas para todos ao nível de higiene e segurança – poderíamos passar à fase seguinte, onde sempre estivemos e para onde, de novo, nos querem fazer caminhar, em que cada País se promove a si próprio, com excelentes ideias, é certo (como as que têm vindo a ser seguidas pelo Turismo de Portugal), mas que não nos deixa de levar a questionar se, nesta fase, e com esta situação, será suficiente!

Os nossos hotéis e restaurantes deverão ser os que mais se estão a preparar para o regresso e que, eventualmente, não precisarão de garantias de selos nesta fase (ate porque, “antes do selo” já todos partilhávamos ideias de limpeza e higienização e sempre tivemos em mente que este era o ponto que teríamos que apostar na mudança de paradigma que percebíamos estar a surgir).

Ora, para promover o país seriamente – e não estou só a pensar no que ao turismo diz respeito, mas antes tendo em vista o bem-estar da população – devemos focar-nos nas garantias dadas nos transportes públicos (metro, autocarros, elétricos, barcos, comboios), onde, aí sim, também seria bem-vindo um outro selo de garantia.

Finalmente – e até ao fim da pandemia – seria fundamental oferecer máscaras e gel sanitário nas ruas, gratuitamente, olhando para esta distribuição não como um custo, mas antes como um investimento de prevenção na propagação do vírus.

Assim, seríamos capazes de passarmos a imagem de um país todo ele Clean & Safe, e não só nos hotéis, que sempre o foram e serão, mas que precisam – hoje – dessa garantia, para voltar a ser a alavanca do desenvolvimento e do crescimento económico de Portugal.

3 comentários

  1. Paula Coelho

    11 de Maio de 2020 at 11:03

    Muitos Parabens Alfredo pelo artigo!
    Muito claro, objectivo e realista pela avaliaçao da situaçao.
    Um enorme sentido inovador de como devemos reunir os nossos esforços à procura de soluções que todos queremos e precisamos.
    Seria agora importante que todos os profissionais do Turismo arregaçassem as mangas e pusessem maos à obra.
    Muito Bom!

  2. Nuno Teixeira Dias

    11 de Maio de 2020 at 10:53

    Excelente texto!

  3. Ana Cristina Freiria

    10 de Maio de 2020 at 11:04

    Um artigo bastante claro, objetivo e assertivo.
    Com uma ideia genial a Europa efetivamente tem que se unir mais que nunca.
    Adorei!

Deixe aqui o seu comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *