Opinião | Voos No Cost como impulsionador do turismo internacional no arranque pós covid-19

Por a 7 de Maio de 2020 as 9:50

Por João Costa, CEO do Grupo Turima

Portugal é um país integralmente turístico, sendo que todos nós, directa ou indirectamente, já sentimos o impacto negativo do Covid-19 neste setor chave da economia portuguesa.

O turismo, no que respeita à receção de turistas e visitantes estrangeiros, é um dos pilares chave para o sucesso económico e social que se viveu nos últimos anos em Portugal, motivado pelo aumento exponencial das exportações diretas geradas pelo consumo de visitantes de outros países dentro do nosso próprio país.

Basta para isso observarmos dados concretos do impacto da atividade: o aumento do emprego no turismo (gerando 336,8 mil empregos em 2019), com um peso de 6,9% na economia nacional, e com um ritmo de crescimento das receitas turísticas (+8,1%). Em números redondos: mais de 18 mil milhões de receitas turísticas em 2019, injetados diretamente na economia portuguesa.

A questão primordial que agora se levanta no setor é: que medidas e decisões devem ser tomadas no sentido de se captar novamente a procura que já havíamos conquistado, ou, pelo menos, a curto/médio prazo, parte dela? Fala-se, numa primeira fase, da importância do turismo nacional, assim como da possibilidade de ser dada alguma prioridade ao turismo dentro da Europa, com incidência nos voos e escalas de menor alcance.

No entanto, enquanto empresário da área do turismo, e também baseado no permanente diálogo que tenho mantido com outros parceiros e players do setor, vejo com alguma relutância a retoma à normalidade pré-Covid, sem que a recuperação seja alicerçada nos turistas estrangeiros.

Afinal, com que fator diferenciador e de captação de procura turística, conseguirá Portugal atrair turistas nos próximos tempos?

De que forma poderá Portugal, ou suas regiões, diferenciar-se para captar a procura internacional? Que necessidade terão as pessoas oriundas de outros países de visitar o nosso país? Que argumentos temos para fazer face à incerteza que se vive, aliada à sensação de insegurança de entrar num aeroporto ou numa aeronave?

É certo que a comunicação assente na segurança contra infecções é inquestionável e o Turismo de Portugal está já a desenvolver, de forma exímia, um conjunto de ações para que esse fator diferenciador chegue aos principais mercados emissores.

Tenho lido que as companhias aéreas, assim como os aeroportos, preparam um conjunto de medidas de segurança anti-Covid, que procuram minimizar ao máximo a possibilidade de risco, salvaguardando a integridade e segurança dos seus passageiros e utentes.

No entanto, creio que o fator preço, principalmente no que diz respeito a passagens aéreas de curta distância, assume aqui um papel crucial e fundamental para a captação da procura e, principalmente, para incentivar a visita a um determinado destino ou país. Note-se que, nos últimos 10 anos, o grande impulsionador da atividade turística global, com especial incidência no fluxo turístico dentro do espaço europeu, foi motivado pelas grandes campanhas levadas a cabo pelas companhias aéreas Low Cost.

Não existem, portanto, dúvidas de que um dos grandes fatores da dinâmica da indústria turística assentou, e assentará no pós-Covid, no atrativo preço das passagens aéreas.

Neste contexto, surge aqui a oportunidade e necessidade de se implementar, no atual panorama e contexto em que o turismo vive, um modelo de passagens aéreas No Cost. Sim, leu bem, voos gratuitos para turistas provenientes dos Países emissores.

Desde 2010 e aquando da minha participação no “online contest” da Amadeus Travel “Ideas for the Future”, que defendo que este modelo deve ser implementado em alturas de grande crise do setor do turismo – abordagem esta que assenta como uma luva no atual panorama que vivemos no sector.

Imaginemos uma promoção “Barcelona-Lisboa por €0”. Suponhamos que, a curto/médio prazo, é dada a possibilidade aos 16 milhões de turistas estrangeiros que nos visitaram em 2019 (ou pelo menos, a uma parte dessa fatia) de viajarem para Portugal a custo zero.

O Modelo No Cost:
De que forma é que as companhias aéreas teriam o seu income financeiro assegurado para operarem voos gratuitos? São várias as possibilidades para que possa ser criado e implementado um modelo No Cost nas passagens áreas:

• Pode passar pela obrigatoriedade de reserva de alojamento por um determinado número mínimo de dias de estadia estipulado, para que o turista possa ter acesso ao seu bilhete de avião No Cost. Assim, garantir-se-á a permanência dos visitantes internacionais no destino durante um período mais longo. O retorno financeiro e económico de uma estadia mais longa, para além do income gerado na reserva do alojamento, repercutir-se-á, também aqui, no retorno económico indireto mas imediato para a região, por via dos gastos efetuados, durante esse período, em restauração, atividades, lojas, comércio, empresas de animação e outros players que, direta ou indiretamente, beneficiariam do impacto económico positivo que é gerado pela procura turística.

• A solução pode também passar pela criação de uma plataforma online “Visit Portugal for free”, promovida pelo Turismo de Portugal e diferentes regiões, que agregue simultaneamente players da aviação com unidades hoteleiras e Destination Management Organizations. Exemplificando: o turista entra na plataforma, reserva o seu voo gratuito para um determinado intervalo de datas e destino (Porto, Lisboa, etc), e é-lhe automaticamente sugerido um alojamento em regime não reembolsável. Após reserva e pagamento do alojamento, o bilhete de avião é emitido. A plataforma garante assim que uma parte do custo do bilhete de avião é assegurada pelo alojamento associado a essa reserva, e a outra parte é assegurada pela DMO do destino do alojamento (Turismo do Porto e Norte de Portugal, Associação de Turismo de Lisboa, etc.).

Aprimorando este modelo de viagens num determinado destino, e em parceria e diálogo entre os vários agentes públicos e privados do setor, entidades regionais do turismo e entidades privadas, define-se qual a melhor forma de financiar as companhias aéreas. Não é novidade que o modelo de aviação Low Cost sempre se alicerçou na ajuda financeira ou de subsídios diretos das regiões que beneficiam desse turismo nos vários destinos europeus. Agora, num esforço comum de estimular a procura num momento tão crítico, é fundamental e urgente que o Low seja substituído pelo No.

Veja-se que, no presente momento, Itália tem avançado com campanhas agressivas em que assume o pagamento de uma parte do bilhete de avião e do alojamento dos turistas que optem por visitar o país, aquando do regresso à nova normalidade.

A concorrência entre os destinos turísticos europeus, nos tempos vindouros, será uma realidade. O fator preço deve ser o fator distinção para criação de uma rampa de lançamento temporária mas eficaz neste setor. Portugal, enquanto destino turístico por excelência, com uma economia muito fortalecida pelo turismo, deve procurar ser competitivo e a resposta estará no preço. Creio que, só dessa forma, se mitigará o impacto da paragem abrupta da procura no setor e na economia, nos negócios locais e no país.

Devem, por isso, os decisores públicos e principais DMO´s nacionais adotar novas estratégias e dinâmicas mais arrojadas para atrair a procura internacional, de forma a mitigar o impacto negativo de uma paragem abrupta do sector que representou 15% do PIB em 2019.

 

 

Um comentário

  1. Carlos Costa

    8 de Maio de 2020 at 8:52

    Meu caro: permita-me um comentário. Refere no seu texto que o Turismo representou 15% do PIB em 2019. Em que fonte se baseia para fazer esta afirmação? Pergunto isto porque a Conta Satélite do Turismo, divulgada pelo INE, só tem dados publicados até 2018 e nesse ano o contributo da actividade económica do Turismo para a riqueza gerada em portugal foi de 8%.
    Obrigado.

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