Opinião| Turismo: preparar o futuro pós-pandemia

Por a 21 de Abril de 2020 as 9:01

Excesso de turismo no mundo, e particularmente no nosso país, era um tema que se abordava com alguma frequência nos tempos mais recentes. Discutia-se que os centros das nossas principais cidades estariam a ficar desertificados das suas populações autóctones, devido ao crescente aumento de unidades de alojamento local. Passadas as dificuldades levantadas pela conjuntura actual alguém se lembrará de levantar o véu para esta problemática de novo? Pouco provável. Como consequência da pandemia, o paradigma do negócio vai ser obrigado a sofrer uma mudança profunda, não só a nível de infra-estruturas, mas também ao nível relacional e comunicacional. Quando finalmente houver condições para o regresso dos players à actividade no mercado, deparar-nos-emos com um mundo novo. Admirável, como titulou Aldous Huxley a sua obra? Certamente que não. Muito diferente? Sim, indubitavelmente.

8% é a previsão do FMI para a recessão em Portugal, contrariamente a previsões mais optimistas do Governo português, como consequência directa da pandemia inesperada de Covid-19 que apanhou o mundo de surpresa e que o pode lançar numa depressão comparável à que foi originada pelo crash da bolsa de Nova Iorque em 1929, segundo os analistas. Nunca ninguém se lembraria de prever um tal cenário no início desta nova década. Os números dos dois primeiros meses de 2020 auguravam bons resultados, dando continuidade a um ritmo de, senão crescimento, pelo menos de estabilidade económica. Havia indicadores de alguma desaceleração da economia, mas não de uma crise tão abrupta, como esta que a pandemia veio criar. As notícias longínquas de uma nova estirpe de vírus soavam quase silenciosas e pouco preocupantes, pelo menos no ocidente, já que havia um histórico de episódios análogos de surtos virais num passado relativamente recente que não tiveram impactos assinaláveis na economia global.

O que criou uma falsa sensação de segurança e que se traduziu na ausência de preparação de quaisquer planos de contingência para a probabilidade de uma situação conjuntural como a que vivemos hoje. Por conseguinte, a catástrofe abateu-se transversalmente sobre a economia mundial, sendo o sector do Turismo e toda a sua cadeia económica o primeiro a ser castigado de uma forma violenta e nunca antes vista: companhias aéreas com a quase totalidade das suas frotas paradas no chão, a hotelaria a encerrar temporariamente a actividade, companhias de cruzeiros a suspenderem os programas dos seus navios, operadores turísticos a cancelarem as suas operações e agências de viagens a entrarem numa espiral de cancelamentos nunca antes vista e com vendas zero de um dia para o outro. Portanto, todas as pedras basilares da cadeia de valor paralisadas, passando de 80 a 8 num ápice, sem ter havido um prenúncio de que uma tal tempestade se avizinhava. E será passo a passo, com muita dificuldade, mas com a resiliência e a versatilidade que a este sector são tão comuns, que mais uma vez a batalha será ganha. Será longa ou breve consoante as pessoas e as empresas sejam capazes de se reinventarem e colocarem a sua pró-actividade e capacidade de adaptação em campo. Podíamos fazer várias citações pertinentes de figuras célebres, mas há uma frase de Einstein que merece reflexão em períodos como este: “…A criatividade nasce da angústia, como o dia nasce da noite escura. É na crise que nascem as invenções, os descobrimentos, as estratégias….”

Os efeitos desta pandemia vêm obrigar a rever e a reinventar toda a forma como neste sector as empresas desenvolvem a sua actividade, os profissionais trabalham e o que o consumidor final procura para satisfazer as suas necessidades de consumo face a esta nova realidade. Há muitas mudanças a fazer nos modelos de negócio que até agora existiam. Mais que nunca, num sector que é feito por pessoas e para pessoas, as relações P2P (person to person ou people to people), sejam elas empresa/cliente ou empresa/empresa, assumirão uma importância estratégica. Ao nível B2B a união e coesão entre sub-sectores do turismo assumirão mais que nunca uma importância primordial, e às quais não estava a ser dada a devida importância no período recente pré-pandemia.

Todos os sectores do turismo, nomeadamente os que estão mais a montante, tiveram, têm e terão toda a legitimidade em procurar os mais diversos canais de escoamento/distribuição de produto para procurar obter taxas de ocupação elevadas e aumentar as suas contas de resultados, com particular ênfase nos seus próprios canais directos. E aqui impõe-se a questão: não será a catarse provocada por esta pandemia o momento indicado para certos sectores da cadeia de distribuição analisarem quem são os verdadeiros parceiros, ao invés de lhes tentarem fazer bypass com concorrência desleal e diferenciação de pvp’s através dos seus canais directos ao consumidor final, como tem vindo a acontecer? Salvaguardam-se aqui, e obviamente, as muitas excepções que mantiveram essa parceria, que sempre existiu, leal e intacta.

No sub-sector mais a jusante da cadeia de distribuição, a agência de viagens tradicional (com estrutura física) esteve lá desde sempre a apoiar todos os outros sectores da distribuição, a desempenhar o seu papel na cadeia de valor, a fazer-se representar e a representá-los, com profissionalismo, a dar o corpo às balas na linha da frente da batalha. Aliás, hasteou bem alto a sua bandeira nesta crise pandémica, cumprindo na medida das suas possibilidades com o que lhe era exigido perante o consumidor final, remando sempre contra todas as adversidades. Desde há muitos anos este sub-sector tem visto a sua rentabilidade ser esmagada, mercê das políticas de redução de custos de distribuição conforme sempre foi argumentado, obrigando os empresários deste sub-sector a reinventar continuamente o negócio uma e outra vez, para se  manterem acima da linha de água. E que mesmo com essa ameaça contínua à sua sobrevivência conseguiu manter nas suas mãos uma percentagem assinalável de clientes que continua a reencaminhar para os sectores que fornecem os produtos e serviços. E será pela importante acção do consultor/agente de viagens tradicional, que depois de implementadas medidas e adaptadas as infra-estruturas às necessidades trazidas por esta nova realidade sanitária e de distanciamento social na prestação de serviços, que passará a mensagem de confiança e segurança ao cliente final numa determinada empresa/serviço, e também a redução dos receios e medos que este último terá em voltar a viajar, e a usufruir de todos os produtos e serviços. É pelo papel deste elo importante da cadeia que, através da proximidade, da familiaridade, do conhecimento profundo que tem dos seus nichos de mercado, da sua versatilidade em resolver problemas, que se conseguirá restabelecer progressivamente a confiança do consumidor. E é considerando este contexto de interligação sectorial, sempre num espírito de união de esforços, que os números do turismo progressivamente voltarão à velocidade de cruzeiro como motor, não só do turismo em si, como de um número infindável de outras actividades económicas que o complementam e que dele alimentam os seus negócios.

Ao nível da procura, a premissa é reconstruir a confiança do consumidor criando todas as condições para que volte a fazer turismo. Numa primeira fase, o turismo interno será a primeira prioridade do turista nacional, pois procurará destinos de proximidade, pouco massificados e que inspirem confiança, segundo as previsões. Portugal, pela sua qualidade hoteleira e a formação reconhecida dos profissionais deste sector nas mais diversas áreas, dispõe, portanto, de todos os ingredientes para conseguir um arranque que não será o ideal, mas que pelo menos conseguirá gerar algum revenue nesta primeira fase.

Para o turista internacional, no que respeita ao turismo de inbound/incoming, considerando a boa imagem que o nosso país já tinha como destino nas suas várias vertentes, junta-se agora a percepção de segurança e confiança que consegue transmitir durante o ainda vigente período de estado de emergência, pela imagem de disciplina e civismo transmitidos pela generalidade dos seus cidadãos. E tão rapidamente quanto possível sejam implementadas as medidas a que esta situação de pandemia veio obrigar para gerar confiança no turista, conseguirá certamente captar algum volume dos mercados mais próximos, como sejam os de Espanha, França, Reino Unido e Alemanha.

Para o turismo de outbound/outgoing, o desafio será maior, pois o escrutínio do consumidor será algo diferente daquele utilizado até agora, num sentido de maior exigência. Não só da componente preço, pois a crise veio afectar o poder de compra, e esta sempre foi uma variável sempre tida em conta, como também de outras que se lhe vêm juntar agora, no seguimento desta conjuntura de pandemia. O segmento de grupos e de cruzeiros, a par dos fluxos turísticos para destinos de massas, segundo algumas análises feitas em vários mercados, demorará um pouco mais a retomar, pelas razões óbvias da necessidade de distanciamento social. Obrigará as empresas vocacionadas para estes nichos a reinventarem-se, pelo menos num curto prazo enquanto a precaução assim o exija, e enquanto não haja solução médica para deter o vírus. Em todo o caso, há uma distância a percorrer, incomensurável neste momento, até se voltar a movimentar os volumes de negócio pré-pandemia com este tipo de segmentos.

Em todo o caso, está na mão dos Governos de cada país implementar as medidas necessárias que permitam criar os elementos de confiança para que o turista se sinta seguro, entre as quais pontos de teste espalhados em todos os pontos de partida e chegada como aeroportos, terminais de cruzeiros e estações de comboios para partidas internacionais, entre os mais importantes. Teremos, como se disse atrás, um paradigma novo pela frente em que a adaptação das empresas e dos profissionais é imperativa face a esta nova conjuntura. Quem melhor se souber adaptar às circunstâncias, com maior facilidade e mais depressa chegará a águas calmas.

*Por Nuno Tomaz, diretor comercial da GEA
O autor escreve segundo a antiga ortografia

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