“É ilusório pensar que o mercado interno e o mercado interno alargado vão ser alternativas suficientes”

Por a 3 de Abril de 2020 as 11:00

A crise está a ter um “efeito devastador” no tecido empresarial e em muitas organizações de turismo em Portugal e Lisboa não é exceção. “O desaparecimento brusco e total de clientes e de receitas é um cenário para qual ninguém estava preparado”, começa por referir Vítor Costa, diretor-geral do Turismo de Lisboa e presidente da Entidade Regional de Turismo da Região de Lisboa, em declarações ao Publituris, dando o exemplo da própria associação que dirige: “Dou o exemplo da ATL, uma organização forte, com receitas próprias previstas para 2020 de mais de 21 milhões, provenientes dos associados, rendas, alugueres de espaços, vendas de produtos a turistas, equipamentos, publicidade, resultados da sua empresa Lismarketing, entre outros. De repente, tudo fica em crise e uma parte será irremediavelmente perdida. Compreendo bem o drama das empresas, pois também estamos a viver a mesma situação. No entanto, a ATL vai sobreviver graças à sua estrutura de custos fixos leves e às reservas que constituiu, na altura com incompreensão de alguns. Mas muitos não conseguirão”.

Para o responsável do Turismo de Lisboa e da ERT-RL, a recuperação do Turismo “é uma incógnita” e explica porquê: “Por um lado, as pessoas vão ter necessidade de viajar, de sair de casa. Por outro, poderá haver uma “segunda vaga”, poderão continuar a existir limitações à circulação das pessoas por muito tempo, a crise económica que se segue poderá levar as pessoas a cortar nas viagens e, muito importante, não sabemos como vai ficar a estrutura do Turismo. Por exemplo, como vai ficar a aviação e como vão ficar os preços da aviação? Estas são questões chave, especialmente para um destino periférico como o nosso”.

ATL reforça apoio a congressos e eventos

A ERT-RL tem acompanhado a situação e tem “dado a colaboração possível” a todas as entidades públicas e privadas, “dentro das suas atuais limitações operacionais”.

Em concreto, a Entidade Regional tomou a decisão de flexibilizar e melhorar significativamente as condições de apoio aos Planos de Comercialização e Vendas das empresas, bem como as condições de apoio da ATL a congressos, eventos corporate e outros. “A lógica destas decisões é a prioridade na recuperação rápida de clientes para as empresas e, consequentemente, para o destino, logo que as condições o permitam, e estes são os instrumentos mais eficazes. Nestas ações com as empresas vai ser concentrado, em prejuízo de quase tudo o resto, o esforço promocional da ERT-RL e da ATL, com os meios bastante reduzidos de que vão dispor”, explica.

Sobre se as empresas vão ter capacidade para sobreviver a este período, Vítor Costa responde: “Penso que hoje todos já interiorizámos que as coisas não vão ficar como dantes, mas ninguém pode prever exatamente como vão ficar. Certamente que, apesar das soluções de emergência e apoios, muitas empresas não vão conseguir sobreviver sem clientes e sem receitas, mantendo alguns custos e aumentando o endividamento. Esperemos que, no essencial, o tecido económico se mantenha e que recupere a sua dinâmica, pois disso depende a continuidade do Turismo”. Para o responsável, a maior preocupação é a questão da acessibilidade aérea, “de que dependemos em 80%”. Ou seja, “se vamos continuar a ter boas ligações aéreas e a preços razoáveis. É ilusório pensar que o “mercado interno” e o “mercado interno alargado” vão ser alternativas suficientes, por poderem dispensar o transporte aéreo. O Plano Estratégico de Lisboa encara a Europa quase como “Mercado interno”. Este fornece 80% dos clientes, mas depende 90% do transporte aéreo”.

O que devem as empresas fazer?

“Neste momento, penso que todas as empresas estão a desenvolver estratégias de sobrevivência e a tentar definir e preparar, dentro do possível, o day after”, afirma Vítor Costa. “Para os que conseguirem, devem procurar ir um pouco mais longe, aproveitar para arrumar a casa, questionar as rotinas, pensar no que podem inovar, articular com os seus parceiros”, defende.

No entanto, o presidente da ERT-RL alerta: “É bom que não haja ilusões porque a crise é global e porque todos os destinos e empresas vão globalmente disputar os mercados, todos vão fazer campanhas de publicidade, muitos vão querer voltar a receitas tradicionais ultrapassadas como feiras e similares, e isso não traz nada de novo. Quem conseguir sobreviver, ser mais ágil e focalizar-se no essencial, tem mais condições de sucesso”.

Aspirinas tiram a dor de cabeça, mas não curam as doenças

As medidas já adotadas pelo Governo português para apoiar as empresas afetadas pelo surto de Covid-19 arrancam um elogio de Vítor Costa: “O nosso Primeiro-ministro revelou nesta emergência a sua capacidade de liderança, mostrou ser o pilar que dá confiança aos portugueses e marcou pontos nas instâncias internacionais. Outros membros do Governo estiveram à altura das circunstâncias, com destaque para o Ministro da Economia. Isto permitiu encontrar respostas positivas para apoiar as empresas e os empregos nesta fase, evitando uma hecatombe imediata. Parece-me que as medidas têm sido, em geral, corretas para o atual momento”.

Porém, Vítor Costa sublinha que estas medidas, que aliviam as tesourarias, “não são estruturais, como o próprio Governo reconhece, a CTP e várias associações empresariais têm referido”. No final do período de emergência, “as empresas que sobreviverem vão estar mais endividadas, praticamente vão começar de zero clientes, numa conjuntura de crise económica internacional e, provavelmente, com parte da concorrência a recorrer a políticas comerciais e de preços desesperadas”.

Globalmente, “muito depende ainda de quanto tempo vão demorar as restrições à circulação, como vai ficar a estrutura do Turismo e como é que os Estados e a União Europeia vão responder à crise económica e financeira, dívida pública, entre outros. Em qualquer circunstância, o tecido empresarial vai precisar de terapia prolongada, de medidas estruturais. Aspirinas tiram a dor de cabeça, mas não curam as doenças”, conclui.

Deixe aqui o seu comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *