Reportagem| São Petersburgo: A cidade dos grandes Czares da Rússia

Por a 27 de Março de 2020 as 15:27

Desde 1 de outubro de 2019, a cidade de São Petersburgo passou a disponibilizar um visto eletrónico para 53 países, incluindo Portugal. Gratuito e válido por 30 dias, o visto permite a visita à cidade e à região de Leningrado por um período de oito dias. Num incentivo claro ao aumento do turismo, nos primeiros dois meses em que a medida entrou  em vigor (outubro e novembro de 2019) foram aprovados 60 mil vistos, segundo os dados do comité de turismo de São Petersburgo. Mas, como não há bela sem senão, a plataforma apresenta ainda alguns erros que as autoridades de São Petersburgo esperam vir a corrigir até 2021. Anterior ao visto eletrónico, o número de turistas que visitou a cidade cresceu desde 2011, atingindo os 8,3 milhões em 2019. Nos primeiros noves meses de 2019, 8.306 portugueses visitaram o destino, mais 52% do que em 2018, ano em que São Petersburgo foi também palco do Mundial de Futebol.
As autoridades turísticas acreditam que este acontecimento potencioua procura pelo destino, que está no imaginário de muitos turistas e não faltam motivos para isso. Desde a sua história, intimamente ligada aos maiores czares da Rússia, até aos seus edifícios imponentes, passando pela sua imensa oferta cultural, com mais de 300 museus e 100 teatros, que fazem dela a capital cultural da Rússia.
São Petersburgo é normalmente visitada pelos turistas entre maio e setembro, período em que ocorre o fenómeno das noites brancas, ou seja, D não anoitece durante este período. O fenómeno deve-se à proximidade do Círculo Polar Ártico. As noites brancas começam aproximadamente a 20 de maio e estendem-se até às duas primeiras semanas de julho e são um dos principais motivos de visita à cidade. Mas o nosso grupo viajou em pleno mês de dezembro a convite da Air Baltic. Apesar do frio, comprovámos que a cidade é igualmente atrativa nos meses de inverno.
Para isso, também terá contribuído a nossa guia Natália. Natural de São Petersburgo, não se cansou de enumerar os motivos pelos quais se deve visitar a cidade fora da época alta. Guia há 20 anos, Natália tem assistido nos últimos anos à “invasão” dos turistas chineses a São Petersburgo.
Chega a mostrar sinais de irritação quando fala das enchentes de turistas que visitam as principais atrações da cidade, sobretudo o Museu Hermitage (um dos maiores do mundo) ou o Grande Palácio de Peterhof. “Para quem visita a cidade por causa dos museus, o verão não é a época ideal. A melhor época é até maio”, avisa, num português quase imaculado. Sabe que está a falar para um grupo de agentes de viagens e prontifica-se a dar as melhores dicas de viagem. “É desaconselhável visitar o Hermitage em certos dias do verão, porque é um autêntico banho turco, com milhões de chineses e de cruzeiristas”, brinca.
As dicas de viagem vão surgindo à medida que a cidade nos vai sendo dada a conhecer num tour de autocarro. Apesar de plana, São Petersburgo é uma cidade grande, com edifícios monumentais e avenidas com áreas generosas  A cidade foi fundada em 1703 pelo czar Pedro I, O Grande, que mandou construir uma fortaleza na foz do rio Neva. Pedro prontificou-se a tornar São Petersburgo a capital do império russo. À primeira vista é difícil imaginar por que razão o czar quis fundar uma cidade onde poucos imaginariam construir
algo, já que o clima era frio e a área pantanosa. Mas a razão está na posição estratégica que São Petersburgo ocupa, entre o Lago Ladoga e o Golfo da Finlândia. O Neva era a artéria que ligava o lago ao golfo e foi durante muitos anos uma rota mercante. Também é preciso lembrar que nesse período, o Império Russo travava a Guerra do Norte contra a Suécia. Pedro é uma figura incontornável da história da Rússia. Apesar da sua fisionomia alta, o cognome foi atribuído muito mais pelas suas obras reformistas, que aproximaram a Rússia do mundo ocidental e São Petersburgo é a prova disso mesmo. Foi um dos czares que mais tempo governou, a par de outras duas figuras, curiosamente mulheres, que também figuram na história de São Petersburgo e da Rússia. A sua filha Isabel, que governou entre 1741 e 1761, entrou na história da Rússia como a gastadora. Deixou 15 mil vestidos mas, mais importante, deixou palácios com salas adornadas a talha dourada, de que são exemplo a Sala Ambar, no Grande Palácio de Catarina, o Grande Palácio de Peterhof e as salas mais douradas do Palácio de Inverno do Museu Hermitage. A terceira monarca a destacar-se foi Catarina II, A Grande, cuja história inspira livros,
filmes e séries até hoje. De origem alemã, casou-se com o herdeiro do trono russo, Pedro III, neto de Pedro, O Grande. Pedro III governou apenas três meses, tendo sido destronado pela esposa, que era ambiciosa e inteligente. Mesmo não sendo de nacionalidade russa, Catarina teve o apoio da guarda russa e da igreja. Tomou a coroa em 1762 e governou durante 34 anos. Catarina ficou conhecida como grande legisladora e reformadora. Dizem que trocava correspondência com os filósofos franceses. “Vou morrer ou vou reinar neste país”, terá escrito no seu diário. Na verdade, teria acabado num convento se não subisse ao trono, porque era esse o desejo do marido. O dia da sua subida ao trono está ilustrado numa pintura exposta no Grande Palácio de Peterhof.
A obra mais icónica de Catarina, A Grande, é o famoso monumento a Pedro I, o “Cavaleiro de Bronze”, na praça do Senado de São Petersburgo. Catarina foi a última czarina da Rússia, uma vez que o filho Paulo I, assim que se tornou czar, depois da morte da mãe, mudou as leis de sucessão, proibindo a subida ao trono de mulheres. Esta medida tão radical de Paulo é explicada pelo ressentimento de ter aguardado durante 34 anos pela tomada da coroa. A história da Rússia e de São Petersburgo está repleta de intrigas palacianas, conspirações, amantes, às quais os palácios deram berço. Por isso, é aconselhável a visita com guia aos museus e palácios.

Museu Hermitage

São Petersburgo tem uma grande oferta cultural, com destaque para igrejas, praças, museus e teatros. A esta oferta acrescem ainda os palácios e jardins localizados nos subúrbios, que são igualmente obrigatórios, pelo menos a visita a um deles.
A maior atração cultural de São Petersburgo é o Museu Hermitage. Um dia pode ser pouco para conhecer o segundo maior museu do mundo, a seguir ao Louvre, em Paris. A fachada mais célebre do museu é a do Palácio de Inverno e fica virada para a não menos grandiosa Praça do Palácio. Porém, o Hermitage é constituído por cinco edifícios construídos em diferentes épocas: o Palácio
de Inverno, o Pequeno Hermitage, o Antigo Hermitage, o Novo Hermitage e o Teatro Hermitage. O Palácio de Inverno foi mandado construir pela czarina Isabel, mas só foi concluído em 1762, já depois da morte da monarca. É o expoente máximo do estilo barroco em São Petersburgo, como demonstrado na grande escadaria, nos salões de baile ou na capela do palácio. No entanto, o Hermitage, enquanto museu, surgiu da vontade de Catarina II, A Grande, que decidiu passar as obras da sua coleção pessoal guardadas em salas secretas do palácio para um edifício designado de Hermitage. O acervo foi sendo enriquecido pelas obras adquiridas pelos czares que sucederam a Catarina e, já depois do fim da monarquia, em 1917, muitas obras foram confiscadas pelos bolcheviques e adicionadas à coleção do museu. Atualmente, o Hermitage detém cerca de três milhões de peças, entre as quais 16 mil quadros e 12 mil estátuas. Há obras de artistas italianos, holandeses e espanhóis, mas ainda hoje são destacadas as obras compradas por Catarina II, como é o caso da escultura do italiano Miguel Ângelo, The Crouching Boy, única no museu, o quadro “Filho Pródigo” de Rembrant, e o relógio Pavão. As obras dos autores europeus do século XX (Como Matisse ou Picasso) estão expostas no edifício do Estado Maior, que também pertence ao Museu Hermitage. A vantagem da visita ser acompanhada por um guia é a deste indicar os principais destaques do museu, evitando que o visitante se perca entre as várias salas e pisos. O Hermitage encerra às segundas-feiras, mas está aberto até às 21h, às quartas e sextas, o que é uma boa sugestão para quem quer visitar o museu em época alta. No inverno, as visitas são tranquilas em qualquer dia da semana.
No Hermitage não há obras de autores russos, uma vez que essas obras são exibidas no Museu Nacional de Arte Russa que ocupa o palácio do príncipe Mikhail, neto de Catarina II, localizado na Praça das Belas Artes.
Nesta praça encontra-se também o Teatro Mikhailovsky, uma boa opção para ver o afamado ballet russo, logo a seguir ao mais célebre teatro de São Petersburgo, o Teatro de Mariinsky. Este último está aberto no inverno e, no verão, apenas durante as noites brancas.

Fortaleza e igrejas

Dos museus passamos para as ruas de São Petersburgo. A Nevsky, a avenida principal de São Petersburgo, tem 4,5 quilómetros e foi construída em 1710, o que exemplifica a visão reformista de Pedro, O Grande, tendo em conta que as cidades europeias somente começaram a ter avenidas largas no século XIX. Normalmente, uma viagem a São Petersburgo inclui também a visita à Fortaleza de Pedro e Paulo, o berço histórico da cidade. A fortaleza foi iniciada no dia 27 de maio de 1703, data em que se comemora o aniversário de São
Petersburgo. Mandada construir por Pedro, O Grande, nunca desempenhou o papel militar para a qual foi construída, porque os inimigos suecos nunca aqui chegaram. A partir de 1718 foi utilizada como prisão política até ao fim do império em 1918. Hoje em dia esta prisão é um museu, mas poucos grupos a visitam. “Tem muita energia negativa”, comenta a guia. A fortaleza alberga também a catedral de São Pedro e São Paulo onde está enterrada a dinastia Romanov, a última dinastia imperial da Rússia. Desde Pedro, O Grande, até ao último Czar, Nicolau II. Muitas agências de incoming proporcionam city tours com visita à fortaleza, mas nem sempre incluem a igreja conhecida
como do Salvador no Sangue Derramado, onde foi assassinado Alexandre II, pelos anarquistas, em 1881. No entanto, este é um dos monumentos imperdíveis de São Petersburgo. A arquitetura de estilo neo-bizantino é muito parecida à catedral de S. Basílio em Moscovo, com as suas pequenas cúpulas multicolores e detalhes peculiares da arquitetura moscovita. Até 2025 a fachada encontra-se em obras de restauro. Vale a pena a visita ao interior desta igreja ortodoxa, que funciona como museu desse 1997 e, por isso, a entrada é paga. É difícil imaginar que o edifício, de extrema beleza interior e exterior, tenha servido de armazém de legumes na época dos bolcheviques, mas este
foi o destino dado a muitas igrejas e palácios depois da revolução de 1917.
Outras das igrejas de visita frequente dos turistas é a Catedral de Nossa Senhora de Kazan. Com entrada gratuita, a catedral está localizada na avenida Nevsky e é um dos edifícios mais monumentais da cidade. Foi mandada construir por Paulo I, filho de Catarina, A Grande, em homenagem à virgem e ao menino de Kazan. Durante o período comunista funcionou como Museu do Ateísmo, só voltando a funcionar como igreja depois do fim da União Soviética.
É preciso lembrar que a história de São Petersburgo não está apenas ligada à grandiosidade da época imperial dos czares. Ao longo do século XX, a cidade passou por revoluções e guerras, que provocaram danos, dos quais levou tempo a recuperar. A queda da União Soviética em 1991 alterou a vida da cidade, que recuperou o seu nome de origem. Muitas igrejas reabriram e levou-se a cabo a recuperação de vários edifícios históricos.
Em 2003, quando foram assinalados os 300 anos da fundação da cidade e foram igualmente feitas muitas reabilitações que ajudaram a restabelecer a grandiosidade de São Petersburgo.

Como ir?
A airBaltic, companhia líder de mercado nos Países Bálticos representada em Portugal pela ATR, voa duas vezes por semana entre Lisboa
e Riga (terças e sextas). Da capital da Letónia, a companhia oferece voos diretos para muitos destinos na Rússia, incluindo São Petersburgo, que está apenas a uma hora de voo. Só são servidas refeições a bordo mediante pagamento, mas é possível fazer a reserva antecipada das mesmas através do site da companhia. Como referido no artigo, é necessário um visto electrónico para visitar São Peterburgo.
Desde 1 de outubro o e-visa pode ser obtido gratuitamente através do preenchimento do formulário no portal http://electronic-visa.kdmid.ru/.  É aconselhável confirmar com atenção se os dados do e-visa estão de acordo com o passaporte, uma vez que poderão ocorrer erros na plataforma. Como empresa de recetivo, contámos nesta viagem com o apoio da Primiera Travel, uma DMC que opera em várias cidades russas, oferece serviços que vão desde a organização de tours para grupos ou individuais até transferes.

**Viajou a convite da airBaltic, representada em Portugal pela ATR

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