Covid-19: Uma Doença (Económica) Sem Cura

Por a 18 de Março de 2020 as 15:33

As doenças mais assustadoras são aquelas para as quais não existe ainda uma cura propriamente dita e que são simultaneamente bastante contagiosas. Parece-nos ser este o caso do novo coronavírus, cientificamente designado por Covid-19. Apesar dos esforços, a vacina ainda está por descobrir, o que é agravado pelo facto desta doença propagar-se a um ritmo exponencial à escala mundial. Os diversos serviços nacionais de saúde do mundo inteiro estão sobre uma enorme pressão, não sendo de excluir a hipótese de colapso – como acontece em Itália – se os casos de infecção continuarem a multiplicar-se de dia para dia. Estão assim criadas as condições para um certo alarmismo social, que se tem reflectido já em comportamentos de pânico e do salve-se quem puder a nível individual, tais como corridas às farmácias e/ou açambarcamento nos supermercados.

Este sentimento de pânico atingiu também os mercados financeiros, assistindo-se a uma enorme volatilidade nos índices accionistas nos últimos dias e a quedas de alguns índices sem precedentes na história. Mas porque razão os investidores também estão assim tão alarmados? É certo que a recessão económica está à vista, mas isso por si só não seria suficiente para desencadear as avultadas perdas nas bolsas mundiais. Afinal de contas, esta não será a primeira nem a última recessão que os países enfrentarão, mais do que não seja porque é amplamente conhecido que a economia evolui por ciclos.

O problema que se coloca agora é que esta recessão pode não ter cura, tal como o Covid-19. Os bancos centrais e os governos têm actualmente poucos ou nenhuns instrumentos à sua disposição para mitigar os efeitos negativos na economia que ocorrerão. Repare-se que as taxas de juro não têm muito mais margem para descer, o que significa que estímulos monetários adicionais não são esperados. Além disso, não basta aumentar as linhas de crédito às empresas se depois não existir procura por parte das famílias para que as empresas possam escoar a sua produção. O próprio Banco Central Europeu anunciou que devem ser os governos de cada país a conter os riscos recessivos descendentes, nomeadamente aumentando a despesa pública. Mas num contexto de queda das receitas públicas, o aumento das despesas tenderá a implicar um aumento do défice e, por conseguinte, da dívida pública. Perante isto, os governos dos diferentes países (sobretudo dos países mais endividados) poderão mostrar-se relutantes em adoptar a tradicional receita keynesiana sob pena das contas públicas ficarem descontroladas e de serem necessários novos pedidos de resgaste ao FMI e, consequentemente, a adopção de novos programas de austeridade cuja receita já é por nós conhecida e cujo tratamento é pior do que a doença.

Para que isto não aconteça e para que os efeitos recessivos sejam efectivamente subtis, é impreterível que a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu se comprometam a tudo fazer para salvaguardarem os países que incumprirem as regras orçamentais do Tratados de Maastricht (défice público abaixo de 3% do PIB e dívida pública inferior a 60% do PIB). Os governos deverão seguir uma atitude responsável, aumentando as despesas nas verdadeiras necessidades do país, nomeadamente no reforço e na salvaguarda do serviço nacional de saúde, na protecção do emprego e no crescimento económico.

*Por Ricardo Barradas, Professor Universitário ISCAL – Instituto Politécnico de Lisboa

Um comentário

  1. Carlos Guarita

    18 de Março de 2020 at 15:44

    Apenas um reparo (talvez preciosismo) “COVID-19” é o nome da doença, o nome correcto do virus é “SARS-COv-2”

    Cumprimentos

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