Opinião | Juntar o que Brexit quer separar

Por a 31 de Janeiro de 2020 as 16:14

Em Portugal a relação com o Reino Unido começa em 1147 e concretiza-se no tratado de Windsor em 1386.  Dois séculos depois, em 1600, nasce a Grand Tour, uma tradicional viagem realizada por jovens de classe média-alta liderada por jovens ingleses acabados de sair das universidades. Em 1785 o número de ingleses a viajar pelo mundo rondava os 40 mil (Pina, 1991).  A história do turismo começa com os ingleses e estende-se a Portugal no início do século XX.  Cinco séculos de viagens pelo mundo e um século de relação turística com Portugal, mais sete séculos de relação política que dificilmente se apagam, porque a ligação destes países é muito anterior à União Europeia.

Às fortes tradições de relação anglo-saxónicas juntam-se dados que permitem antecipar um impacto menor do que o esperado do Brexit no Turismo português.

O Reino Unido é o 4.º maior emissor de turistas a nível mundial e o segundo maior da Europa (Fonte: TravelBI). A viagem turística, mais do que uma tradição, é uma necessidade enraizada da qual os ingleses não abrem mão. Os ingleses viajam maioritariamente para a Europa (57,3%) por períodos inferiores ou iguais a duas semanas (47,1%). O tempo de viagem disponível e o continente de eleição sugerem que a predisposição de viagem se mantenha no mesmo espaço, mais que não seja pela indisponibilidade temporal.

Em 2019, o Reino Unido foi o principal mercado emissor para Portugal com 1,5 milhões de hóspedes, 6,5 milhões de dormidas e 2.299 milhões de euros de receitas turísticas. (Fonte: TravelBI).

O grande fluxo de turistas ingleses acontece no Algarve, que absorve 64,1% das dormidas. Poder-se-ia antecipar uma quebra relevante no desempenho turístico da região algarvia. Mas, mais uma vez, os dados permitem algum otimismo.

No Algarve o mercado britânico é de repetição (73%), uma repetição com mais de 30 anos (18%) que tencionam manter (58% pretende regressar de certeza), até porque muitos ou têm casa ou dormem em casa de amigos, ou em alojamento local que alugam maioritariamente a proprietários ingleses (38%). Consideram o destino acessível (72%) e revelam uma afinidade com a região que vai muito para além duma taxa de câmbio (Fonte: Ualg, 2016). Neste quadro é difícil antecipar um impacto tenebroso na região em particular e no país em geral.

Porque as minhas perspetivas são demasiado otimistas e para reforçar a relação Portugal – Reino Unido, envolvi na redação deste artigo um dos maiores especialistas em turismo ao nível internacional Dimitrios Buhalis. Residente em Inglaterra há mais de 30 anos, divide os impactos do Brexit em impactos de curto e médio prazo. No curto prazo considera que:

“Os impactos serão muito limitados principalmente pela flutuação da moeda, a maioria dos ingleses já reservou férias de verão e não há evidências de cancelamentos. A desvalorização da moeda torna as viagens de longo curso mais caras e menos atrativas, o que pode significar maior fluxo para a Europa. Se existir impacto será nas reservas de última hora, que podem ser canceladas.

No médio prazo (2- 5 anos) após a ativação do artigo 50 a relação entre Portugal e o Reino Unido tem que ser repensada, ao nível das entradas de pessoas no país, ao nível da reorganização do espaço e das rotas aéreas das ligações ferroviárias e da mão de obra emigrada a trabalhar no Reino Unido.

Em termos turísticos Portugal pode sair beneficiado com o Brexit se mantiver os preços, rotas de baixo custo e flexibilizar as entradas no país. O Brexit é, por isso, muito mais do que um problema de quebra da procura e, para minimizar os impactos, é preciso agir estruturalmente continuando a assegurar uma imagem do destino de excelência, possibilitar a dispensa de vistos para estadias curtas, continuar a dinamizar as ligações aéreas de baixo custo,  bem como assegurar que os cidadãos ingleses que visitam a Portugal mantêm as condições de conforto semelhantes às viagens pré-Brexit.”

Em conclusão pode afirmar-se que os impatos do Brexit vão muito para além da anunciada, mas não confirmada, quebra das dormidas. Impactam na política, na economia e na sociedade. Quanto aos turistas ingleses, eles continuarão a vir para Portugal se garantirmos condições de viagem idênticas.

* Por Antónia Correia, professora e diretora da Faculdade de Turismo e Hospitalidade da Universidade Europeia, e  Dimitrios Buhalis, professor na Bornemouth University, Reino Unido.

 

 

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