Reportagem | Budapeste: entre as margens do Danúbio

Por a 27 de Janeiro de 2020 as 16:22

Köszönöm significa obrigado, em húngaro. A fonética é melódica e estranhamente familiar à língua lusa: pronuncia-se ‘’qual é o seu nome’’, com um sotaque de português do Brasil. É por aqui que se conquistam, numa primeira instância e sem grande esforço, os turistas portugueses que aterram em Budapeste. O primeiro laço de familiaridade está irrevogavelmente concretizado, uma espécie de isco que acaba por passar os dias a saltar de boca em boca. Não apenas pela coincidência dos sons mas por ser a única palavra da língua húngara facilmente pronunciável. A fonética não é simpática mas não escasseiam as manhas para uma aproximação de palavras e de culturas. O brinde húngaro é selado com um “egészségedre”, que significa “saúde”. A pronúncia assemelha-se ao inglês “i can shake a tree”. Estes dois termos bem sabidos são ótimos desbloqueadores de conversa com os locais que agradecem a simpatia na aprendizagem. A lição, útil para os dias seguintes, foi aprendida de imediato, enquanto éramos apresentados a Budapeste, nos vinte e poucos quilómetros que ligam o Aeroporto Internacional de Budapeste Ferenc Lisz à zona ribeirinha de Peste. A capital húngara já estava despida de sol e com os imponentes edifícios bordados a luz. As oito pontes iluminadas deitavam-se sob o Danúbio num cenário arrebatador e onírico. A noite é um elogio a cada recorte de esquina desta cidade alocada no Leste Europeu.

As águas serenas do segundo rio mais extenso da Europa, que coloca Buda e Peste a olharem-se de frente, surge como o primeiro convite irrecusável. Os cruzeiros no Danúbio são uma das mais apetecíveis atrações podendo ser realizados de dia ou de noite, oferecendo, em cada uma destas experiências, uma perspetiva díspar da cidade, consoante a hora a que se navegue. O final de dia é, pelo dramatismo e pelo espetáculo de luzes, a aposta vencedora. O match perfeito faz-se ao aliar a esta viagem um desfile da gastronomia local. O Pannonia Gastro Bar é um restaurante navio que oferece uma experiência íntima de fine dining que conjuga um menu de degustação com um passeio pelo rio. Diariamente, o pequeno barco parte às 19h00, com um número limitado de passageiros, que reservaram atempadamente as próximas horas. Na carta, que muda mensalmente, imperam os principais aromas da gastronomia húngara. O pairing é feito com uma cuidada seleção de vinhos regionais enquanto vislumbramos pelas janelas alguns dos ícones mais afamados da cidade, como o Parlamento ou a Academia das Ciências. O passeio e jantar espraiam-se ao longo de pouco mais de três horas e tem o custo de 40 mil florins por pessoa (120 euros).

Entre Buda e Peste

O primeiro encontro com Budapeste à luz do dia é feito já de manhã. A cidade postal iluminada da noite anterior acorda com uma roupagem diferente. Há uma mistura de cores que se agarram às mais variadas arquiteturas em redor. Da margem esquerda da cidade, em Peste, somos de imediato confrontados com a vista para o Palácio do Castelo de Buda, que acorda do lado oposto. É a partir daqui que se começa a desenhar o mapa da cidade de forma mais fiel e a perceber o fio condutor que liga Buda e Peste. Conhecer a cidade, organizada em 23 bairros e dividida pelo Danúbio, é um mergulho direto na mais bonita arquitetura, na história e no cruzamento de culturas que tecem o quotidiano agitado de Peste e sereno de Buda. Com antepassados independentes entre si, Buda, Obuda e Peste só se uniram em 1873, para formar o município de Budapeste. Peste é o centro económico e político onde tudo acontece. Há avenidas agitadas com lojas de roupa e ateliers de arte, há cafés elegantes e ostentosamente ornamentados a cada esquina, há museus, escolas, hotéis, mercados, bares e restaurantes na vanguarda da oferta. Buda é mais romântica, com o palácio e o castelo envoltos num ambiente menos contemporâneo e mais histórico. A cidade é indissociável da sua génese que foi escrita por celtas, romanos, magiares, mongóis, turcos e habsburgos. O passado é tecido de confrontos, invasões e domínios tendo a cidade sido destruída e reerguida diversas vezes. A história mais recente, alinhada com uma dor quase kármica, trouxe duas guerras mundiais, uma destruição total de Budapeste e o pulso de dois regimes totalitários: a ocupação pelos nazis em 1944 e o cerco soviético após a segunda Guerra Mundial. Apesar de um passado carregado de efemérides lúgubres, Budapeste reergueu-se, reconstruiu-se e arranca suspiros a quem a visita. A simbiose entre a beleza da cidade e a disparidade de paisagens e locais tornam-na irrepetível, com diversas influências refletidas tanto nos diversos estilos arquitetónicos como na aura das ruas. Budapeste é moderna, cosmopolita, aberta e recetiva num exemplo de superação que arranca aplausos. Aqui, há um parlamento onde o ouro impera e há buracos de balas ainda cravados em edifícios em ruínas para que história sobreviva além dos livros. Outro dos aspetos mais atraentes da cidade é a sua versatilidade camaleónica. Budapeste é um destino capaz de agradar a uma mão cheia de diferentes turistas. Encaixa numa viagem de amigos, de família, numa escapada romântica ou numa jornada a sós – em todos os casos é uma aposta ganha. É um destino de lazer, de cidade, de campo, de saúde, de amantes de arte, de apreciadores de música, de apaixonados por comida, dos que que gostam de agitação ou dos que não dispensam tranquilidade. Tudo é adaptável, sabendo escolher o roteiro.

A não perder

A oferta de monumentos, miradouros, edifícios, parques e locais cuja beleza silencia comentários abunda na capital húngara. A mistura de todos os estilos arquitetónicos e artísticos imprime um resultado ímpar pelas ruas de Budapeste que vive embrulhada em art nouveau, gótico, neo-gótico e modernismo. Quatro a cinco dias completos deverão ser suficientes para espreitar o essencial da cidade com algum pormenor e desfrutar das principais atrações. De dia ou de noite, o Parlamento rouba as atenções na margem de Peste na Kossuth tér. É o maior edifício da Hungria e o segundo maior parlamento da Europa e demorou 17 anos a ser construído. No seu interior estão expostas 250 estátuas, 40 quilos de ouro e 40 milhões de tijolos bem como a coroa sagrada, insígnia principal do brasão do país. Há visitas guiadas em várias línguas ao interior do edifício, com a duração de cerca de 45 minutos. Com 96 metros de altura a Basílica de Santo Estevão é outro dos edifícios que não passa despercebido. É a maior igreja da cidade e a terceira maior do país. No interior está exposta a mão direita mumificada de Santo Estevão, fundador do Estado cristão. Já no Bairro judeu encontramos a Grande Sinagoga, a segunda maior do mundo, construída pela mão de ortodoxos e reformistas e concluída em 1859. Além do espaço religioso, que surpreende do teto ao chão não só pelo tamanho como pela imponência dos dourados e rosas há também um Museu Judaico que homenageia os mais 600 mil judeus húngaros vítimas do holocausto. Ainda no bairro judeu, mora uma das maiores atrações da cidade quando o sol se deita: os bares. Após a II Guerra Mundial, as ruas em redor da Grande Sinagoga ficaram em ruínas. Os edifícios foram ocupados e decorados com peças abandonadas e retiradas do lixo dando agora lugar à zona de maior animação noturna da cidade. Aqui, nasceram os ruin bars e locais de convívio, no meio dos escombros e sem intervenções. O resultado é um espaço divertido, colorido, caótico e moderno cosido com uma vasta junção de culturas. Em Peste, há outros pontos de paragem obrigatória que não devem ser descurados como a Praça dos Heróis, o edifício da Ópera Estatal Húngara, a movimentada rua Váci utca e a Avenida Andrássy ou a Citadella alocada no alto da Colina Gellét, o ponto mais alto de Budapeste, e que oferece das melhores vistas sob a cidade que combina com qualquer ângulo fotográfico.

Quando chegamos ao lado de Buda, no histórico Bairro do Castelo, cercado por fortalezas medievais, deparamo-nos com um set de filmagens, atividade já habitual por estes lados que é já cenário recorrente em vários filmes. Deste lado do Danúnio vive o icónico Palácio do Castelo de Buda, a Igreja de Mathias, a Biblioteca Nacional Széchenyi, a Galeria Nacional da Hungria e o Bastião dos Pescadores, local de igualmente farta paisagem.

A banhos no Széchenyi Spa

Ainda os pés não tinham pisado o solo de Budapeste e, em pleno aeroporto, enquanto esperávamos pelo reencontro com as malas no tapete rolante, os ecrãs exibiam um dos ex-líbris da cidade: as termas. Piscinas exteriores de água a fumegar, cercadas de edifícios neo-barrocos, são-nos apresentadas como um ‘must see’ nesta viagem. Budapeste tem cerca de 50 complexos termais que fazem uso das águas terapêuticas da cidade. O Széchenyi Spa é o mais afamado e é a escolha principal dos turistas. Este espaço foi construído entre 1909 e 1913 e oferece 21 piscinas, interiores e exteriores, e uma longa lista de tratamentos. Há saunas, um spa de cerveja entre outras terapias e massagens que podem ser agendadas à parte. O bilhete diário custa seis mil florins (perto de 18 euros) e permite o acesso ao complexo durante um dia. Com um horário de funcionamento entre as 06h00 e as 22h00, a visita a este spa é uma rotina habitual dos húngaros que o frequentam para descansar e relaxar, num hábito semelhante à frequência de um ginásio ou de qualquer outra atividade desportiva. Para quem vem de fora, movido pela curiosidade é uma experiência quase imperdível. A contrastar com o ar gélido da cidade, as piscinas exteriores estão aquecidas à temperatura de 28ºC. Cá fora, sob o céu já quase escuro, dezenas de turistas mergulham nas águas, de cerveja na mão. Há as famosas mesas de xadrez onde uma geração mais experiente gasta o tempo e fontes de água a descerem sob os visitantes.

Lá dentro as pequenas piscinas estão lotadas de pessoas estagnadas que se embrulham nas águas medicinais. É aqui que este espaço peca. Demasiada fama atrai demasiadas pessoas o que torna este spa um pouco caótico. Há filas à entrada, os pequenos corredores abafados fazem-se de pessoas e há piscinas onde a capacidade já ultrapassou a lotação máxima. A limpeza e higiene do local deixam várias dúvidas o que, ainda assim, não parece ser motivo de dissuasão a quem frequenta. Nas noites de fim-de-semana a fasquia eleva-se e o espaço exterior transforma-se num espaço festivo ao ar livre com DJ a acompanhar os banhos de água e cerveja. Apesar de não termos visitado, há outros espaços na cidade, não tão conhecidos, que oferecem as mesmas vantagens num ambiente mais sereno e menos apelativo a turistas, o que pode ser uma boa opção para quem quiser usufruir de um momento de spa com alguma serenidade.

Como ir

A TAP tem voos diários para Budapeste com partida de Lisboa.

Onde ficar

É entre a Ponte Erzsébet (Elizabeth) e a Ponte Széchenyi Lánchíd, ou Ponte das Correntes como é conhecida, junto à zona ribeirinha de Peste, em Belváros, Lipótváros, que se encontra uma boa fatia das unidades hoteleiras de classificação mais elevada. O cinco estrelas Budapest Marriott Hotel é uma escolha segura para a estadia na cidade. Vale totalmente a pena escolher um quarto com vista, a principal pérola do hotel. A fachada virada para o rio é envidraçada desde o teto ao chão oferecendo ao hóspede a cidade no quarto. O conforto é já habitual nos hotéis da insígnia. O Budapest Marriott Hotel dispõe de 364 unidades de alojamento, um pequeno spa, sala de reuniões, business lounge, bar e restaurante.

Como visitar

A riqueza histórica, artística e arquitetónica da cidade merece ser contada pela boca de quem sabe. Optar por fazer um roteiro guiado pelos principais pontos é uma mais-valia e acaba por fazer toda a diferença no final da experiência, acrescentando-a e enriquecendo-a. A empresa de visitas turísticas Budapest Today é gerida pelo Levente, um guia húngaro que é também músico e tem uma veia de comediante afinada. O jovem guia de 28 anos tem um conhecimento musculado sobre todos os recantos, histórias e curiosidades da cidade que alia a uma boa disposição e atenção louváveis. Com sorte, um qualquer passeio pode acabar num bar de jazz com ele a cantar bossa nova num brasileiro lisonjeador.

Onde comer

A oferta gastronómica na cidade é expressiva no que diz respeito tanto aos sabores locais como à cozinha internacional. Nas ruas, há cafés e pastelarias a exibir o tradicional chimney cake com os mais diversos e gulosos recheios. Para provar pratos mais típicos e genuínos, aconselha-se uma visita ao Mercado Central (Great Market Hall). Se o desejo recair numa refeição mais cuidada, o St Andrea Sky Bar Budapest é uma escolha segura que combina sabores locais contemporâneos num terraço com uma vista arrebatadora.

* Viajou a convite da TAP

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