Falta de ligações aéreas trava desenvolvimento do M&I no Algarve e Madeira

Por a 18 de Novembro de 2019 as 17:03

Apesar dos Meetings & Incentives (M&I) serem estratégicos para o reconhecimento de Portugal como destino turístico de qualidade e contribuírem para a subida dos preços, este segmento ainda enfrenta vários desafios. A temática esteve em debate no segundo dia do congresso da Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo (APAVT), com a participação de Eduarda Neves, administradora da Portugal Travel Team, Paula Antunes, managing diretor da Compasso, João Fernandes, presidente do Turismo do Algarve, Bruno Freitas, administrador do Grupo Savoy e António Marques Vidal, presidente da APECATE.

A responsável da DMC Compasso foi a primeira a falar, num discurso em que enumerou os desafios que o setor do M&I enfrenta no dia-a-dia. Paula Antunes lembrou que o segmento M%I tem um nível de exigência “muito elevado” na qualidade de serviços a todos os níveis. “Deve começar logo à chegada ao aeroporto de Lisboa. A primeira imagem que temos é de um estendal de papéis pendurados. Esta massificação de Lisboa e do Porto traz-nos grandes dificuldades, tanto ao M&I como a todas as operações de turismo organizadas. Preocupa-nos a qualidade do destino e a imagem de Portugal”. Dito isto, deu o exemplo: “As longas filas para os monumentos não abonam para essa imagem”, defendeu, sugerindo a criação de soluções digitais que melhorem o planeamento das visitas e a sua fluidez. Outro dos desafios não é novo e prende-se com as restrições de mobilidade nas grandes cidades. “Somos os principais interessados na sustentabilidade do destino, mas não conseguimos com medidas meramente de agenda política”, referiu.

A qualidade dos recursos humanos foi a questão apontada em seguida. “A nossa hospitalidade é especial, mas isso não é suficiente para fazer face à concorrência de tantos outros destinos e temos uma lacuna efetivamente na formação. Não basta saber falar em inglês e ser simpático para trabalhar em turismo, a qualificação é fundamental”, defendeu, considerando que a formação existente “não é suficiente” para dar resposta ao nível de exigência do M&I. “Continua a ser muito vocacionada para o setor hoteleiro e o turismo é muito mais do que isso, sentimos uma grande dificuldade em contratar jovens para as nossas equipas”. Ainda neste capítulo dos recursos humanos, Paula Antunes apelou à regulamentação da profissão de guias intérpretes. “São fundamentais para garantir a qualidade dos nossos serviços. Deparamo-nos todos os dias com pseudo-guias. Portanto, logo a par da lacuna na formação é muito urgente pensar na regulamentação”.

Quanto às infraestruturas, a responsável da Compasso considerou que existe “falta de marcas hoteleiras internacionais para o segmento de luxo. A oferta hoteleira existente não é suficiente para trazermos determinados eventos para Portugal. Todos sabemos que uma marca internacional dá visibilidade a um determinado destino”. Para Paula Antunes faltam também espaços que complementem o programa de reuniões, tais como restaurantes.

Outra dificuldade sentida e que “é muito pertinente nesta área” está relacionada com as restrições de ligações aéreas. “No caso do Algarve, é maioritariamente visto como destino de praia, mas, na realidade, até tem estrutura hoteleira para receber grandes eventos, sobretudo em época baixa e média, mas não há ligações aéreas necessárias”.

Por último, Paula Antunes deixou o desafio da fiscalidade e que já foi por diversas vezes apontado. “Somos empresas exportadoras, mas, ao contrário de todas as outras, os nossos clientes não recuperam o IVA. Aqui ao lado, em Espanha, o IVA é recuperado pelas empresas que organizam lá as suas reuniões. Em Portugal, isso não é possível e por isso somos mais caros.”

O presidente do Turismo do Algarve reconheceu que as questões identificadas são matérias que constrangem a região do ponto de vista deste segmento, sobretudo a falta de voos regulares. “Nos últimos anos, com o posicionamento das low cost no aeroporto de Faro isso reduziu a possibilidade de voos charter e regulares”, admitiu. “Mas não vai ser fácil de repente passarmos a ter outra vez companhias de bandeira a voar diariamente para o Algarve. Temos feito um esforço com algumas delas”. Por outro lado, considerou que “falta uma ponte aérea com Lisboa, que a TAP, como companhia aérea portuguesa, não serve o Algarve neste capítulo”.

Para João Fernandes, o segmento de M&I é uma oportunidade para infraestruturas que já existem na região, “e cuja sazonalidade é madrasta, sobretudo, na época baixa que é exatamente aquela em que temos mais constrangimentos com as acessibilidades aéreas”

Para o administrador do Grupo Savoy, além dos desafios do M&I para o resto dos destinos continentais, acresce as contingências insulares na Madeira, concretamente as acessibilidades aéreas. “Hoje em dia, os voos além de serem condicionados por questões climatéricas, também são afetados por fatores que não controlamos, desde os atrasos nos aeroportos internacionais, aos constrangimentos do aeroporto de Lisboa”.

Bruno Freitas considerou que a Madeira já “teve melhores dias” no que diz respeito a este setor. “Fala-se da questão da fiscalidade. Sentíamos isso nos congressos médicos. A Madeira perdeu vantagem competitiva. Esse trabalho cabe às entidades públicas e privadas”.

Para o presidente da APECATE, António Marques Vidal, o grande desafio do setor dos eventos e da animação turística é a qualidade dos recursos humanos, aquilo que definiu como “cidadania”. “Os nossos colaboradores têm conhecimento técnico, mas têm dificuldade em perceber os valores, dar a volta à cabeça. O exercício da cidadania é o que temos resolver para ter turismo de qualidade”.

“Havendo vontade política, todas as outras questões resolvem-se, inclusive o IVA, mas é o problema da qualificação e da qualidade dos recursos humanos que é determinante para estarmos à frente. A valorização humana, o saber construir e refletir e, com isso, criar relações interpessoais e as tais experiências que vão ao detalhe, é que são a nossa vitória”, concluiu.

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