Opinião| Cities in burnout

Por a 2 de Setembro de 2019 as 10:29

Entendi as viagens como renovação de ânimo onde sempre me enriqueceu o saber e me deu forças para seguir em frente. Podem não ser muitas, mas têm que ter muita qualidade. O turismo vale 10%/PIB e “dá de comer” a muitas famílias.
Ser feliz no turismo é a forma mais autêntica de felicidade e será sempre a arte de vender felicidade. Recusei não pensar a atividade a ciclos inferiores a 10 anos, sob pena de hipotecar o futuro. Preocupa-me o esgotamento da capacidade das cidades em receber e manter o estatuto “Mainstream” de desenvolvimento, sem co-criar. Estamos em perda nos ciclos económicos globais importantes e os responsáveis têm nome: atores políticos. Não percebi políticas publicas de quem gere, nem sinais de conforto e prontidão em suportar a “enchente” de turistas em passagem e/ou permanência. Verifico, casuisticamente, medidas trapalhonas que prejudicam quem utiliza o turismo e o potencia internacionalmente. Sem medidas pode significar a morte “da galinha d´ovos de ouro”.
O ‘Burnout’ das cidades pode ser o sintoma mais evidente dos tempos atuais, se não sustentarem mudanças profundas “rebentarão pelas costuras”. A solução é política e passa pelas megas-cidades e/ou regionalização séria e pensada. Debruçamo-nos sobre tudo o que sustenta a cidade (dimensão humana, artificial e coletiva) e que as mantém atrativas e sustentáveis: mobilidade, urbanismo, arrendamento, restauração, emprego, população, ambiente… carecem de políticas-publicas sobre o espaço público da cidade e do território, onde as fronteiras são cada vez mais ténues. O espaço público é o rendimento “per capita” da cidade e do Estado.
O ‘Burnout’ acelerado é sentido pela falta de investimento público na atividade “turismo”. Quem dinamiza o turismo? Operadores privados, que fazem “das tripas coração” para abrir novos mercados, tendências e novas adaptações que o mercado exige. São muitas as cidades europeias com sinais de exaustão, apesar dos seus países manterem redobrada atenção à sua evolução. O aumento exponencial de hostels e hotéis nas nossas cidades assumiu um papel preponderante no crescimento turístico e na renovação urbanística das mesmas.
Tenho opinião sobre a relação entre o crescimento do turismo e a saída dos residentes, mas abordaremos o tema, à frente, na vertente positiva do negócio, sendo que o crescimento deve ser entendido como reabilitação urbana funcional, em constante devir. No tema globalização, numa época em que a mobilidade entre países foi facilitada, o turismo tem demonstrado ser a ferramenta de alavancagem da economia. As cidades aproveitaram o mercado e cresceram, tornaram-se destinos procurados, correspondendo a procura a uma vastíssima oferta, cada vez mais alargada. Penso a cidade na forma e no sentido onde todos cabemos, sem classes, ideologias, restrições e sem limitações, onde todos – pode ser utópico – vivam e se sintam melhor. Criar cidades liquidas, ou melhor dinâmicas, onde o utilizador só o é se puder pagar, é um risco de retrocesso quanto à sua sustentabilidade. A cidade deve ser pensada e programada para que todos possam ser ouvidos e participem na sua gestão.

*Por Amaro F. Correia
Doutorado em Ciências da informação

Artigo publicado na edição de 16 de agosto.

Deixe aqui o seu comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *