Reportagem| Qatar: O Emirado do futebol

Por a 20 de Agosto de 2019 as 16:47

Quando a FIFA anunciou que o Qatar seria o anfitrião do Mundial de Futebol de 2022, houve uma explo- são de alegria por todo o Médio Oriente. É que, pela primeira vez, a grande prova mundial de futebol vai ter lugar na região e num país muçulmano, sendo vista como uma oportunidade para unir o ocidente e o oriente, tantas vezes desavindos, através daquilo que o futebol tem de melhor, a festa que
contagia e aproxima adeptos de todo o mundo.
Mas, se o momento foi vivido com euforia, pouco depois começavam as dúvidas. É que o Qatar tem pouca tradição de futebol e ainda por cima é um país que obedece às leis islâmicas, onde, por exemplo, o álcool fica de fora. Como seria possível fazer um Mundial sem álcool? E, pior, com temperaturas que facilmente ultrapassam os 40 graus Celcius?
Mas, o que podia ser problemático, tem vindo a funcionar exatamente ao contrário, ajudando a chamar a atenção e a promover o evento. É que para combater as altas temperaturas, não só foi decidido atrasar o Mundial – que, pela primeira vez, vai ter lugar no inverno, em novembro e de- zembro -, como se partiu para a construção de estádios inovadores, totalmente fechados e com refrigeração, que se destacam por serem amigos do ambiente e sustentáveis. As inovações, aliadas ao design vanguardista, têm chamado à atenção dos adeptos do futebol, que já contam os dias para o pontapé de saída da competição. Já nem o álcool importa, apesar de também para isso se ter encontrado solução. Mas já lá vamos.
Foi sob o pretexto do Mundial’22, e porque a Qatar Airways abriu uma nova rota diária para Lisboa, que um grupo de seis jornalistas portugueses foi convidado pela companhia aérea de bandeira do Qatar a visitar o país, de forma a ver de perto, não só o avanço dos preparativos para a competição, como tudo o mais que o Qatar tem para oferecer. E é bem mais do que se poderia pensar, já que este pequeno emirado do golfo pérsico, com 2,6 milhões de habitantes – a grande maioria estrangeiros, que se mudaram para o Qatar aliciados pelos altos salários e isenção fiscal -, tem uma oferta diversificada, que vai da praia ao turismo de luxo, sem esquecer as aventuras no deserto, a cultura e gastronomia únicas, além de uma vasta história e uma hospitalidade difícil de igualar. Venha com o Publituris descobrir o emirado do Qatar, um país moderno, longe da imagem fechada que, muitas vezes, é passada no ocidente e que se prepara para receber o mundo na maior prova de futebol do planeta.

Legado do futebol

Chegámos a Doha a 24 de junho, a bordo do voo inaugural da Qatar Ai- rways, que passou a ligar Lisboa à capital do país. E assim que saímos do avião, percebemos que estávamos, de facto, no Qatar, é que o termómetro marcava 45 graus e a humidade ultrapassava os 90%. Não precisei de mais explicações para perceber porque é que o Mundial’22 vai ser no inverno.
O trajeto entre o Aeroporto Internacional de Hamad – assim batizado em homenagem ao anterior emir do Qatar e pai do atual – e o Mondrian Doha Hotel, a unidade de cinco estrelas que nos acolheu, foi curto, mas deu para confirmar uma das ideias que tinha sobre a cidade: Doha é formada por uma sucessão de arranha-céus e edifícios modernos, que se impõem na paisagem, como é, aliás, comum também nos outros emirados do golfo pérsico, onde a riqueza do petróleo e gás natural tem levado ao desenvolvimento de infraestruturas impressionantes.
Mas a aventura em terras qataris só começou a sério no dia seguinte e a primeira paragem foi o Legacy Pavillion, um museu criado pela FIFA, que explica o percurso do Qatar no futebol – para quem achava que o país não tinha tradição na modalidade -, assim como o caminho até ao Mundial’22, o segundo organizado na Ásia. O museu é interessante e merece uma visita, já que recorre a tecnologia que o torna interativo e, por isso, mais apelativo para os visitantes.
Mas a parte que merece maior destaque é a que apresenta os estádios do Mundial’22 e onde ficámos a saber que, das oito infraestruturas – a maior com 80 mil lugares e que vai receber os jogos de abertura e final da competição -, apenas uma vai ficar para a posteridade, já que, entre outras inovações, como ar condicionado e painéis solares, os estádios fo- ram construídos por módulos, o que permite a sua desmontagem após a competição.
Além dos estádios, o Qatar está a desenvolver uma nova linha de metro e outra de comboio, bem como a construir 100 quilómetros de novas estra- das, para que não existam entraves na mobilidade dos adeptos. Já para acolher os entusiastas do futebol, vão estar disponíveis oito mil quartos de hotel, vários navios de cruzeiro e até acampamentos no deserto.
Mais sensível tem sido a questão do álcool, cujo consumo apenas é per- mitido em hotéis de quatro e cinco estrelas e unicamente por estran- geiros, pois os muçulmanos estão proibidos de consumir álcool pela lei islâmica. E o Qatar leva estas restrições muito a sério. Mas, ao que parece, vai ser aberta uma exceção para o Mundial’22, já que o consumo deverá ser permitido nos locais destinados aos adeptos, as ‘fan zones’. A má notícia é que ninguém poderá sair destes recintos alcoolizado, de forma a não ofender os costumes locais. Por isso, quem passar das marcas, deve preparar-se para ficar retido algumas horas nestes locais.

Da Mesopotânia aos dias atuais

O futebol esteve em evidência durante a viagem, mas esteve longe de dominar, já que houve tempo para descobrir também a história do país. E foi justamente por isso que a visita seguinte foi ao Museu Nacional do Qatar, outro edifício impressionante. Aberto apenas desde março, foi desenhado pelo arquiteto vencedor de um Pritzker Jean Nouvel e foi buscar inspiração à ‘rosa do deserto’. Lá dentro, a história do país está em evidência, num relato que começa há mais de 50 mil anos, no início da ocupação humana da península do Qatar, e que abrange também o período da Mesopotâmia, cuja origem se encontra nesta região do Médio Oriente. Mas a parte mais interessante do museu talvez seja a história mais re- cente do país e a comparação que é possível fazer entre a realidade do Qatar no início do século XX, quando ainda era um protetorado britânico – estatuto que apresentou até à independência, em 1971 – e se dedicava à extração de pérolas e à pesca, e o país atual, dono da terceira maior reserva do mundo de gás natural e outro tanto de petróleo, e onde a modernidade domina. Não foi assim há tanto tempo, mas a diferença é abismal. E foi também isso que pudemos comprovar à noite, num cruzeiro noturno pelas águas do golfo pérsico, realizado a bordo de um típico barco local, o dhow, e que teve início junto ao moderno Museu de Arte Islâmica de Doha, outro exuberante edifício, neste caso da autoria do arquiteto de origem chinesa I. M. Pei e que se localiza num dos extremos da avenida Cornish, a maior do país, que se estende por sete quilómetros ao longo da costa de Doha. O museu ocupa 45 mil metros quadrados, está instalado numa ilha e acolhe mais de 800 peças que retratam o islão, a religião do- minante no país e em toda a região do golfe pérsico.
Durante o relaxante passeio, que permite apreciar as luzes coloridas dos arranha-céus refletidas na água do golfo, tivemos ainda oportunidade de visitar a Pearl, uma ilha artificial que é o símbolo extremo do luxo no Qatar e onde o preço do metro quadrado é dos mais elevados do mundo. É o único local no Qatar onde os estrangeiros podem adquirir residência e abriga também galerias comerciais de luxo, hotéis, quatro marinas e diversos restaurantes, além de um sem fim de facilidades de lazer. Vale a pena a visita, já que funciona como uma cidade, dentro da cidade de Doha.

Artesanato e deserto

Apesar da modernidade que o país respira, ainda há locais que perma- necem inalterados, quase como se os séculos não tivessem passado por eles. É o caso do Souq Waqif, um mercado no centro de Doha, que data do século XVIII e que foi recuperado em 2006, mantendo-se, no entanto, fiel à arquitetura qatari. É o melhor local para adquirir souvenirs, já que tem de tudo um pouco, de especiarias a artesanato, passando pelas roupas típicas e pelos melhores petiscos, pois inclui diversos restaurantes e bares de shisha.
Visitámos o Souq Waqif na manhã do segundo dia, mas mesmo assim eram poucos os clientes que circulavam pelo recinto, já que o calor abrasador faz-se sentir desde cedo. Ainda assim, percebemos que as maravi- lhas do ar condicionado – do qual os qataris são reféns, assim como qualquer turista que visite o país no verão – eram dispensáveis na época em que o mercado nasceu, já que a arquitetura do espaço contribui para que a temperatura nas ruas cobertas seja bastante agradável. Difícil é suportar o calor das zonas abertas, onde o sol não perdoa.
Já que estávamos pelo mercado, decidimos experimentar o típico pequeno-almoço árabe, que garante energia toda a manhã e onde não faltam azeitonas, queijo e pão árabe. Coincidência das coincidências, acabámos num dos hotéis boutique que a Tivoli Hotels & Resorts abriu no país, o Al Mirqab Boutique Hotel. O mundo é mesmo pequenino.
Depois do Souq Waqif, seguimos para uma das atividades que mais me entusiasmaram: um safari no deserto. O percurso foi feito em veículos 4X4 da Discover Qatar, o recetivo da Qatar Airways, com ar condicionado incluído, e demorou cerca de uma hora. Mas assim que deixámos Doha notámos a diferença na paisagem, já que grande parte dos 160 quiló- metros da península do Qatar são uma planície árida, coberta de areia. Talvez por isso se perceba porque é que o Orix é um animal tão adorado, sendo um dos símbolos do país. É que este animal consegue encontrar água onde ela parece não existir, algo fundamental num território desértico, principalmente no passado, quando a água canalizada era uma miragem.
Foi essa a paisagem que encontrámos ao longo de quase toda a viagem, até chegarmos a uma área de serviço improvisada, onde os pneus dos veículos todo-o-terreno foram esvaziados e travámos conhecimento com os camelos, dromedários e falcões que ali estão a animar os turistas.
A paragem foi curta e, a partir daí, fomos tomados pela adrenalina, pois as dunas no deserto do Qatar são imponentes – chegam a atingir 40 metros de altura – e descê-las de todo-o-terreno é uma emoção. Ao longo do caminho, encontrámos acampamentos e lagos diversos, que se formam por infiltração do mar, que fica ali ao lado e permite ver a Arábia Saudita do outro lado. Foi a primeira vez que estive num deserto com praia e adorei, já que as águas do golfo são quentes e cristalinas, convidando-nos a um mergulho. Infelizmente, não aconteceu, talvez fique para 2022, quando o mundo do futebol rumar ao Qatar.

* A jornalista viajou a convite da Qatar Airways

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