Opinião | Turismo – Olhar futuro

Por a 16 de Agosto de 2019 as 11:31

Apesar das dúvidas dos céticos e das certezas dos desconhecedores, o Turismo em Portugal cresce e consolida posições. Sendo certo que já são visíveis sintomas de que há um ciclo que está a terminar e que vamos entrar numa nova fase, seguramente muito desafiante.

Portugal – instituições, empresas, regiões – tem de se preparar.

Comecemos pelo quadro internacional. Em 2018 as chegadas de turistas internacionais já atingiram 1,4 Mil Milhões a nível mundial, antecipando em dois anos as previsões da OMT que, para 2030, apontam para 1,8 MM. A média do crescimento mundial entre 2008 e 2018 foi de 3,6%. O crescimento previsto para este ano está fixado entre 3 e 4%. Portugal ocupa a 17ª posição no ranking mundial das chegadas. É positivo.

Quanto às receitas externas, os valores já ultrapassam os 1,3 MM de euros em 2018, colocando o Turismo entre os três maiores setores exportadores mundiais. Portugal ocupa a 20 ª posição no ranking mundial. É positivo.
O Turismo, apesar do ceticismo de alguns – e do oportunismo político de ocasião – é uma realidade séria a nível mundial e também em Portugal.

O que nos deve preocupar, então?
Deve-nos preocupar o facto de estarmos perante um universo complexo e de alto risco, envolvendo atividades de natureza diferente e em crescente mutação num quadro mundial incerto.
Dados que importa salientar. O primeiro dado, estrutural, e que é menosprezado: o Turismo não se distribui de forma homogénea pelo mundo, nem em cada continente e mesmo em cada país.
O maior destino turístico do mundo, com mais de 50% dos turistas internacionais (700 Milhões), é a Europa; seguem-se a Ásia/Pacifico com 24% (340 M), as Américas com 15% (217 M), a África com 5% (67 M), o Médio Oriente com 4,5% (64 M). Um dado a ter sempre presente: cerca de 80-85% dos turistas internacionais, tanto na Europa, como nos outros continentes, provêm da sua própria região do mundo.
Sendo certo que a Europa, ao longo das décadas, perde posição relativa, é também evidente que vai continuar a ser, por muito tempo, o principal destino turístico do mundo. Assim o prevê a OMT.
É aqui que Portugal está.
Outro fator estrutural é a oferta. Portugal tem território, produto e uma oferta rica e diversificada. Mas tem de a enriquecer, diversificar e qualificar permanentemente. Sem ela não há Turismo.
Por isso, é importante ter consciência que é no quadro destes vetores que se realiza a concorrência e a competitividade entre destinos e produtos turísticos.
Portugal. Que fazer para se preparar para um futuro que já aí está?
Coisas simples. Todos os dias.
1.Ter plena consciência da natureza e profunda complexidade estrutural do Turismo.
2. Acompanhar, perceber a evolução e tendências dos mercados, a atuação dos concorrentes, a alteração comportamental dos turistas.
3. Dar especial atenção às contínuas transformações em setores determinantes que condicionam a prática da atividade turística. Nomeadamente as alterações resultantes da evolução das novas tecnologias na área do turismo.
4. Prestar atenção às alterações nas relações de poder entre os diferentes atores das plataformas tecnológicas globais em concorrência, sobretudo daquelas com tendências de domínio global. Expedia e Booking, neste momento, já se sentem ameaçadas por Google e Amazon. A Airbnb não esconde ambições. O setor aéreo low cost (EasyJet, Ryanair) não para.

Trata-se de áreas em geral abordadas por «especialistas», mas que não se transformam em objeto de reflexão na generalidade dos empresários e dos profissionais do Turismo. E dos cidadãos.
Acompanhar tudo, todos os dias.

Portugal?
Tem de estar ciente de que o quadro de evolução do Turismo a nível mundial vai ser cada vez mais complexo. A disputa dos mercados vai ser muito dura, utilizando instrumentos cada vez mais sofisticados na base das tecnologias digitais pouco transparentes na origem e utilização dos dados, na disputa dos potenciais «novos turistas», sobre os quais «sabem tudo».
Os sinais das tendências de afirmação dos candidatos a «novos donos» do turismo mundial são já visíveis e passam por empresas globais «sem rosto» e implacáveis.
Portugal, pela sua dimensão, localização e vizinhanças, tem de utilizar a máxima inteligência, construir o melhor enquadramento institucional para se defender e afirmar.

Sucesso do Turismo
1. Depende antes de mais de nos conhecermos melhor. Saber o que somos e ter a capacidade de definir até onde podemos ir.
2.Temos de conhecer melhor a realidade da problemática e dos mecanismos da atividade económica do Turismo internacional.
3.Temos de ter uma melhor difusão da informação (institucional) que existe, e é boa, mas que não é objeto de reflexão e discussão. Não chega para gerar conhecimento.
Temos de ter consciência de que as conjunturas se alteram, que a atual está a terminar e que vamos entrar num novo ciclo que exige estratégias corretas e ações coerentes, das instituições, das regiões e das empresas.
O contributo do Turismo para a economia nacional, é relevante e insubstituível. O país precisa que continue.
Conscientes de que «não temos turismo a mais» o que temos é «outros setores a menos».

Leia a opinião de  Vítor Neto, empresário e gestor, presidente do NERA, Associação Empresarial da Região do Algarve

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